A Experiência Mística e o Conhecimento

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A mística não é um problema a ser resolvido. É um abismo a ser contemplado.

Desde 2024 participo do grupo de pesquisa sobre mística do Labô. Sim, você leu certo: mística. E não estou falando de misticismo de boutique, com cristais, apanhadores de sonhos e afins.

Falo do estudo desse território meio nublado entre o sagrado e o profano, entre a loucura e a iluminação, onde dizer é menos importante do que sentir. De um espaço que é produto da combinação pouco convencional de ingredientes como nostalgia, erotismo e sacrifício.

Somos gente de tudo quanto é área. Psicologia, letras, filosofia, teologia ou só curiosos mesmo. Que lê Santa Tereza d’Ávila por esporte, durante o café da manhã, e depois vai tirar o lixo, passear com o cachorro e declarar o Imposto de Renda.

Gente que acredita e gente que duvida. Gente que sonha alto e gente que, como no meu caso, só quer tentar entender o básico antes de partir dessa para a melhor. Ou para a pior. Vai saber, né?

Mas, principalmente, gente teimosa.

Afinal, como traduzir em conceitos aquilo que, por natureza, está além deles? Como capturar o vento num punho fechado? Porque é isso. A experiência mística começa onde a linguagem termina.

Ela não é um problema a ser resolvido. É um abismo a ser contemplado.

Não importa o quanto a gente leia, pesquise ou debata. Ela não se deixa prender em tese, PowerPoint ou metodologia. Ela escapa. Sempre escapa.

Como peixe ensaboado ou aquele like deixado sem querer em perfil de ex que você não devia stalkear, ela escapa.

No fundo, pesquisar sobre esse tema é como empurrar a pedra da compreensão morro acima e aceitar que, apesar de todo rigor, paixão e citações em normas da ABNT, ela vai despencar de novo.

E aí a gente volta. Cansado e confuso, mas volta. E começa a fazer todo o caminho novamente, já sabendo que a tal pedra nunca vai chegar ao topo. Resignados como quem aceita um eterno 7 a 1.

Por isso, ao meu ver, todo pesquisador ou estudioso da experiência mística é uma espécie de Sísifo. Porque cada tese, cada artigo, cada argumento bem amarrado, não passa de uma tentativa de segurar o que, por natureza, não pode ser segurado.

E o que nos resta é seguir assim mesmo, entre trancos e barrancos. E entender que, apesar de todas essas limitações intransponíveis, é o que tem para hoje. E, muito provavelmente, é o que vai ter para amanhã e para depois também.  

É aceitar a condição de criatura insaciavelmente desejante e, ainda assim, acolher o conselho do velho Camus: é preciso imaginar Sísifo feliz.

Ou, no mínimo, bem hidratado.

Imagem: montagem com divulgação de Time Tunnel e Dr. Who

Sobre o autor

Jocê Rodrigues

Jornalista e pesquisador de provenance. Pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Direito Civil-Constitucional da UFPR (Grupo "Virada de Copérnico") e dos grupos de pesquisa "A Experiência Mística e O Conhecimento" e "Judaísmo Contemporâneo", ambos do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP (LABÔ).