Outsider

Ladainha de perplexidades filosóficas


Apresento aqui minha ladainha de perplexidades filosóficas – ou, uma vez que é bom que as preces tenham um título em latim – minha Litania Perplexitatum Philosophicarum. Contudo, me nego a oferecê-la de mão beijada, como se diz por aí. Exijo ou, ao menos, recomendo ao leitor que a recite no espírito adequado, já que a multiplicidade de palavras não é algo que, por si só, possa ajudar quem quer que seja.

Primeiramente, não quero que se pense que a ladainha é um exercício que visa a conquistar fiéis para o ceticismo – como a repetição nauseante do termo “absurdo” indiscutivelmente pode sugerir. Um filósofo digno desse nome deve, por definição, amar a sabedoria, suportando a dúvida apenas como um mal necessário. É claro que qualquer dúvida é melhor que qualquer certeza idiota. Entretanto, isso não significa que a dúvida, em geral, seja preferível à conquista da verdade. Dito de outro modo, esta ladainha não pretende aprisionar o leitor no ceticismo como palavra final, ainda que o pressuponha e o aconselhe como prática constante.

Ademais – e isto é o que mais importa -, o fato de quase todas as linhas do texto poderem ser reduzidas à fórmula “absurdo A e absurdo não A” não significa que eu considere que a realidade seja, em si mesma, ilógica. Não tomo cada uma das proposições abaixo no seu sentido ontológico ou sequer no seu sentido epistemológico. Trata-se de uma ladainha de perplexidades que, enquanto tais, são fenômenos exclusivos do campo psicológico.

Assim, quando declaro “absurdo A e absurdo não A”, só estou dizendo que eu, o autor, uma vez tendo acatado uma tese como sendo verdadeira ou mais provável que as concorrentes, desenvolvo por ela uma aversão, uma repulsa emocional: quase um sentimento de culpa por ter consentido com algo. Meu coração infiel se compraz mais em flertar com os equívocos – ou, em todos os casos, com aquilo que minha razão está convencida de ser um erro – do que com a Verdade, da qual não duvido, mas com a qual mantenho um relacionamento turbulento.

Confiro, portanto, ao termo “absurdo” um sentido mais próximo do original, já que no mundo romano “absurdus” eram os sons desafinados ou dissonantes que, por isso mesmo, só causavam incômodo – o mesmo incômodo que sinto ao abraçar uma tese pouco tempo depois de reconhecer sua superioridade. Talvez o leitor já tenha sentido esse estranho fenômeno em si. De qualquer modo, para que a ladainha funcione e seu objetivo seja alcançado – a saber, o exorcismo de certezas irrefletidas -, não é necessário que o leitor sinta os absurdos referidos, bastando que, em cada caso, se esforce para refutar a posição com que mais simpatiza e se anime a fortalecer aquela da qual discorda.

Todas as perplexidades registradas foram – ou ainda são – realmente vivenciadas por mim, desde as mais pessoais ou existenciais até as mais abstratas, de maneira mais ou menos intensa. Não proponho, portanto, dilemas vazios ou meramente “atuais” – o que é quase dizer a mesma coisa com palavras diferentes. É óbvio que não listei todos os problemas relevantes que há, mas, sem reivindicar originalidade, tenho a pretensão de só ter listado questões que valem algum suor.

Litania Perplexitatum Philosophicarum

Absurdo que procuremos nos divertir e absurdo que não procuremos.
Absurdo adequar-se ao mundo e absurdo a ele não se adequar.
Absurdo acreditar no amor e absurdo dele duvidar.
Absurdo se casar e absurdo não fazê-lo.
Absurdo que tudo seja sexo e também que algo não o seja.
Absurdo ter filhos e absurdo não os ter.
Absurdo negar ou afirmar que o prazer é o fim último da vida.
Absurdo que eu seja refém de meu inconsciente e também que não o seja.
Absurdo crer que sei quem sou e absurdo crer que não sei.
Absurdo que eu seja salvo e absurdo que eu seja condenado.
Absurdo afirmar ou negar a perfectibilidade humana.
Absurdo que todos sejamos iguais e absurdo que não o sejamos.
Absurdo que existam o justo e o injusto e absurdo que não existam.
Absurdo que exista ou que não exista Estado.
Absurdo afirmar ou negar que o capitalismo é bom.
Absurdo que exista propriedade privada e absurdo que não exista.
Absurdo afirmar que a democracia é o melhor regime e absurdo negá-lo.
Absurdo que nossos votos valham o mesmo e absurdo que não valham.
Absurdo preferir a igualdade à liberdade e absurdo seu contrário.
Absurdo que o Estado tenha o monopólio da violência e absurdo que não o tenha.
Absurdo que exista ou que não exista controle populacional.
Absurdo que haja pena de morte e absurdo que não haja.
Absurdo que os animais tenham direitos e absurdo que não tenham.
Absurdo que exista guerra justa e absurdo que não exista.
Absurdo que haja progresso e absurdo que não haja.
Absurdo que tudo seja histórico e absurdo que algo não o seja.
Absurdo que exista ou que não exista natureza humana.
Absurdo que haja ou que não haja vida fora da Terra.
Absurdo que a beleza seja objetiva e absurdo que seja subjetiva.
Absurdo que a arte faça a vida valer a pena e absurdo que não faça.
Absurdo que sejamos só matéria e absurdo que não o sejamos.
Absurdo que façamos metafísica e absurdo que não façamos.
Absurdo que conheçamos ou que não conheçamos as coisas tais como são.
Absurdo que exista a Verdade e absurdo que não exista.
Absurdo que tudo seja contingente e absurdo que algo não o seja.
Absurdo que tenhamos ou que não tenhamos livre-arbítrio.
Absurdo querer continuar vivo e absurdo querer morrer.
Absurdo que o mundo seja bom e absurdo que seja mal.
Absurdo que a existência tenha sentido e absurdo que não tenha.
Absurdo que a vida reflexiva seja ou não seja a melhor.
Absurdo que santos existam e absurdo que não existam.
Absurdo que rezemos e absurdo que não rezemos.
Absurdo que sejamos eternos e absurdo que sejamos mortais.
Absurdo que sejamos julgados e também que não sejamos.
Absurdo que Deus exista e absurdo que não exista.
Absurdo que ao invés do Nada seja o Ser.

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Sobre o autor

Ricardo Mantovani

Pós-doutorando em Filosofia pelo LABÔ/PUC-SP, licenciado, bacharel, mestre e doutor em Filosofia pela FFLCH-USP. Especialista em Filosofia da Religião e Filosofia Política, coordenador e professor do curso de pós-graduação em Ética e Filosofia Política da Faculdade Paulo VI, coordenador do Núcleo de Apologética e Ateísmo do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.