
Tenho o prazer de publicar, mensalmente, a coluna OUTSIDER, cuja existência se deve ao encorajamento de Andréa Kogan e Luiz Felipe Pondé. Por vezes oferecerei ao leitor textos longos e informativos, por vezes textos curtos e provocativos, além dos inúmeros tons de cinza que há entre esses extremos. Que não se prendam à forma. A única constância aqui será a sinceridade do autor: sinceridade que só se alcança quando se é um outsider.
Toda atividade intelectual deve tornar a experiência humana mais compreensível e, portanto, menos inóspita: eis a única justificativa possível para a existência de “luxos” como a arte, a filosofia e a ciência. Nesse sentido, as obras do intelecto não devem substituir nossa vivência imediata por ideias abstratas, mas, quando muito, devem se utilizar destas para explicar aquela. Apesar disso, parece ser um vício comum das ciências modernas (e, infelizmente, não só delas) a substituição – e não a explicação – da realidade por seus próprios constructos. Nomeio esse abandono da vocação primordial da ciência de Síndrome do Cientista Chifrudo. No entanto, antes de expor conceitualmente o que entendo por tal síndrome (daqui em diante chamada apenas de SCC), ofereço ao leitor algumas linhas ficcionais que visam ilustrar o que mais tarde será analisado filosoficamente.
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Eram cinco e meia da tarde. N.D. voltava para casa tomado por um sentimento de realização e, ao mesmo tempo, por uma intensa ansiedade. O sentimento de realização era fruto de um grande avanço que fizera em suas pesquisas, realizadas junto ao Departamento de Neurologia da Universidade em que trabalhava há menos de um ano. N.D. nunca se sentiu verdadeiramente acolhido em seu novo emprego e, de fato, tinha razão para isso. Muitos colegas docentes ainda não haviam aceitado sua contratação, já que tinham clara preferência por outros dois cientistas que foram superados por N.D. no concurso que lhe rendeu o cargo de professor auxiliar na instituição de ensino mais renomada de sua área.
Tudo tinha dado certo naquele dia. Sua hipótese a respeito dos mecanismos que determinam a tomada de decisão humana aparentemente havia sido corroborada pelos experimentos caríssimos financiados pela agência de fomento à pesquisa que, já há algum tempo, o ameaçava com a retirada das verbas. Ora, refletia ele, frente a minhas novas descobertas, a agência não só renovará a bolsa como provavelmente aumentará seu valor substancialmente. Esse pensamento fazia com que tudo lhe parecesse mais colorido, mais pleno de sentido. Pela primeira vez teve piedade da senhora da copa, que sempre lhe tratara muito bem, apesar de estar constantemente extenuada por ter que trabalhar em dois empregos e cuidar de três filhos. A grandeza daquela mulher de meia-idade de repente lhe saltara aos olhos. Com a benevolência de quem está de bem com a vida porque o destino acabou de lhe fazer um pequeno afago, N.D. se convenceu de que, quando se tornasse famoso, beneficiaria aquela humilde e esforçada mulher de algum modo. Num instante, contudo, sua atenção se voltou àqueles doutores que o desprezavam e que agora não perdiam por esperar. Se tivessem me ajudado, meditava ele, repartiria de bom grado os louros da conquista; no entanto, já que escolheram dificultar minhas pesquisas, terão o que merecem: escárnio e, quem sabe, difamação pública.
Entretanto, ao entrar na rua de sua casa a ansiedade de N.D. por vingança deu lugar à ansiedade de contar à sua esposa o recente ocorrido e de com ela comemorá-lo. No fim das contas, aquela também era uma vitória dela, já que desde a época de namorados ela o apoiava incondicionalmente e fazia tudo o que estivesse a seu alcance para ajudá-lo. É bem verdade que ultimamente andavam um pouco afastados por conta do excesso de afazeres, mas as novidades tudo justificavam e faziam ter valido a pena.
Ao entrar em sua residência, N.D. não encontrou sua esposa na cozinha ou na sala como de costume. Uma vez que havia chegado um pouco antes do usual e tinha ótimas notícias, caminhou silenciosamente até o quarto para ver se a encontrava lá. Nada… Foi só então que ouviu o barulho do chuveiro. A perspectiva de se banhar com a esposa e de lhe contar as boas novas num momento terno de intimidade fez com que se despisse no corredor e já entrasse nu no cômodo – o que só veio a aumentar sua humilhação, ao encontrar sua parceira satisfazendo um homem desconhecido com uma disposição da qual ele não lembrava de que ela era capaz.
Sem dizer uma palavra, N.D. pegou suas roupas, saiu de casa e se trancou no carro. Não teve forças para dirigir por muito tempo. Estacionou atônito, desesperado por processar o que acabara de testemunhar. Durante dois segundos tentou perdoar a esposa, afinal ele não vinha prestando muita atenção nela desde sua aprovação no concurso. Todavia, não demorou para começar a esmurrar o volante – e, se não voltou para espancar o casal, não saberia dizer o porquê.
Desesperado, N.D. tentou desviar o pensamento daquilo que lhe causava tanta dor, se refugiando na vitória de mais cedo. Certamente iria se separar da esposa, lhe deixando tão pouco quanto possível, se cercaria de alunas hipnotizadas pela grandeza do mestre, viajaria o mundo dando palestras caríssimas e seria reconhecido por seus pares como o intelectual cujos esforços finalmente explicaram a psique humana. Voltou então sua atenção para o conteúdo da tese que lhe traria notoriedade, a qual sustentava que o homem não é livre como pretenderam teólogos, filósofos e toda a gente, mas sim um ser tão determinado em suas ações como o é uma pomba ou o motor a explosão que o levara até ali.
Abruptamente, porém, um raio de lucidez lhe fulminou o espírito: se nós não somos livres, como posso julgar a traição de minha esposa? Não estava ela obrigada a ter um amante tanto quanto a lâmpada não pode se negar a iluminar quando apertamos o interruptor? E o que pensar de minha admiração pelo esforço da senhora da copa ou de meu ódio pelos professores do departamento? Estes sentimentos não são, segundo minha própria teoria, tão infundados quanto guardar rancor de uma nuvem de chuva que ensopou meu cobertor no varal? Se não há liberdade não há certo e errado, nem mérito e demérito. Tudo é necessário! Tudo é necessário! – foram estas as palavras de N.D. antes de abrir a porta de seu automóvel e se jogar embaixo de um ônibus que muitas vezes o levara até o laboratório.
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Uma árvore pode cometer um crime? Um cachorro pode cometer um crime? Ora, 99,999% das pessoas das mais diversas épocas, lugares e culturas responderiam negativamente a tais questões. Por quê? Porque ainda que uma árvore ou um cão possam matar alguém, eles nunca o fazem livremente. No caso de um animal homicida, note-se que mesmo que tenha certa consciência do que faz (o que o difere drasticamente de um vegetal), ele ainda assim é considerado moral e juridicamente inimputável – e isto precisamente por não ter livre-arbítrio. O ser humano é o único animal livre, isto é, que tem a faculdade de dizer “não” às pressões físicas, químicas, biológicas, psicológicas e sociais. Eis uma verdade reconhecida universalmente, sendo negada apenas por alguns “iluminados” que, como diz minha esposa, estudam para ser burros.
Não quero entrar em discussões epistemológicas mais profundas, de modo que remeto o leitor que quiser entender meus pressupostos filosóficos a meu ensaio sobre o multi-intuicionismo (O multi-intuicionismo e o fenômeno da inabitação). Aqui, basta que se diga que o que leva todos os seres humanos a aceitarem o livre-arbítrio é a experiência imediata que têm dele. Eu SEI que sou livre para fechar ou não meus olhos neste momento, que posso ou não mexer agora meu dedão direito ou meu anelar esquerdo etc. A existência do livre-arbítrio goza da mesma evidência de que gozam a existência de meu corpo, a do mundo “exterior” ou, ainda, a da relação lógica entre as premissas e a conclusão de um silogismo válido.
As pessoas – geralmente filósofos, cientistas e, por vezes, teólogos – que não aceitam o livre-arbítrio costumam alegar que não há provas de sua existência. Concordo com eles nesse último ponto. No entanto, chamo a atenção dos verdadeiros amigos da sabedoria para o seguinte: só se deve exigir demonstrações daquilo que não é auto evidente. Exigir que tudo seja provado é o maior sintoma da SCC. Essa síndrome é causada por dois fatores: insegurança e falta de perspicácia. Os inseguros querem que tudo seja demonstrado porque não confiam em seu próprio testemunho para declarar que algo é verdadeiro, só se dispondo a aceitar aquilo que outros também aceitam. Como sua fraqueza os torna reféns de terceiros, só dão anuência àquilo que é passível de demonstração: ou seja, àquilo que pode extorquir um assentimento do grupo.
Por sua vez, a falta de perspicácia dos que sofrem de SCC se depreende do fato de não notarem que todo raciocínio parte de coisas autoevidentes e, portanto, indemonstráveis. Cada um dos nexos lógicos de qualquer prova é, em si mesmo, indemonstrável e autoevidente. “Um mais um é igual a dois”, “o que digo é aquilo que digo e não seu contrário” e “todo B é A, C é B, logo C é A” não são coisas passíveis de prova – sendo, pelo contrário, os pressupostos de toda prova. Assim sendo, os que se negam a aceitar a existência do livre-arbítrio na ausência de provas não estão, como equivocadamente acreditam, preterindo o indemonstrável em nome do demonstrável – mas tão somente preterindo, injustificadamente, um indemonstrável autoevidente (o livre-arbítrio) em nome de outros indemonstráveis autoevidentes (nomeadamente todos os “indícios” e nexos causais que comporiam uma pretensa prova da liberdade humana).
Isto posto, voltemos ao caso de nosso desafortunado cientista. Antes de mais nada, dado que a existência do livre-arbítrio é autoevidente, é óbvio que N.D. nunca chegaria a provar sua não existência – assim como nenhum cientista do mundo real nunca conseguirá demonstrá-lo, independentemente de quão negacionista seja. Apesar disso, é necessário confessar que as deduções que N.D. faz de sua hipótese determinista são todas verdadeiras.
Vejamos. Caso não houvesse livre-arbítrio toda ética se esboroaria, já que o certo e o errado só existem porque somos livres para abraçar um ou outro. Ninguém em sã consciência se atreve a chamar o asteroide que extinguiu quase todos os dinossauros de “mau” ou o leão que mata a zebra de “injusto”. Ora, se o ser humano não for livre, suas ações são tão inexoráveis quanto o movimento dos corpos celestes e os instintos animais – de modo que Stalin, Hitler, um terrorista do Hamas ou um estuprador de bebês recém-nascidos deveriam ser considerados tão inocentes (sim, a palavra é essa!) quanto uma flor que desabrocha na primavera. Se não há injustiça, não há injustos.
A não existência do livre-arbítrio não levaria consigo somente qualquer padrão de justiça (entendido quer como absoluto, quer como relativo), mas também solaparia o fundamento de nossos sentimentos. N.D. admirava a “senhora da copa” e amava sua esposa porque entendia que elas faziam um bem a que não estavam compelidas por nenhum elemento estranho à sua própria decisão de fazê-lo – assim como odiava seus colegas de docência, o amante de sua esposa e, no fim, sua própria esposa por julgar que estes lhe faziam um mal ao qual não estavam constrangidos. Ser digno de ser amado é ser realizador de algo positivo a que não se está coagido, assim como ser merecedor de ser odiado é ser perpetrador de algo negativo a que não se está obrigado.
Por tudo quanto disse, percebe-se que negar o livre-arbítrio é viver na mentira – e isso em pelo menos dois sentidos. Primeiramente, quem abjura o livre-arbítrio vive na mentira porque contesta, artificiosamente, aquilo que SABE ser verdade. Ademais, quem nega o livre-arbítrio precisa, no dia a dia, se esquecer da teoria que defende para que sua vida seja possível – já que um determinista teórico é, na prática, tão moralista e sentimental quanto qualquer um de nós.
Ao contradizer a realidade e ao defender ideias patentemente falsas, N.D. representa a civilização ocidental moderna, a qual, sofrendo pandemicamente de SCC (a tendência para substituir a realidade por teorias excêntricas), parece caminhar para o mesmo destino daquele que, neste texto, escolhi para ser seu símbolo.

