Outsider

Argumento pra boi dormir


Publico este texto para desmoralizar o argumento do ajuste fino ou do design inteligente. Alguns afirmam que se trata de dois argumentos distintos, o primeiro mais calcado na física e o segundo mais fundamentado na biologia. Não me importo com a distinção, já que o que vou falar os derruba de uma só vez. Escrevo tomado pelo desprezo de quem já aceitou um argumento que hoje reconhece ser risível. Escrevo tomado pela raiva de quem vê charlatões construindo sua carreira de “intelectuais públicos” sobre ele. Por fim, escrevo para abrir os olhos de pessoas bem-intencionadas que, por qualquer motivo, ainda o aceitam.

O argumento do ajuste fino baseia-se, em todas as suas versões, na ideia de que um universo capaz de sustentar a vida é tão improvável que seria pouco razoável afirmar que é fruto do mero acaso. Seus propositores ressaltam que se fatores como as quatro forças básicas da natureza (gravitacional, eletromagnética, forte e fraca), a densidade inicial do universo, sua taxa de expansão etc., fossem ligeiramente diferentes, nós não existiríamos. Logo, ainda segundo esses senhores, é óbvio que Deus existe.

Para tornar seu argumento mais compreensível e palatável aos leigos, alguns autores se utilizam do exemplo do pelotão de fuzilamento – que, supostamente, seria análogo ao raciocínio envolvido na argumentação do ajuste fino. Dizem eles: imagine-se um pelotão de fuzilamento com, digamos, mil soldados, todos mirando a cabeça de um homem colocado em sua frente. Imagine-se também que, recebendo a ordem do general, todos soldados atiram e erram o alvo. Pergunta-se: é mais razoável que o condenado acredite que todos erraram por puro acaso ou que, de algum modo, combinaram o desfecho inusitado?

Ora, continuam os propositores do argumento, já que seria verdadeiramente absurdo pensar que os mil soldados erraram despropositadamente e que o condenado deve a manutenção de sua vida a uma coincidência, seria ainda mais absurdo pensarmos que devemos nossa existência ao acaso – uma vez que a efetivação das condições que tornaram a vida possível era ainda mais improvável do que a gafe geral do pelotão. Havia no início do universo muito mais do que mil armas apontadas para nossas cabeças – isto é, muito mais do que mil configurações da natureza nas quais a vida não seria possível – de modo que, se aqui estamos, é extremamente provável que isto se deve a um plano, a um conspirador cósmico: a um designer.

Impressionados com o raciocínio? Espero que não. Antes de analisar o argumento em si, preciso dizer que a pretensa analogia que há entre ele e a historinha do pelotão de fuzilamento é ilusória. Note-se que só preferimos a hipótese da conspiração dos soldados à hipótese de seu erro contingente porque sabemos que dificilmente mil atiradores profissionais errariam seu alvo. Mas, por que sabemos disso? Porque já vimos atiradores profissionais em ação outras vezes e conhecemos sua eficácia. Agora, pergunto eu, alguém conhece outro universo? Não. Mas, se não conhecemos outro universo, como podemos afirmar que a configuração do nosso é improvável?

Para retrucar esta objeção os defensores do ajuste fino talvez aleguem que não precisamos conhecer outros universos para reconhecer a peculiaridade do nosso. Talvez digam que, uma vez que a natureza “obedece” à matemática, os universos possíveis eram, em princípio, tão numerosos quanto a infindável variação numérica que podemos imaginativamente atribuir a cada uma de suas constantes e forças basilares – o que, uma vez mais, garantiria a chocante improbabilidade da existência de um universo compatível com a vida. Contudo, devo dizer que também aqui eles se equivocam. Do fato de que a matemática se mostra um ótimo instrumento para compreender ESTE universo, não se pode legitimamente concluir que ela pode ser usada para estimar a quantidade de OUTROS universos alegadamente possíveis. Tal erro é tão elementar quanto afirmar que, uma vez que pés-de-pato são bons para nadar, também devem ser ótimos para voar.

Caso o leitor tenha perdido o fio da meada no parágrafo acima, ofereço agora uma analogia simples que, por si só, é capaz de revelar o ridículo do ajuste fino: Joãozinho jogou na Mega da Virada. Fez apenas um jogo. Seu jogo era somente um entre os quatrocentos milhões de jogos feitos naquela ocasião. Sua chance, portanto, era de 1/400000000. Joãozinho ganhou. Pergunto: para que Joãozinho tenha ganhado foi necessário um “ajuste fino” da roleta? Foi necessário um designer que tenha direcionado o resultado a seu favor? Claro que não. Por quê? Porque tomada isoladamente, cada uma das apostas tinha exatamente a mesma chance de ser sorteada – assim como cada um dos universos possíveis (inclusive o nosso) tomado isoladamente tinha a mesmíssima possibilidade de vir à existência. Ganhamos na loteria? Sim. Isso prova que há um Deus? Claro que não…

Perceba-se que o que acabo de dizer impede que os defensores do argumento teleológico (palavrão que nomeia esse tipo de argumento no mundo da filosofia) se refugiem na biologia – ou, o que é muito mais comum, na sua falta de conhecimento desta. Ainda que se conceda que nossa evolução tenha contado com inúmeros passos improváveis, o fato é que um universo onde esses passos ocorrem é tão improvável quanto todos outros em que não ocorrem quando tomados isoladamente. Et ça suffit!

O filósofo Blaise Pascal, grande gênio do século XVII, certa vez disse que não há nada mais pernicioso para a religião do que oferecer provas falaciosas a seu favor. Concordo com ele. Pascal era cristão. Eu também sou. Penso que ser cristão é amar a verdade mesmo que ela nos contrarie. Ou melhor: ser cristão é amar a verdade exatamente porque esta nos contraria, nos esmaga. Espero que os religiosos que me leem encontrem essa disposição em seus corações. Os ateus militantes, por sua vez, podem me mandar um PIX, já que nunca vi nenhum deles refutar o argumento do ajuste fino tão bem quanto acabo de fazer.

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Sobre o autor

Ricardo Mantovani

Pós-doutorando em Filosofia pelo LABÔ/PUC-SP, licenciado, bacharel, mestre e doutor em Filosofia pela FFLCH-USP. Especialista em Filosofia da Religião e Filosofia Política, coordenador e professor do curso de pós-graduação em Ética e Filosofia Política da Faculdade Paulo VI, coordenador do Núcleo de Apologética e Ateísmo do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.