
Hybris é conceito grego que pode ser traduzido como um descomedimento devido a uma ação humana imprudente, geralmente de um herói trágico que pagará caro por desafiar os deuses. Este foi o conceito escolhido para nomear esta coluna mensal que visa à provocação. Hybris expressa a essência do agir humano no mundo; atos situados entre a pequenez ontológica e as grandes aspirações existenciais. Estamos neste palco chamado LABÔ, local que insiste em fazer ecoar o canto dos trágicos.
O escárnio diante do conhecimento e da cultura dentro dos muros do mundo acadêmico é mais comum e frequente do que se imagina, tenho um pouco de pena da ingenuidade daqueles que acham que as universidades são a casa da erudição e do debate. Ainda me lembro de um dia em que eu trabalhava Shakespeare com alunos de publicidade e pedi para que eles fizessem uma apresentação sobre uma de suas tragédias, imediatamente, com a aula ainda em curso, uma das alunas foi pesquisar uma das peças na internet para comprá-la e disse indignada com em voz alta: “Nossa, vinte reais?! Eu não irei gastar meu dinheiro com isso”. Esse episódio se tornou marcante pelo fato de revelar o atual valor do saber para os alunos, para as instituições e mesmo para os docentes: o de troca.
Em um mundo tomado pelo pragmatismo vulgar e pelo capital, a virtude intelectual não poderia ter outro valor se não o de troca. “Quanto isso vai me custar?” é a grande questão que medeia a relação entre sujeito (supostamente pensante) e o acesso ao repertório. O conhecer passou de uma virtude, algo que tem valor inerente por si mesmo, para se tornar um meio de aquisição de capital. Isso fica muito claro quando comparamos aulas práticas, em que o interesse dos alunos aumenta notoriamente, por compreendem que poderão usar isso para ganhar algum dinheiro, em relação a aulas estritamente teóricas, nas quais o desinteresse e o enfado se tornam nítidos. Aqui aproveito para evocar mais uma experiência pessoal, quando, em uma aula de teoria da comunicação, uma aluna me perguntou quando começariam as aulas práticas.
Por mais que tenhamos começado este texto usando alunos para ilustrar o descaso com o conhecimento, é injusto atribuir a eles a decadência intelectual que vivemos, na verdade, eles são o elo mais fraco desta cadeia, os mais afetados, a consequência das causas. Por mais que se fale muito sobre a importância das instituições de ensino e dos professores como um modo de solução dessa crise, o fato é que o modo como as universidades têm administrado esta relação e como os professores têm reagido parece agravar ainda mais o problema.
Começaremos do mais fraco para o mais forte. Por mais que se queira e se tente construir uma idealização sobre a figura dos professores, como pessoas que vivem para o sacerdócio do conhecimento e se sacrificam em nome da formação dos alunos, esta ideia está completamente equivocada, embora seja utilizada em treinamentos de começo de semestre para motivar os docentes, a realidade é muito mais óbvia e cruel. Os professores são pessoas comuns que se preocupam com dinheiro e com reconhecimento. Considerando que as instituições de ensino não são um lugar que circula muito capital, logo de cara já percebemos o quão desgastante esta profissão se torna: lidar com dezenas ou centenas de alunos no mesmo dia, preparar aulas, preencher diários de classe, bolar e corrigir provas e trabalhos, fazer reuniões pedagógicas e por vezes ser confrontado por alunos ou pais de alunos; é muita tarefa para a pouca remuneração que se paga, considerando que boa parte das horas que se usa pra fazer isso não são remuneradas. Não à toa ninguém mais quer ser professor.
A especialização também é algo amplamente rejeitado por boa parte dos professores. Se nossos clientes, me desculpem, se nossos alunos, se perguntam “quanto isso vai me custar?”, os docentes questionam: “quanto eu vou ganhar com isso?”. “Para que fazer mestrado e doutorado se meu aumento salarial será de 5%?”, isto é, quando existe alguma diferença salarial entre as titulações. A consequência desta desvalorização é que cada vez mais temos menos professores que se dedicam à aquisição de repertório e à produção acadêmica, afinal, de que adianta tanta erudição e dedicação se ninguém vai prestar atenção na sua aula, do que adianta escrever um artigo científico para publicar em uma revista acadêmica que ninguém lê, ou pior, pagar para ser publicado, você não leu errado, eu escrevi pagar.
Embora eu lamente por aqueles que tratem o exercício da docência como um mero ganha pão, em vez de entender isso como uma oportunidade para se exercer e desenvolver virtudes intelectuais, não julgo meus colegas, todos já estamos cansados de sermos subutilizados e desvalorizados. Certa vez eu estava me queixando de algumas situações vividas em sala de aula e sua relação com a institucionalidade acadêmica e um amigo meu me deu tapinhas nas costas e disse: “é Chicão, agora você sabe como as salsichas são feitas”.
Agora vamos falar das fábricas de salsichas. Para começo de conversa Black Friday e faculdade não rimam, fico imaginando o que Platão, o fundador da academia, diria ao ver o apelo financeiro de instituições de ensino para reter e conquistar público. Definitivamente a junção entre capital e educação é catastrófica, pois não se deve mensurar esforços e material quando se tem o objetivo de uma boa formação, lotar salas e colocar professores para dar diversas matérias ao mesmo tempo, sendo que muitas fogem do conhecimento por serem distintas de sua formação e isso demonstra uma preocupação maior em explorar a mais-valia do que entregar um serviço de boa qualidade.
Alguns argumentarão que o mundo burguês e sua sociedade mediada pela mercadoria permitiram a democratização do conhecimento e o acesso a muitas camadas sociais que eram excluídas deste processo, pois antes do iluminismo moderno a formação educacional institucionalizada era exclusiva para a aristocracia ou o clero. Inicialmente, antes de responder a esse argumento, eu diria que sempre que vemos pessoas defendendo com afinco instituições que têm poder financeiro e influência política, é necessário entendermos que geralmente há um cinismo corporativista por trás desta defesa, sobretudo quando é alguém que também participa da fabricação de salsichas. Dito isso, é inegável que a modernidade produziu esse acesso e essa democratização do conhecimento, mas com que qualidade? Como uma mentalidade produtivista que tem como meta “formar tantos profissionais de x área por semestre” pode de fato levar a sério a dificuldade e a rigidez que é a aquisição verdadeira de conhecimento?
Não quero que este ensaio seja lido como utópico, ou excessivamente romântico, apenas tive a pretensão de alertar que o direcionamento que damos para o campo acadêmico no mundo contemporâneo é incompatível com sua essência, pois embora exista um valor prático de uso, substancialmente a amizade com o conhecimento é uma virtude, e enquanto tal tem valor autônomo e independente, além de demandar muito tempo e esforço para ser criado, para germinar em nossas almas. Nossa época será lembrada pelo automatismo do conhecimento, eis o segredo do sucesso por detrás das inteligências artificiais.

