Hybris

O Super-Homem virou gibi: da impossibilidade da práxis crítica


Uma das maiores contradições da modernidade está entre sua promessa de emancipação individual, a autonomia moral conquistada a partir do esclarecimento, e a massificação da sociedade em processos econômicos, culturais e políticos de alinhamento e coesão social rumo à construção de um projeto que a contemple como um todo. Se por um lado temos o espírito do Iluminismo em seu desencantamento das superstições que nos atrapalham a compreender o mundo com mais clareza para podermos nos posicionarmos de modo crítico, por outro temos justamente o apagar de qualquer ímpeto disruptivo em nome do produtivismo cotidiano que alimenta a esperança do progresso moderno.

O sujeito moderno crê que sua capacidade crítica pode fazê-lo consciente dos males do mundo e, a partir disso, transformá-los, saná-los, revertê-los, resolvê-los, olha para si mesmo como agente de sua história. No entanto, o mundo ao seu redor parece a todo o momento encaixá-lo e alocá-lo em lugares e funções pré-estabelecidos, como uma grande máquina que precisa de peças que volta e meia quebram e precisam serem repostas. A sociedade moderna se configura como um grande mecanismo que demanda de material humano para sobreviver, para manter seu produtivismo e burocracia ativos e funcionais. Deste modo, o Iluminismo enquanto racionalidade técnica se mostra essencial para este modelo de sociedade, mas a racionalidade reflexiva, justamente aquela responsável pela emancipação do sujeito, pode se mostrar um problema quando crítica e combativa deste sistema.

Naturalmente, esta contradição seria percebida pela filosofia, tornando-se um tema importante para autores do século XIX em diante. Muitas propostas de transformação da realidade moderna foram pensadas, tanto em perspectivas mais individualistas como coletivas. O legado marxista, por exemplo, busca repensar a modernidade, propondo uma nova transformação que eliminasse a classe burguesa e reconstruísse a sociedade a partir de uma nova dinâmica econômica. O problema deste tipo de análise, sob o nosso paradigma das contradições fundamentais da modernidade, é que ela acredita ser possível construir novas relações sociais, mas mantendo a lógica de progresso e massificação, isto é, ela tenta criar um novo mundo a partir de um percurso parecido. Não à toa a realidade dos países socialistas não se mostraram muito melhores do que o capitalismo, ambos mostraram êxitos e deficiências em áreas distintas.

A tentativa de construir uma sociedade moderna humanista é como tentar fazer dieta dentro de uma loja de doces, os objetivos simplesmente não se encontram. É claro que há a possibilidade, como já ocorreu inúmeras vezes, de conseguirmos vitórias sociais importantes e de superarmos a barbárie e a ignorância em muitas questões sociais que foram transformadas pela política, mas também é nítido que há um limite para estes ganhos, pois as elites dirigentes, independentemente de serem um partido ou uma oligarquia burguesa, até podem ceder ou colaborar em alguns pontos, porém nunca renunciarão ao seu poder e aos seus benefícios. Sem dizer que, por vezes, estes avanços sociais podem ser um modo de acalmar a grande maioria e contribuir para a manutenção do status quo. No Brasil, tivemos muitos avanços no que diz respeito a luta contra o racismo, a misoginia e o capacitismo, contudo, a concentração de renda e a desigualdade de classes, onde de fato importa para uma transformação social verdadeira, seguem aumentando.

Neste sentido, a solução seria uma revolução, mas o único modo de fazê-la seria através da violência extrema. Combater fogo com fogo. Sem garantias que toda esta barbárie de fato levaria a um mundo melhor. Tirando o fato de que um revolucionário que estaria disposto a fazer “tudo o que precisa ser feito” para garantir o “progresso”, talvez não tenha a condição psicológica e moral ideal para construir uma sociedade de igualdade, fraternidade e liberdade.

Se Marx seria um expoente do que seria uma solução para as contradições modernas a partir de uma reconfiguração da mesma, poderíamos trazer Nietzsche como um grande crítico do projeto moderno, ao romper com as teleologias políticas de sua época e buscar uma saída estética individual.

A filosofia nietzschiana nos apresenta a teoria do Além-do-homem como uma possibilidade de saída estética diante do mundo niilista que veio a se tornar a modernidade. Segundo o pensador alemão o ser humano se constitui com um equilibrista que caminha em uma corda bamba, que está pendurada sobre um abismo, entre o animal e o Super-homem (a outra tradução possível do termo alemão Übermensch). A escrita poética de Nietzsche nos traz a imagem do abismo como uma metáfora para a falta de sentido do mundo, a constatação niilista da miséria existencial, e o equilibrista que está entre o animal, a condição mais baixa do ser humano, e o Além-do-homem, sua autonomia moral absoluta, como nós que podemos decidir nos servirmos da falta de sentido da vida para criar nosso sentido e dar vazão à nossa vontade de potência.

Nietzsche defendia que, para escapar da sociedade de rebanho e da moral cristã que a dominava, precisaríamos pensar nossa autonomia para além do bem e do mal, compreender que esta moralidade nada mais é do que uma resposta ressentida de fracos diante da violência da existência e que criamos regras por medo de sermos superados por aqueles que assumem sua força e sua vontade. Neste sentido, deveríamos dar vazão aos nossos desejos, rejeitar qualquer tipo de moralidade castradora e buscar uma vida estética, dionisíaca, que contemple as sensações e aproveite a existência em seu limite. Dançar com a vida. Cair no abismo niilista dançando.

No entanto, esta saída acaba sendo tão utópica como um mundo socialista fraterno. Afinal, em uma realidade em que o capital penetra praticamente em todas as instâncias de nossas vidas, qual espaço temos para abdicar do rebanho e termos uma existência regida pela vontade de potência? Como podemos escapar do produtivismo cotidiano em troca de dinheiro para termos condições de vida razoavelmente confortáveis? Sobretudo, quando outros dependem de nós. O que seria exatamente a práxis nietzschiana quando nascemos inseridos em uma sociedade que dinheiro se converte em liberdade e acesso?

De tal modo, penso em um paralelo literário entre Hamlet e Gregor Samsa. Enquanto o príncipe da Dinamarca se questiona sobre o ser ou não ser, representando o protótipo do sujeito moderno esclarecido, o pobre Gregor nem tem tempo para pensar, pois antes mesmo de acordar já foi reificado em um terrível inseto. No final das contas, somos como Samsa, fomos comprados e vendidos antes mesmo de vislumbrarmos qualquer tipo de esclarecimento. Em uma realidade kafkiana de domínio absoluto do sistema sobre o indivíduo, o que resta ao super-homem nietzschiano é virar gibi e fazer parte da reificação cotidiana.

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Sobre o autor

Francisco Etruri Parente

Bacharel em cinema pela FAAP, mestre e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e especialista em filosofia pela Universidade Estácio de Sá. Autor e professor universitário. É coordenador do grupo de pesquisa Teoria Crítica e Sociedade do Consumo, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ, onde também realiza estágio de pós-doutorado.