Hybris

O estoicismo enquanto ideologia


No mundo contemporâneo o estoicismo vem ressurgindo como um modo de filosofia que auxiliaria a lidarmos com a contingência da pós-modernidade, junto a todas as frustrações advindas dela. Tornou-se frequente encontrarmos ideias de filósofos como Sêneca, Marco Aurélio e Zenão sendo confundidas com autoajuda de segunda categoria. Há um retorno reducionista às suas filosofias como uma maneira de produzir conformismo diante do mundo contemporâneo, em que pílulas e fragmentos filosóficos descontextualizados aparecem para clamar pela inação e até mesmo pela alienação de seus leitores ou espectadores. Neste texto veremos a perversidade deste tipo de raciocínio e sua utilização em prol do cinismo sistêmico em que vivemos.

Por mais que o estoicismo apareça nos dias de hoje como uma filosofia que explicaria como viver a vida e aceitar as limitações humanas diante de um mundo sobre o qual não temos controle nenhum, ao nos aprofundarmos de modo mais coerente nesta corrente filosófica verificaremos que ela depende, fundamentalmente, de uma base metafísica que acabou por se dissolver na acidez cáustica do niilismo moderno. Os estoicos acreditavam que o universo era regido por um logos, uma espécie de razão metafísica que alinhava a realidade a uma harmonia, construindo um cosmos ordenado e justo, em que cada coisa tinha seu lugar devido. Cabendo a nós seres humanos usarmos de nossa racionalidade para compreender tal logica metafísica.

Deste modo, só poderíamos compreender devidamente sua ética a partir de sua concepção metafísica, uma vez que seu modo de agir no mundo está intimamente vinculado com a ideia de logos que discutimos acima. Para os estoicos a virtude estaria em compreender a justiça desta ordem cósmica, usando a razão para aceitar que o mundo é o que é, sem nos deixarmos levar por prazeres físicos enganosos e passageiros que levarão ao sofrimento, sendo o comedimento seu “mandamento” central. A filosofia estoica busca a ataraxia, isto é, um estado de imperturbabilidade, não se deixar afetar pela natureza do mundo, uma vez que ela é o que é, e continuará sendo independentemente do seu julgamento subjetivo e individual sobre ele.

Há uma imagem estoica interessante e didática para melhor explicar esta relação. Imagine um cachorro amarrado a uma carroça, o cão não tem força alguma contra a carroça, seu movimento arrasta o pobre animal canino condenado à impotência. Deste modo, só lhe resta duas escolhas, não aceitar sua realidade e ser esfolado tentando resistir à carruagem, ou acompanhá-la e preservar a si mesmo, compreendendo a natureza desta situação, a qual ele não pode controlar ou determinar. Neste caso, nós seriamos como o cachorro e o mundo como a carruagem, cabendo a nós entendermos o caminho que o veículo seguirá e segui-lo, tornando a resiliência e o comedimento virtudes para não nos alienarmos de nossa natureza em um hedonismo equivocado. A aceitação do destino se torna uma chave essencial para o bem-viver.

Dado este brevíssimo resumo do que seria o pensamento ético estoico e sua relação com a metafísica, pode-se pensar que esta escola da filosofia antiga seria muito bem-vinda nos dias de hoje, mesmo que esse tal logos já não faça muito sentido para nós, que compreendemos o universo como um grande caos aleatório e absurdo, ainda assim, o mundo continua sendo uma carroça que nos arrasta e não adianta negar isso, a resiliência ainda é uma virtude importante. No entanto, o que muitas vezes não é dito sobre o estoicismo e as outras escolas helênicas, como os epicuristas, os céticos e os cínicos, é que elas surgem em um momento de grande decadência política de Atenas e de crise na democracia, daí viria um traço importante destas correntes: uma espécie de despolitização fundamental.

Se retornarmos ao período filosófico anterior a estas escolas acabaremos por encontrar as monumentais obras de Platão e Aristóteles; estes dois precursores da filosofia tinham a política como um interesse central de suas obras, pois ambos vivenciaram a democracia ateniense e seu intenso clima de debates e discussões. Para os dois filósofos, a relação entre o sujeito e sua pólis era praticamente ontológica, uma vez que as potencialidades deste indivíduo estariam intimamente ligadas ao clima político que lhe permitiria ou não as desenvolver. O indivíduo era importante para este mundo político.

Mesmo com críticas ao modelo ateniense, sobretudo em Platão, os dois filósofos consideravam a cidadania um objeto de debate fundamental para a filosofia, diria até, que todo o pensamento filosófico deles teria uma finalidade política para o bem-viver de seus cidadãos, um vínculo intrínseco entre ética e política. Para ambos, a lição de Sócrates de que preferir morrer como um cidadão ateniense em vez de escolher o ostracismo da expatriação ainda estava fresco em suas memórias como um exemplo de ética cidadã.

Por outro lado, as escolas helênicas vivenciaram a decadência da democracia ateniense, seguida da dominação de Alexandre, o grande, e depois a dominação por parte dos romanos. Estes eventos criaram uma percepção de impotência política nos indivíduos, fazendo com que eles se reconhecessem menos como cidadãos de uma cidade específica e mais como sujeitos cosmopolitas, “cidadãos do mundo”, que estavam à mercê de uma mesma tirania imperial centralizadora. Deste modo, a política foi paulatinamente sendo escanteada ao passo que filosofias mais existenciais passaram a ganhar mais destaque e o mundo passou a ser visto como uma grande carroça que nos arrasta. Evidentemente, este contexto histórico não invalida a riqueza filosófica destas escolas, mas devemos estar atentos para suas limitações também.

O grande problema nesta grande popularização do pensamento estoico é que ele acaba sendo um elemento de despolitização, que acaba por se tornar alienador diante das contradições sociais em que vivemos. Pois, se há algo de positivo na modernidade, é que ela nos mostra que o mundo pode ser diferente, e que nós podemos tentar lutar para mudá-lo, mesmo que o destino pareça imprevisível e, por vezes, trágico.

Sendo assim, quando observamos um excesso de palestras sobre estoicismo no mundo do trabalho, isso parece ser mais uma ideologia conformista do que uma preocupação legítima com a saúde mental dos funcionários que não conseguem exercer ataraxia em meio a uma enxurrada de horas extras não pagas e recorrentes layoffs. Nesta perspectiva, o trabalho se torna um campo despolitizado em que os empregados devem aceitar sua condição como quem aceita um destino trágico, mas diferentemente dos estoicos que vivenciaram regimes totalitários, não podemos nos esquecer que vivemos em uma democracia, em que a voz do indivíduo se torna importante para a pólis. O trabalho, além de outros campos, deve ser compreendido em seu panorama político de transformação e luta. Caso contrário, estamos entregues à alienação e à exploração, mesmo tingidos com as refinadas e belas matizes do estoicismo.

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Sobre o autor

Francisco Etruri Parente

Bacharel em cinema pela FAAP, mestre e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e especialista em filosofia pela Universidade Estácio de Sá. Autor e professor universitário. É coordenador do grupo de pesquisa Teoria Crítica e Sociedade do Consumo, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ, onde também realiza estágio de pós-doutorado.