Hybris

Homero além do bem e do mal


O mundo homérico é fascinante. Uma das maiores, se não a maior, de todas as literaturas já escritas, não apenas por todos os séculos que atravessou, atestando sua qualidade e profundidade indubitáveis, mas também porque Homero parece ter expressado a condição humana de modo ímpar. Mesmo que seus escritos tenham se originado em uma época muito singular na história e na cultura humana, ainda assim, o modo como ele expressa a nossa condição trágica manifesta o cerne da ontologia do ser no mundo.

Retornar a Homero é nos defrontarmos com nossa humanidade em sua demasia. O poeta grego, ou o grupo de poetas que se denominaram deste modo, acabou por mostrar em seus poemas a dualidade que constitui a singular condição humana, ao mesmo tempo que somos capazes de coisas excepcionais, também não passamos de meros mortais. Todos somos ontologicamente frágeis, embora possamos ter uma grandiosidade existencial. Os dois poemas homéricos, Ilíada e Odisseia, destacam dois episódios da Guerra de Tróia para relatar as virtudes e as limitações de dois heróis excepcionais, Aquiles e Odisseu, respectivamente. Ambos estão acima de nós, homens comuns, seja pela força ou astúcia; mesmo assim, os dois também estão à mercê da vontade dos olimpianos, assim como todos.

A Ilíada se debruça sobre as últimas semanas da Guerra de Tróia, em um episódio conhecido como “a ira de Aquiles”. Aqui, vemos o famoso guerreiro se retirando dos combates após quase 10 anos de exaustão e de um sério desentendimento com Agamemnon. Aquiles toma esta decisão para punir o exército “grego” (este nome não aparece em Homero e os troianos seriam considerados o mesmo povo por terem a mesma língua e os mesmos costumes), que certamente irá padecer por conta do desequilíbrio advindo de sua retirada. Mas seu plano se reverte amargamente contra ele mesmo, quando descobre que seu primo Pátroclo acabou morrendo nas mãos de Heitor, o que enfurece mais ainda Aquiles, que retorna para os combates. Este é o ápice do poema, quando Homero escancara a superioridade do combatente de pés velozes e a facilidade que ele tem em aniquilar seus adversários, chegando até a entupir um rio de corpos. Este momento é ressaltado por meio da comparação com uma série de batalhas anteriores que nos mostram o quão duros são os combates singulares para todos os outros heróis, porém, não para Aquiles. Após matar Heitor, o protagonista da epopeia acaba selando seu destino na guerra. Conforme a profecia, ele não sairá vivo destes combates, padecendo ainda jovem. Não vemos sua morte, o poema se encerra nos funerais de Heitor, mas sabemos que ele morrerá brevemente e não escapará do Hades, igual a qualquer outro mortal.

A Odisseia já se passa em um outro momento, após a queda de Tróia; agora acompanhamos o retorno de Odisseu para Ítaca e todos os desafios que ele enfrentará no mar e em sua própria terra, contra aqueles que querem usurpar seu trono. Ao longo desta interessantíssima epopeia, vemos como este brilhante e astuto herói consegue realizar façanhas que só sua inteligência e retórica o poderiam proporcionar, como o episódio em que ele engana o ciclope, o modo como consegue ouvir os cantos das sereias de modo a não ser vitimado por eles, sua liderança sobre seus homens, e toda sua jornada em Ítaca como um desconhecido para averiguar qual dos seus súditos se manteve fiel nestes 20 anos em que ele ficou desaparecido. Mesmo com toda a sua engenhosidade, são os deuses do Olimpo que decidem o seu destino. Durante toda sua aventura, Odisseu é guiado pelas divindades e as obedece piamente. Não à toa o poema começa com uma reunião no Olimpo, determinando que nosso protagonista deve retornar para Ítaca, e o último acontecimento do texto é uma intervenção de Zeus pondo fim à guerra entre Odisseu e os parentes dos pretendentes que buscavam vingança. Homero deixa claro que, se nosso herói não fosse um semideus e não tivesse os deuses ao seu lado, provavelmente acabaria virando comida de tubarão logo no começo de sua jornada.

Tanto Aquiles como Odisseu são representantes de virtude para o mundo antigo, o primeiro como um exemplo do guerreiro ideal, e o segundo como o mais astuto dos combatentes de Tróia. No entanto, curiosamente, o que os faz serem excepcionais também é o motivo de sua hybris. A fúria de Aquiles é o que o torna mortífero, mas também extremamente instável e escravo de suas paixões, culminando em todas as peripécias que vemos em Ilíada. A perspicácia de Odisseu faz com que ele seja tão versátil, mas também o torna arrogante e maldoso. Após ter cegado o ciclope e impedir que ele chamasse por ajuda ao se identificar para ele como “ninguém”, o herói não consegue segurar a comemoração do seu triunfo e acaba se identificando quando está fugindo de barco, dizendo seu nome e origem para que sua glória não seja esquecida. Polifemo, o ciclope filho de Posseidon, pede a seu pai que se vingue, fazendo Odisseu e seus marinheiros se perderem por 10 anos nos mares, dando origem às aventuras que lemos em sua epopeia. A virtude, em termos homéricos, não tinha a ver com moral, mas sim com excepcionalidade que leva à glória imortal.

A concepção de justiça no mundo homérico é conflitiva com aquela que temos na atualidade. Estamos acostumados a pensar com uma justiça maniqueísta que pune o mal e beneficia o bem. Para nós, seja por nossa herança cristã ou pelo modo como ela é diluída na indústria cultural, sempre se deve levar em conta o mérito moral daqueles que irão sofrer suas consequências. Mas Homero está além do bem e do mal, em sua literatura. Embora haja hybris e consequências advindas dela, conforme vemos nas duas epopeias, o foco principal está no jogo de forças que é a realidade. Aquiles não mata Heitor por ser moralmente superior, mas sim porque é mais poderoso, assim como Odisseu e os pretendentes de Penélope. Em Homero, os mais fortes triunfam sobre os mais fracos, pois têm o direito e até o dever cosmológico de superá-los. Mesmo Aquiles sendo naturalmente superior aos outros guerreiros, ainda assim há divindades que o ajudam nas batalhas. É um universo em que a vontade de potência triunfa e os mais fracos sempre padecerão; eis a justiça homérica.

Porém, conforme já foi dito aqui, por mais ímpares e extraordinários que sejam os heróis homéricos, eles acabam tendo o mesmo destino que qualquer outro mortal. Então, qual o sentido dos seus feitos e suas trajetórias, se acabaremos todos no Hades? A resposta de Homero é brilhante e fundamental para a literatura mundial; o sentido da jornada dos heróis está na poesia que é cantada sobre eles. Seus poemas são extremamente metalinguísticos, pois se colocam como protagonistas da aventura de seus personagens. Aquiles canta epopeias em Ilíada e manifesta seu desejo de fazer parte de um poema épico, reconhecendo que a glória do poeta só existirá a partir da glória do herói e vice-versa. Odisseu vai além, virá o seu próprio aedo e toma para si a palavra em Odisseia, cantando para nós e aos feácios seus feitos fantásticos em seu retorno de Tróia. Dos cantos XI ao XII, temos uma experiência ambígua de autoficção ao lermos as palavras deste engenhoso personagem.

Homero está a todo o momento discutindo a ficção, seja como um monumento que imortaliza seus heróis (por isso a necessidade de sempre identificar seus nomes e origens), seja como uma desconfiança do próprio fabular ao fazer do esperto Odisseu um aedo. Por mais que todos os mortais tenham o mesmo destino, alguns serão lembrados e imortalizados pela poesia.

Em suma, há uma incompatibilidade fundamental entre Homero e a indústria cultural. Para se adentrar neste mundo homérico, é necessário debruçar-se sobre sua literatura e fazer o exercício imaginativo de se tornar um ouvinte dos feitos guerreiros na Grécia Antiga, para tentar compreender a magnitude literária, cultural e filosófica deste grande poeta da Antiguidade. Mas, se o objetivo é ir ao cinema, sugiro que opte por Homem-Aranha; é mais honesto e adequado do que tentar deturpar os poemas homéricos com o moralismo moderno.

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Sobre o autor

Francisco Etruri Parente

Bacharel em cinema pela FAAP, mestre e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e especialista em filosofia pela Universidade Estácio de Sá. Autor e professor universitário. É coordenador do grupo de pesquisa Teoria Crítica e Sociedade do Consumo, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ, onde também realiza estágio de pós-doutorado.