Filosofia política

Os liberais e seus números

Dia desses, nada muito distante, em um dos tantos programas de rádio que congrega os sábios políticos do país, escutei – com certa curiosidade travessa, confesso – o deputado estadual por São Paulo, Daniel José, do Partido Novo, reconhecidamente um liberal, desabafando sobre os dramas da dinâmica política da Assembleia do Estado. Suas palavras foram mais ou menos assim: “a esquerda vai ser muito mais habilidosa em capturar o imaginário porque ela conta histórias, ela não mostra números, e a gente (…) todo dia ali na assembleia tentando convencer os outros deputados, eu vejo o quão difícil é fazer eles entenderem o nosso ponto de vista, porque a gente olha os números (…) mostra percentuais, estatísticas (…) eles não, eles contam histórias”.

Ouvindo essa jeremiada, lembrei-me imediatamente dos debates entre Benjamin Disraeli e William Gladstone, em plena Inglaterra Vitoriana, acerca do Ato de Reforma, de 1867. Gertrude Himmelfarb os relatou em sua obra apropriada, A Imaginação Moral. Disraeli, o exótico conservador à sua maneira, representando legitimamente as ideias do partido tory (futuro partido conservador), demonstrava satisfatória aceitação na ampliação do sufrágio nacional, ao passo que Gladstone, representando o partido liberal dos whigs, mergulhava num esforço hercúleo para equalizar racionalmente o impacto numérico e eleitoral de cada vírgula da lei. Gladstone, político menos aprumado e garboso do que ele mesmo se tinha em conta, celebrizou-se por apresentar, na tribuna da Casa, números sem fim, cálculos complexos e “regras de três” que levavam o Parlamento às gargalhadas. Disraeli, por sua vez, teve a sensibilidade política e moral – a “imaginação moral”, diríamos – para vislumbrar no homem simples, com uma cédula em mãos, um espírito afeito ao senso comum e ao realismo político, marcas indeléveis de um conservador.

Ora, diante do relato de nosso deputado, apartado de Gladstone por dois séculos e um oceano, parece-nos que o modus operandi dos liberais pouco se alterou desde então. Vejamos: essa perturbação do deputado liberal diante da impotência dos números, essa perplexidade com o desdém pela racionalidade na assembleia, o que ela nos diz, afinal? De forma sumária, ela nos mostra, melhor do que qualquer tratado filosófico, o quão longe a visão de mundo liberal se encontra da verdade acerca da natureza humana e do realismo da práxis política.

Pois que o homem que se vê espantado ao perceber que as equações matemáticas são impotentes diante da narrativa histórica e que os gráficos e planilhas são vazios frente ao discurso ideológico é um homem que se fartou demasiadamente da ciência das coisas, ao ponto de confessar, à sua revelia, sua própria inaptidão no conhecimento dos homens. A humanidade nunca foi, e nunca será, sedenta dos algarismos que confirmam uma tese. O homem não carrega, no seu âmago, na sua essência ou no íntimo que for, um gosto inveterado pela álgebra das coisas inertes, pela dança infinita dos numerais. É possível se comprazer na beleza do Binômio de Newton, é claro, mas dificilmente se encontrará o homem que o pressione junto ao peito como o tesouro mais sublime de sua existência mortal.

Que a isso os liberais tenham dado pouca importância até os dias de hoje não é de surpreender. John Locke nunca foi um grande contador de histórias, afinal. Lembremos que, em seu Segundo Tratado Sobre o Governo, abriu mão da historicidade das origens da sociedade civil, recorrendo ao recurso débil e duvidoso do “estado de natureza” – um experimento mental que deu-lhe asas à imaginação, lançando-a irreparavelmente para fora da órbita do real. Que as origens do estado na visão de Locke não tenham um marco histórico definido, que o propósito da sociedade civil seja expresso em termos puramente racionais, que a raison d’être do governo se reduza às garantias materiais deste mundo, tudo isso nos mostra que o liberalismo, em seus primórdios, nunca se propôs a falar aos corações dos homens.

Assim, o que foi ignorado pelo liberalismo os românticos transformariam em pedra de toque. Até os pré-românticos, e mesmo os socialistas entre eles, andaram uma milha a mais que os liberais em sua percepção das carências humanas. Não é memorável, afinal, que Jean-Jacques Rousseau, esse iluminista malgré lui, tenha escrito uma das obras seminais do socialismo ocidental em formato de discurso? Não se inventou, até hoje, literatura que melhor aquece os corações humanos do que o gênero do discurso. Em seu Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, esse antípoda das teses lockeanas, Rousseau desembainha um personagem real, ainda que anônimo, e um feito histórico, ainda que remoto, para dar sentido às suas ideias: “O primeiro que, tendo cercado um terreno, atreveu-se a dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas simples o suficiente para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil”. Como se sabe, este foi o Adão rousseauniano, e o restante de sua obra busca retomar “as coisas de mais longe” e discorrer sobre “essa lenta sucessão de acontecimentos” para elucidar os fundamentos da desigualdade entre os homens. Eis aqui uma história com potencial, por mais quimérica que seja.

É que existe algo que tilinta nas vísceras dos homens quando escutam uma história. Existe algo que arrebata o espírito daquele que encontra um discurso que dá ordem para as coisas, que organiza início, meio e fim na moldura mais ampla e mais e esplendorosa do propósito de tudo o que há. A política, o estado, a nação, esses entes tão distantes e tão próximos de nós, só fazem sentido quando sentido fazem, com o perdão da tautologia. É preciso que todo o universo da política, desde a estrutura última de governabilidade ao simples projeto de lei, responda às perguntas maiores, às perguntas essenciais – às verdadeiras perguntas, dir-se-ia –, às perguntas que norteiam o homem miserável que vaga extraviado pela selva da existência. Os números não são nada sem a sintaxe.

É claro que a narrativa fala mais do que a contabilidade. As contas esclarecem as mentes, mas são as histórias que sequestram os corações. J. R. R. Tolkien ilustrou magistralmente essa verdade, como o fez com tantas outras, em sua magnum opusO Senhor dos Anéis. Não há nada que mais alento e mais conforto promova, no universo da Terra Média, do que o sentar-se em poltronas adequadas, com os pés cansados à beira da lareira ardente e os ouvidos atentos às histórias antigas, remotas mesmo, de uma era já esquecida, mas cujos fatos conferem sentido ao presente, norteiam as ações vindouras e, não menos importante, cingem os corações dos ouvintes àqueles dos personagens de outrora.

Dentre as alegrias mais doces de um hobbit, essa figura que personifica o homem comum, eventualmente roto e simplório, é ouvir as novidades de alhures e repousar ao som dos eventos que não vivenciaram. O cínico chamaria isso curiosidade comezinha, de indiscrição e abelhudice, ou, na melhor das hipóteses, de nostalgia letárgica. Nada disso. As histórias explicam as trilhas e cidades abandonadas, as histórias explicam os povos que surgiram e os que se foram, as histórias, ainda que por meio de baladas de tempos imemoráveis, revivem e atualizam a experiência do real nos corações de seus ouvintes, resultado de um poder sobrenatural que os gregos antigos atribuíam aos aedos. A história é a fita sagrada que amarra toda a realidade. Ainda que existam as doenças da alma que pervertam as histórias em bisbilhotices, seu propósito nunca foi o de atiçar os corações à maldade, mas sim de acalentá-los na calmaria de um mundo ordenado.

O que Tolkien, Locke, Rousseau, Gladstone e Disraeli têm a nos ensinar? Que carecemos, desesperadamente, de um sentido histórico para o nosso país. Sentido esse que não será encontrado nos números da reforma da previdência ou na oscilação da taxa de homicídios do país. Neste momento, os liberais fariam bem se se rendessem ao poder da história e da narrativa, mas tudo indica que persistirão em sua política janota, esperando que a natureza humana se transforme subitamente, em uma sessão da Assembleia Estadual, para amoldar-se ao seu discurso numerológico. Os conservadores, por sua vez, farão bem se souberem usar da “imaginação moral” que lhes deveria ser própria para dar sentido ao seu projeto político, ou até mesmo forjá-lo nas bigornas honrosas de outrora, em vez de se encantar tão facilmente por broches, fardas e gatilhos que reluzem no novo governo. É chegada a hora de retomar os esforços de pensar o Brasil, seu projeto e sua história. Os liberais não se prestam a fazê-lo, a esquerda reconstrói suas armas discursivas, como a torre de Mordor reerguendo seu exército para a batalha final.

Onde estão os espíritos que podem enfrentá-los?

Sobre o autor

Pedro Issa

Graduado e licenciado em História (FFLCH-USP) e Mestre em História Social (FFLCH-USP). Pesquisador no Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.