
Quando se fala em religião grega, é preciso distinguir entre a religião pública, que tem seu modelo nos deuses do Olimpo, representados na obra de Homero e a religião dos mistérios. Na obra Corpo, alma e saúde: o conceito de homem de Homero a Platão, Giovanni Reale discute extensivamente a compreensão do homem na transição do pensamento homérico para o platônico.
Inicialmente, ele explora a concepção do corpo e da alma em Homero, onde o homem é visto mais em suas ações e órgãos do que como uma unidade corpo-alma distinta; em seguida, aborda a influência do orfismo, que introduziu a ideia de uma alma divina aprisionada no corpo. O termo psychē, cuja arqueologia nos interessa aqui explorar, aparece repetidas vezes em Homero (nas obras Ilíada e Odisséia), mas com significado diferente da concepção de alma que vigorará no pensamento ocidental a partir do século V a.C., com Platão.
Conforme exposto por Reale na referida obra, Homero usa o termo psychē para referir-se a algo que se passa no momento da morte do homem: “a psychē o abandonou”, “a psychē fugiu dele”, “esvaiu psychē e força”, “perdeu a psychē”, “a psychē desceu ao Hades”, “a psychē voou dos membros e desceu ao Hades”. O termo, no entanto, aparece também quando se faz referência à imagem de um morto: “Ora, adquiri a certeza de que no Hades, realmente, se encontravam almas e imagens dos vivos, privados, contudo, de alento.” (Homero Ilíada, XXIII.103–104).
A expressão que normalmente é traduzida por “almas” nos trechos relacionados ao Hades é o termo grego ψυχὴ (psychḗ). Nesse caso, psychē, está associado ao defunto, ao espectro que reproduz as características identificáveis do ser que um dia desfrutou da vida, como se pode notar também nos seguintes trechos:
“Aproximou-se-lhe o espectro [psychē] do mísero Pátroclo, ao morto em tudo igual, na estatura gigante, nos fúlgidos olhos e no agradável da voz; iguais vestes, também, tinha o espectro”.
[…] A alma [psychē] do mísero Pátroclo, assaz parecida com ele, toda essa noite, a gemer e a chorar, se manteve ao meu lado, dando instruções minudentes de quanto fazer é preciso”. (Ilíada, XXIII)
“De minha mãe a alma [psychē] vejo, que a vida deixou, não faz muito; acha-se junto do sangue sentada, não diz coisa alguma, nem tem coragem de olhar para o filho; com ele não fala”. (Odisséia, XI)
Pode-se deduzir, portanto, que, nas obras Ilíada e Odisséia, o termo psyche oscila entre dois significados fundamentais: o primeiro, mais genérico, de “sopro vital”, ao qual se faz menção sobretudo na circunstância da morte, quando deixa o homem com o último suspiro e o segundo, e mais característico, de fantasma, imagem (eídōlon) do morto, que sobrevive à morte e vai ao Hades. Há, pois, uma dupla percepção da psychē em Homero: uma psyche individual (do morto) e uma psyche universal, enquanto princípio vital.
Embora houvesse, na religião pública grega (religião homérica), certa noção de sobrevida no pós-morte, o estatuto dessa sobrevida era extremamente precário. Com a morte, o indivíduo torna-se uma espécie de sombra de si mesmo e vai para o mundo dos mortos (Hades) onde as almas vão se amalgamando e perdendo a memória, a individuação, esquecendo de quem são. Nos poemas homéricos (Ilíada e Odisseia), a vida após a morte é desprovida de recompensa ou punição moral clara: heróis e covardes, bons e maus acabam todos no mesmo Hades, independentemente de sua conduta. Os campos Elísios são mencionados brevemente (Odisseia, IV, 563–568), mas como destino reservado a alguns poucos favorecidos pelos deuses — como Menelau.
O Hades é descrito como uma região escura, subterrânea, sombria e nebulosa. Ao morrer, o corpo perde a psychē, que escapa como uma sombra ou sopro. Essa alma não é imortal no sentido ativo — ela sobrevive, mas de modo frágil, passivo e sem vitalidade, como um espectro sem corpo, sem força, sem razão plena e sem vontade. Por isso, Ulisses/Odisseu, no Canto XI da Odisseia, precisa oferecer sangue animal às almas para que elas “revivam” temporariamente e possam falar; o sangue representa um resquício de vitalidade. Essa visão grega da alma e da vida após a morte será profundamente transformada com a religião dos mistérios.
Os mistérios de Elêusis eram ritos iniciáticos celebrados em homenagem a Deméter e Perséfone, ligados ao mito do rapto de Perséfone por Hades e sua volta periódica à terra, que simbolizava o ciclo de vida, morte e renascimento. Esses rituais eram realizados anualmente em Elêusis, com a participação de iniciados de várias partes do mundo grego. O conteúdo dos mistérios era secreto, mas sabe-se que, entre suas concepções centrais, estava a ideia de que a alma (psychē) sobrevive à morte e, que, dependendo da iniciação, ela pode alcançar um destino melhor no além. Platão refere-se a tais mistérios no diálogo Fédon e no Fedro usa mitos órficos e imagens de iniciação mística na palinódia (sobre a alma alada e Eros), evocando temas eleusínios indiretamente.
O orfismo é uma corrente religiosa e filosófica mística surgida por volta dos séculos VI–V a.C., atribuída ao poeta mítico Orfeu. Ele se articula em torno de mitos próprios e uma visão da alma profundamente distinta da homérica, segundo a qual a alma (psychē) é divina, imortal e aprisionada no corpo, que é chamado de “túmulo” ou “prisão” (σῆμα ou δεσμωτήριον). O aprisionamento da alma no corpo seria consequência de uma culpa original, muitas vezes ligada ao mito de Dionísio e os Titãs, que mataram e devoraram o deus infante. A alma, ao cair na terra e encarnar, perde sua pureza divina e entra num ciclo, devendo reencarnar-se múltiplas vezes até ser purificada da culpa original. A iniciação órfica — com hinos, fórmulas sagradas e vida pura — visa romper o ciclo das reencarnações e permitir à alma retornar ao divino, à sua origem celeste. A purificação é tanto moral (vida justa, autocontrole, castidade) quanto ritual (ritos, jejum, hinos, iniciação). Píndaro e Platão (no Mênon) atestam essa crença.
Segundo o orfismo, todas as almas, sem distinção, são julgadas e reencarnadas segundo a sua pureza. Aquelas que alcançam a libertação se unem aos deuses ou vivem eternamente nos Campos Elísios, agora concebidos como recompensa espiritual. Segundo os mistérios, portanto, a morte faz parte de um projeto pedagógico. Vida após vida, nós continuamos a evoluir moralmente, eticamente. Uma vez que o iniciado detém esse conhecimento, ele vai ser ensinado a reter memória no pós-morte e continuar a jornada de aprendizado sabendo o que já fez, lembrando-se das vidas pregressas.
Imagem: William-Adolphe Bouguereau – Uma Alma no Céu (1878), Museu de Arte e Arqueologia de Périgord (Wikimedia Commons)
