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Pensamento: manual de instruções

⁠Um dos casos mais rumorosos nos storytellings intelectuais é aquele que envolveu a perseguição a Galileu Galilei (1564- 1642) na polêmica sobre qual seria o centro de nosso universo. Podemos dizer que se trata de um clichê liberal, quase uma fábula então, em que se predispõe que a liberdade de pensamento incomodava a Igreja Católica de tal forma que ela tinha poderes para enviar à fogueira quem ousasse sair do seu quadrado. No entanto, fomos capazes de perceber que outros motivos vieram a permitir o sucesso dessa mistificada história, além do fato de ser bastante simples e fácil de entendê-la. O fato de dar vazão ao desejo de se ir contra o catolicismo sendo um deles, já que a narrativa vem com um lado certo e outro errado. Mas, além disso, há um outro fator que também encanta a vaidade de quem se detém nessa passagem. E ele se trata do idealismo que vem a unir a liberdade de pensamento, o enfrentamento das proibições e a crença de que o bem se junta ao verdadeiro para se equivaler ao que é justo. Ah, como os clichês traem a falta de vontade de pensar daqueles que se apresentam como adeptos e defensores do livre pensamento! Troquemos alguns aspectos de lugar e vejamos o que acontece.

Gente dedicada no assunto nos garante que somente se entende o que aconteceu quando se aceita adentrar as filigranas da erudição, posto que estamos falando de uma ocorrência que não foi pré-concebida para legitimar alguma modinha do futuro, sendo esse o primeiro grande equívoco. Erro esse, herdeiro de outro clichê, que é aquele que diz que um acontecimento do passado é precursor de outro que irá surgir séculos depois.

Galileu e suas concepções pouco importavam ali, mas sim o fato dele ser protegido do Papa Urbano VIII (1568- 1644), este sim, contando com opositores dentro da Igreja. Temos então a estratégia de evitar atacar alguém muito poderoso, optando então por fazê-lo contra quem contava com sua afinidade. Simples, não? Não havia nada ali remetido a uma arguição lógica contra o heliocentrismo, mas sim uma desavença entre grupos políticos. Procedimentos desse tipo são usados à exaustão ao longo da história por totalitarismos de esquerda ou direita. O que essa ocorrência nos oferece de lição não guarda nenhuma proximidade com lutas por validar a liberdade de pensamento ou contra o poder maior personificado no Papa. É a política que explica o que aconteceu ali e não o que viria a ser usado como propaganda do livre pensar no futuro. O mais curioso é que quando sabemos dessa contenda entre lados que se opunham é que entendemos porque Galileu manteve-se vivo. E compreendemos que isso tenha acontecido não por conta de seu desempenho em eloquência, mas sim porque o Papa lhe devesse isso, sendo igualmente suficiente para os opositores o que já tinha acontecido.

Constatamos que a busca por onde está Wally, tem levado para o endereço errado uma vez que o pensamento nem entra na equação do caso narrado. O que se materializa é a luta por poder, de quem se sente alijado dele contra quem se entende que o tem em demasia. Casos semelhantes acontecem no cotidiano porque a política se mimetiza em qualquer coisa que se mexa ou que possa engajar. E não é por preocupação com a democracia, por receio de que a desigualdade social se aprofunde, pelo aumento dos preconceitos de gênero ou raciais que as pessoas realmente pensam ao se manifestarem. E cada um desses casos, e em muitos outros mais, nada há senão a manifestação da política mais acachapante.

Vejam o caso das fake news. Elas são vistas como boas ou más, dependendo de quem é o alvo. “Somente os meus inimigos políticos produzem inverdades” é o argumento master que pode ser usado para qualquer um dos lados. Fosse uma questão derivada da lógica e somente nos importaríamos com isso e seríamos os primeiros a nos pronunciar sobre a falsidade ali ocorrida. Não é exatamente por se preocupar com o bem que se defende a liberdade de expressão, mas simplesmente por essa defesa ser oportuna para que se emplaque o lero-lero, nada mais do que isso. É interessante então que se mantenha uma aparência rousseauniana como invólucro da essência maquiavélica.

Inútil dizer aqui que as agremiações políticas se valem de ideologias para melhor mascarar os seus interesses que são os de sempre, insignificantes, nada preocupados com o futuro e com quem arcará com as consequências das decisões tomadas no ruidoso agora. E não é por amor à liberdade que políticos se unem em torno de uma causa e, se fosse diferente, não teríamos essa demanda tão ativa por se alcançar o poder. 

Que prejuízo causam os inocentes úteis que investem na concepção de que haja credibilidade no fazer político como se fosse possível metrificar as promessas como meio de comprovação de que foram cumpridas. Visto a partir desse prisma, e as eleições são decididas por taras inconfessáveis que, de tão particulares, nada se parecem com a política que aspiram a se identificar.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.