Comportamento Político

O Brasil das elites e a exaustão da política

Se consultássemos hoje Raymundo Faoro — autor de Os Donos do Poder[1], publicado pela primeira vez em 1958 — e perguntássemos a ele as justificativas para os recentes acontecimentos de nossa República, invariavelmente ouviríamos como resposta: “O problema continua sendo o estamento.”

Faoro explorou de forma brilhante as entranhas da formação do patronato político brasileiro ao resgatar a definição do termo “estamento”. No capítulo em que trata do tema, acrescenta ainda a noção de “elite”, aproximando os dois conceitos e indicando a existência de uma camada superior praticamente impenetrável, que se mantém distante da sociedade e alheia às necessidades do povo. Afinal, para o autor, “esta é uma minoria que exerce o governo em nome próprio; não se socorre da nação para justificar o poder, nem para legitimá-lo jurídica e moralmente”. Em seguida, complementa o diagnóstico ao alertar que a democracia permanece viva, porém reduzida a uma concorrência, mais ou menos organizada, entre elites (Faoro, 2021, p.105).

Diante de fatos escabrosos que nos invadem diariamente, parece-me não apenas pertinente, mas necessário, revisitar autores como Faoro para lembrar que a política brasileira parece condenada à repetição. Pouco mudou no comportamento das elites desde o período imperial. Seguimos assistindo à celebração permanente dos acontecimentos políticos, como se cada novo escândalo fosse capaz de nos surpreender ou inaugurar algo realmente novo.

Mas, pasme: não há novidade nos escândalos. Existe apenas a alternância de personagens que acreditam ser possível explicar, na base da lorota, aquilo que já parece evidente ao eleitor comum. E parece evidente porque a experiência social também produz conhecimento. Sabemos reconhecer quando alguém age de acordo com as regras e, principalmente, quando tenta apenas encobrir os próprios erros.

Por isso, e creio que você concordará comigo, falta verdade ao discurso político contemporâneo.

O eleitor, em sua maioria, já não se deixa convencer por explicações fáceis, tampouco por cláusulas de confidencialidade das quais, aliás, muitos sequer compreendem plenamente o significado. O problema não está apenas na linguagem jurídica ou na estratégia de comunicação; está no esgotamento moral de uma narrativa política que insiste em subestimar a inteligência cotidiana das pessoas.

Para Faoro, somos herdeiros de uma longa tradição social e política que concentrou o poder em uma camada institucionalizada, formando uma espécie de aristocracia burocrática da qual se projeta, até hoje, parte significativa da classe política brasileira (Faoro, 2021, p.104). Talvez seja justamente por isso que determinados acontecimentos provoquem menos surpresa do que indignação. O eleitor pode até não dominar conceitos teóricos, mas percebe intuitivamente quando há distância entre discurso e prática.

É nesse ponto que vale trazer Daniel Innerarity para a conversa. Em Política Para Perplexos[2], o autor lembra que os números passaram a desempenhar uma função central na sociedade contemporânea, seja nos mercados, na ciência ou na política. A medição social transforma a complexidade do mundo em linguagem padronizada, permitindo que crises, tendências e comportamentos sejam traduzidos em índices, percentuais e gráficos. Poucos discordariam disso (Innerarity, 2021).

Nesse contexto, torna-se parte da própria estratégia política aguardar novas pesquisas e novos números para medir o tamanho do desgaste provocado por determinados acontecimentos. Contudo, há situações em que a experiência coletiva antecede qualquer indicador estatístico. Em muitos casos, não precisamos esperar os números para perceber onde a verdade deixou de existir. A experiência acumulada ao longo da vida nos permite reconhecer quando princípios foram abandonados e quando uma narrativa mal construída revela, antes de tudo, uma falha moral.

Episódios dessa natureza tendem, inevitavelmente, a produzir desgaste político, especialmente entre lideranças cuja imagem pública depende fortemente da associação com valores éticos e morais. Talvez seja por isso que falemos tanto, hoje, em uma disputa de rejeições.

Para grande parte do eleitorado, que enfrenta diariamente as dificuldades concretas da sobrevivência, já não existe no cenário político a figura de um herói ou de um grande líder redentor. O que resta é, muitas vezes, a tentativa de escolher aquele que pareça menos distante, menos artificial ou simplesmente menos pior.

Talvez Raymundo Faoro continue tão atual justamente porque compreendeu cedo aquilo que o eleitor sente intuitivamente: no Brasil, os personagens mudam com frequência, mas o estamento continua sentado à mesa do poder.


[1] Faoro, Raymundo. Os donos do poder – Formação do Patronato Político Brasileiro. 1.ed. São Paulo, Cia. das Letras, 2021.

[2] Innerarity, Daniel. Política Para Perplexos – O fim das certezas. Petrópolis-RJ, Editora Vozes, 2021.

Imagem gerada por IA

Sobre o autor

José Carlos Sauer

Formado em Filosofia pela PUC-RS, pesquisador especializado em comportamento político, consultor estratégico, analista de dados e diretor do Instituto Methodus. Com mais de 25 anos de experiência no cenário eleitoral brasileiro, consolidou seu conhecimento sobre dinâmica do comportamento eleitoral, análise de tendências e desenvolvimento de estratégias políticas eficazes. Pesquisador do Grupo de Pesquisa em Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.