Estudos Agostinianos

Agostinho: um teólogo que se retrata

Agostinho escreve seu texto De praedestinatione sanctorum [A predestinação dos santos] em 429 para Próspero e Hilário, para repetir e ratificar ensinamentos que já os tinha fornecido sobre a questão da predestinação (AGOSTINHO, 2002, p. 149). O bispo de Hipona confia que Deus “esclarecerá” qualquer dificuldade na compreensão da doutrina e se volta para Escritura, especificamente para Paulo em sua epístola aos Filipenses (3:15-16), que diz: “Se em alguma coisa pensais diferentemente, Deus os esclarecerá” (AGOSTINHO, 2002, p. 150). É notório o entendimento de Agostinho de que haverá plena compreensão do assunto, muito embora a história da teologia revele que se trata de um elemento delicado, misterioso e de difícil compreensão.

No capítulo I, citando a igreja primitiva, Agostinho sinaliza que os irmãos do primeiro século tinham clareza acerca do papel da graça, que seria anterior a qualquer ato de vontade humana. Porém, com ao menos três séculos de diferença, ele compreende que o “dom da inteligência” será um elemento que nivelará a compreensão e qualquer desvio de entendimento acerca da predestinação aos seus destinatários. Há, portanto, na ótica do bispo, uma clara conexão na compreensão dos primeiros cristãos sobre a graça de Deus e a doutrina da predestinação que é alvo de reflexão de Agostinho. Ele faz questão de afirmar que sua carta é fruto de uma grande “disponibilidade” dele, pois percebe que já falou por demais acerca do assunto, e que se trata de uma redundância, embora ele o faça para o serviço aos seus. (AGOSTINHO, 2002, p. 150)

No capítulo II, Agostinho distingue sua compreensão de graça da heresia pelagiana. Para ele, a graça não é algo a ser acrescentado posteriormente ao “crer”, como que um fortalecimento: “para que acreditemos mais plena e perfeitamente”. Em direção oposta a esse raciocínio, o qual tem no mérito humano um elemento chave, Agostinho compreende que o início da fé é “dom”, é graça. Ele se embasa em Romanos 11:35-36: “Quem primeiro lhe fez o dom para receber em troca? Porque tudo é dele, por ele e para ele. A ele a glória pelos séculos! Amém!” Em outras palavras, a graça não deve ser uma retribuição a algo humano, mas tão somente dom divino concedido ao humano. (AGOSTINHO, 2002, p. 151)

Outros textos escriturísticos são citados, sempre como elementos que atestam o ponto de vista agostiniano. Filipenses 1:29 é um destes textos: “Pois vos foi concedido, em relação a Cristo, a graça de não só crerdes nele, mas também de por ele sofrerdes”.

Nota-se que o contexto em que Agostinho trabalha, ao menos até o capítulo III, deixa evidente que a graça, que é objeto de sua investigação, é majoritariamente referente ao crer, à , dentro de uma perspectiva soteriológica. O “pensar com assentimento”, que é crer, vem de Deus. As boas obras, vêm de Deus. Crer, vem de Deus. (AGOSTINHO, 2002, p. 153) O que este pensador cristão advoga é que o começo da fé é graça, vem de Deus. Deus é “autor de nossa fé” (AGOSTINHO, 2002, p. 154). Desta forma, fica evidente qual é a ordem do processo soteriológico para Agostinho: graça no início (crer, fé), meio (boas obras) e fim. Em contrapartida, o processo combatido por Agostinho seria: mérito no início (crer e fé não como graça, mas como atitude humana) e graça como recompensa (“dívida”) no meio e no fim, em virtude do passo inicial do homem. (AGOSTINHO, 2002, p. 154)

As Escrituras, sempre citadas (principalmente Paulo), são para Agostinho “testemunhos tão evidentes” de seu ponto de vista interpretativo. Romanos 12:3 e Efésios 6:23 atestam que a fé vem de Deus e que, portanto, não há mérito humano. (AGOSTINHO, 2002, p. 154)

Entretanto, percebe-se que o célebre pensador cristão não se dá conta de que suas próprias palavras denunciam um processo hermenêutico. Muito embora ele fale em várias ocasiões sobre “verdade absoluta”, fato é que ele próprio revisitou seus pontos de vista, se retratando sobre percepções passadas sobre o assunto. No capítulo III, ele reconhece um “erro” de interpretação do processo soteriológico e de seus antigos comentários da carta aos Romanos. Ou seja, reconhece que sua lente interpretativa fora atualizada. No passado, compreendia que a fé vinha antes da graça. No momento do anúncio do evangelho teríamos a possibilidade de ter fé. Nesta distinção entre fé e graça, a fé precederia a graça. (AGOSTINHO, 2002, p. 155)

Agostinho se convence do erro de sua compreensão por conta de Cipriano, que cita 1 Corintios 4:7: “Que é que possuis que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que haverias de te ensoberbecer como se não o tivesses recebido?” Quem sabe Agostinho não lutava internamente, devido à sua racionalidade, contra seu sentimento de justiça própria e de vaidade, ensoberbecido pelo fato de ter crido? É uma possibilidade que ferramentas psicanalíticas poderiam ajudar na leitura dos textos agostinianos.

Ele reconhece que “não julgava que a fé fosse precedida pela graça de Deus […]” (AGOSTINHO, 2002, p. 155), entendendo que o acolhimento da fé seria uma iniciativa humana… (p. 157). É interessante notar que a construção teológica de Agostinho é sinalizada com uma sofisticação que inclui sua percepção de que Deus elege pela presciência e que as boas obras são fruto e consequência deste processo inicial. (p. 156) Porém, ele aponta ao seu leitor uma fragilidade em sua pesquisa até então, dizendo que não a fez “com toda diligência” (p. 156). Ainda não compreendia que a fé também é dom de Deus (Rm 11:5 e 1Co 12:6). Parece que aquilo que está sendo retratado envolve uma tensão que Agostinho reconhecia: Deus age, mas há nosso assentimento também (p. 157). Sua “revisão” ou novo “raciocínio”, entretanto, elimina, de certa forma, as tensões paradoxais de sua antiga leitura, tornando-a mais propositiva, clara e sintética. Ou seja, Agostinho revisita seus antigos raciocínios, cheios de paradoxos, tensões e elaboração baseadas em presciência de Deus (p. 155-157), mudando radicalmente sua compreensão e afirmando que dissertou “com muita brevidade…”, “Pois não é assim a vocação de todos, mas somente dos eleitos.” (p. 157 – grifo nosso) A “verdade absoluta” no assunto é citada pelo bispo (p. 157).

Assim, torna-se evidente o ponto que ele defenderá até o final do seu escrito: a misericórdia é concedida não somente para favorecer aquele que creu, mas para tornar apto o homem para crer e ser fiel. (p. 157) Ele diz:

“Mas misericórdia é outorgada ao mérito precedente da fé, e o endurecimento, à iniquidade precedente. Isto é indubitavelmente certo, mas devia-se investigar ainda se o mérito da fé provém da misericórdia de Deus, isto é, se esta misericórdia favorece o homem porque crê ou favoreceu para que cresse. Pois lemos o que diz o Apóstolo: Como quem alcançou misericórdia para ser fiel (1Cor 7:25). Não diz: porque era fiel. Portanto, a misericórdia é na verdade concedida ao que é fiel, mas foi concedida também para ser fiel.” (AGOSTINHO, 2002, p. 157)

No capítulo IV, ele destaca que seus irmãos não foram capazes de compreender sua evolução hermenêutica nesta matéria:

“Vejo agora que esses nossos irmãos abraçaram esta opinião porque não cuidaram de progredir comigo do mesmo modo que se interessaram em ler meus livros. Pois, se tivessem tido esta preocupação, teriam encontrado resolvida esta questão de acordo com a verdade das divinas Escrituras […].” (AGOSTINHO, 2002, p. 158)

O que se pretende destacar neste pequeno texto é que Agostinho faz uso dos textos escriturísticos para provar sua tese teológico-filosófica, utilizando-os como textos-prova, desconsiderando uma compreensão contingencial das cartas paulinas e seu teor pastoral (Paulo não estava pensando teologicamente como Agostinho[1]). Agostinho afere que possui a resposta ortodoxa para a matéria da predestinação dos santos. Entretanto, como se percebe em seu próprio escrito, Agostinho está submetido a um processo de transformação hermenêutica de sua própria reflexão. A história da teologia atesta muitas formas de organizar, pensar e interpretar a predestinação. Porém, para o bispo de Hipona do século IV-V, o mistério foi desvendado.

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Referência

AGOSTINHO, Santo. A predestinação dos santos. In: Graça (II). Paulus Editora, 2011, p. 139-205. (Coleção Patrística).

[1] Vide Romanos 11:11-24, em que a preocupação pastoral de Paulo é destacada (briga entre judeus e gentios na igreja em Roma).

Sobre o autor

André Anéas

Doutorando e mestre em Teologia pela PUC-SP e bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de SP, na qual é coordenador da pós-graduação e docente. É autor do livro “A racionalização da experiência de Deus” (2019) e “Protestantismo e Mística - razão e experiência mística no protestantismo histórico” (2016), além de artigos relacionados a temática da experiência de Deus, mística, espiritualidade, protestantismo e religião. Atualmente trabalha em sua tese o diálogo entre teologia fundamental, mística cristã e a fenomenologia e coordena o grupo de pesquisa Teologia Cristã e Religião Contemporânea do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.