A crise do amadurecimento na contemporaneidade

Reflexão nos tempos Corona

Certa vez, questionei uma renomada psicanalista sobre a educação das crianças francesas em comparação ao comportamento e educação das crianças brasileiras. A educação dos franceses é referência mundial, seguida pela Alemanha e mais alguns países da Europa.

Ela me respondeu de forma simples e direta que “o Brasil precisa de muitas guerras para que possamos traçar esse comparativo”. Essa colocação nos leva a pensar em tudo que a guerra entrega de sentimentos de ódio, medo, agonia, dúvida, fome e muitos outros sentimentos que fariam a composição de uma sociedade cheia de traumas.

Para o psicanalista inglês D.W. Winnicott, a formação adequada de um ser precisa do trauma e do aprendizado, da mudança, da melhora e do aprimoramento gerados por ele. É necessário que a criança caia para que aprenda a levantar. Precisamos de perda e dor para que haja saudade e valorização, de falta para compreender a toxicidade do excesso.

A sociedade brasileira insiste em seguir os preceitos de consumo da sociedade americana e assim chegamos ao momento em que o copo não só transbordou, como está mergulhado na água. Perdeu-se o sentido da existência, trocado por posse, compra e armazenamento. O indivíduo está vivendo em torno do seu próprio umbigo e é incapaz de olhar para o mundo como um lugar de diferenças.

Quando o mundo se submete a uma pandemia, como a que vivemos, o ser humano é colocado onde ele mesmo quis estar: sozinho! Mas, agora, não pode tocar em nada nem ninguém, está sendo obrigado a viver dentro dos seus palácios modernos, usando suas roupas caríssimas para ir da sala para o banheiro e desfilando as bolsas de dezenas de milhares de dólares para o abajur e para o espelho. É uma pena que o espelho também mostre a verdade, não é? Ele mostra que todo esse acúmulo só tem valor quando é mostrado para o outro. Pra que serve, se ninguém vai ver, não é mesmo?

Essa guerra contra um inimigo invisível coloca à margem as certezas absolutas, inclusive do salário do grande executivo, da propina do construtor e até a de que ao fim vá existir um salário. Frente a essa situação, temos a alucinação de líderes que acreditam que tudo bem morrerem alguns, mas a economia não pode parar.

Nesse argumento, fica claro que a sociedade de capital precisa ser repensada. Temos muito giro com pouco lucro e, consequentemente, pouco caixa. Em uma situação como essa, há desespero, e gritam ao mundo que precisam trabalhar. Não eles, que estarão nos escritórios ou em suas casas “liderando” seus soldados (chamados de time, para gerar “empatia”). São esses soldados, que podemos chamar também de funcionários ou mão de obra barata, que vão para as linhas de frente dessa guerra, para os metrôs, ônibus, shoppings e demais aglomerados, potencialmente aumentar o contágio na tentativa de manter a economia ativa e, é claro, em algum momento, ao cair doente, sobrecarregar o sistema público de saúde e morrer, porque o inimigo invisível não tem limites, assim como o líder do país e os das grandes corporações.

Por falar em limites, qual é o limite dos grandes empresários? Vivemos em uma sociedade líquida e estamos expostos à falta de alimento, contato e liberdade. Os pais estão sendo obrigados a conviver com seus filhos mal educados e as esposas estão sendo obrigadas a conviver com os maridos durante todo o dia. Não existem mais amantes, só a solidão de viver dentro do castelo encantado recheado da mais vazia ostentação.

Será que dessa vez, depois de viver tantos traumas, seremos capazes de compreender o real sentido da existência além da posse? Será que essa será a hora de compreendermos o que é sentido de vida?

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Imagem: Heraldo Galan

Sobre o autor

Maycow Montemor

Jornalista, graduando em Psicologia e pesquisador dos grupos "Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade" e "Cultura do Consumo, Sociedade e Tendências" do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo /PUC-SP – LABÔ.