Nelson Rodrigues: literatura, filosofia e religião

Memórias de um conservador

Nasci a 23 de agosto de 1912, no Recife, Pernambuco. Vejam vocês: eu nascia na Rua Dr. João Ramos (Capunga), e, ao mesmo tempo, Mata-Hari ateava paixões e suicídios nas esquinas e botecos de Paris. Era a espiã de um seio só e não sabia que ia ser fuzilada. Que fazia ela, e que fazia o marechal Joffre, então apenas general, enquanto eu nascia? A belle époque já trazia no ventre a Primeira Batalha do Marne. Mas por que “espiã de um seio só”? Não ponho minha mão no fogo por uma mutilação que talvez seja um doce, uma compassiva fantasia. Seja como for, o seio solitário é, a um só tempo, absurdamente triste e altamente promocional (RODRIGUES, 2009, p. 19)

A Família, a morte, o corpo nu. Três das muitas obsessões de Nelson Rodrigues se revelam logo nas primeiras linhas de suas memórias. Serão essas três obsessões que conduzirão aqui as memórias do Nelson Rodrigues conservador.

Em primeiro lugar, falar sobre conservadorismo é remeter à tradição, não no sentido vulgar que o termo adquiriu contemporaneamente, mas sim a respeito daquilo que é mais caro ao ser humano, relativo às coisas que justificam o sentido na vida: os hábitos, as raízes, as origens, a humanidade. O conservadorismo também remete a temperamento, ao espírito de um tempo e à própria condição humana. João Pereira Coutinho afirma que o conservadorismo nos lembra que somos mortais. É este o lugar de Nelson Rodrigues: suas crônicas e peças nos lembram o tempo todo o quanto somos mortais, finitos e demasiadamente humanos. Nelson também parece ir ao encontro de Edmund Burke: enquanto o filósofo irlandês defende que a sociedade é um contrato firmado entre os vivos, os mortos e aqueles que ainda não nasceram, Nelson nos diz “Essas são memórias do passado, do presente, do futuro e de várias alucinações” (2009, p.19). O cronista da vida como ela é consegue ver a graça, citada pelo escritor francês Georges Bernanos, no pulo de uma galinha sobre a cerca do vizinho. É este um dos traços conservadores de Nelson Rodrigues: o autor apresenta um apelo mortal pelas coisas eternas, e essa eternidade está demonstrada nas minúsculas coisas do dia a dia, nos detalhes, nas vírgulas do cotidiano. O filósofo britânico Roger Scruton acredita que somos todos conservadores com as coisas que estimamos. Isso, sem dúvida, é evidente na vida e obra de Nelson Rodrigues.

A primeira obsessão: a família. A família é possivelmente a linha que costura as memórias de todos nós, mas em Nelson essa linha é a que sutura a dor, o sofrimento, a angústia, e ainda assim, ele nunca a abandonou, nunca desatou seu nó, mas o amarrou a cada texto e a cada peça com mais força. Aqui está uma das virtudes do pensamento conservador de Nelson: o reconhecimento da inevitabilidade do sofrimento. O pai (jornalista e gago), a mãe (“linda” era atributo recorrente nas memórias) e os cinco irmãos são protagonistas das páginas da vida de Nelson, onde reinou a pobreza durante a infância (quando um pão com ovo representava um verdadeiro manjar dos deuses) e a doença durante a vida adulta. Nas memórias de Nelson, dizia ele, “Nossa mesa é numerosa e cálida como a da Ceia” (2009, p. 20). A figura máxima do pai impera sobre Nelson: há 50 menções ao patriarca ao longo de suas memórias, quando, por fim, confessa, “Estou todo embebido de sua violência e de sua fragilidade” (2009, p. 220). Sendo assim, não podia ser diferente: suas memórias encerram com aquela que deve ser a mais doída de todas as lembranças – o leito de morte do pai.

A segunda obsessão: a morte. Nelson conservou a vida como ela é: dura, regada a sangue e dor. E como um bom conservador, ele abraçou o destino que se impôs a ele. Sir Roger Scruton acredita que o instinto conservador é aquele que demonstra a “vontade de viver”. Nelson escreve abundantemente sobre a morte, o assassinato, e a principal flor de sua obsessão: os suicidas. Em cada linha onde a morte é salientada, Nelson exala, na verdade, essa imensa vontade de viver. Seus relatos sobre o período do Sanatorinho – hospital em Campos do Jordão onde entulhavam-se os tísicos – são os mais contundentes. Nas memórias do Nelson tuberculoso, ele é um homem repleto de afetos. Em meio às insones noites de tosse e sangue, o “filósofo”, como era chamado no hospital, se fazia ouvir por outros tuberculosos: “Eu sou do amor eterno” (2009, p. 195), repetia Nelson.

A morte impõe respeito e reverência e Nelson se escandalizava quando esta era objeto de difamação e assepsia. Negar o lamento sobre o morto, negar a cortesia da cabeça despida do chapéu, é faltar com reverência à própria vida. Ao afirmar que a morte é anterior a si mesma, Nelson concebe que há coisas no mundo que precedem o homem e a própria humanidade, e a essas coisas devemos respeito. Eis mais um traço do perfil conservador do autor. Para ele, o desleixo para com essas questões eternas – onde está a família e também a morte – acaba por fazer derrocar também outras coisas eternas. Em suas memórias sobre os infinitos e avacalhados mortos da Gripe Espanhola, dizia ele “(…) foi um desabamento de usos, costumes, valores, pudores (2009, p. 78).

A terceira obsessão: o corpo e a nudez. Por conta da excessiva presença da nudez e do sexo em suas peças, Nelson Rodrigues foi taxado como o maior tarado de todos os tempos. Mas, defendo aqui que a maior perversão de Nelson foi escancarar a humanidade dilacerada em todos nós. Por isso ele afirmava que toda nudez seria castigada. Uma nesga de carne mostrando o umbigo foi, para o cronista, mais fulminante que a presença da nudez completa da menina louca de sua infância, a nudez acuada, como ele repetia em suas memórias. “Hoje, com a nudez indiscriminada e frenética, os jogos do sexo não ardem mais. Nunca a mulher foi tão pouco desejada” (2009, p. 56). É “uma excitação sem desejo. E uma obscenidade sem prazer” (2009, p. 83). A falta dos afetos causada pela nudez indiscriminada – aquela do biquíni – é o que para Nelson destrói o desejo, o corpo e, acima de tudo, o amor. A nudez de Nelson é metafórica, ainda que explícita: “(…) uma vez, comecei a imaginar uma mulher. Absurda, mas ideal, que jamais ficasse nua. Ela poderia tirar toda a roupa, toda, e ainda assim não estaria nua” (2009, p. 266). O tarado Nelson Rodrigues hoje seria visto como o mais pudico dos escritores, pois, “Para mim, não há nudez intranscendente. […] um vago decote pode comprometer ao infinito” (2009, p. 34). Nelson parece apontar para uma nudez sagrada e ao mesmo tempo desejada e gratuita ao amor.

O que se faz hoje com Nelson Rodrigues e seu legado é exatamente o mesmo que fazia com ele Carlos Lacerda, o qual selecionava “Com uma pinça, catava uma frase ou um episódio e o isolava de seu ambiente e de sua justificação psicológica e dramática” (2009, p. 101). Ainda hoje, escolhem-se frases soltas, descontextualizadas e no fim, como ele mesmo afirmava, “até um bom dia ficava obsceno” (2009, p. 101). O crime conservador de Nelson foi estampar a nudez da vida, do cotidiano, das pequenas coisas. Ele mesmo desnudado por suas linhas, por suas memórias. E assim, toda nudez de Nelson foi (e ainda é) castigada: do Nelson reacionário, do Nelson tarado, do Nelson de cérebro doentio, do Nelson faminto. Aos 8 anos de idade, sendo observado pelas tias, lembrava Nelson “Era como se eu estivesse nu e todas me olhando” (2009, p. 217). O menino de 8 anos é o mesmo que escancara suas memórias aos 54. Se colocando nu diante de sua geração e daquelas que ainda viriam, deixando um pacto inviolável sobre as coisas eternas, e que, por isso, realmente importam: a família, a morte e o corpo nu. Assim como o filósofo Michael Oakeshott, o conservadorismo de Nelson aponta para a manutenção das coisas que funcionam e do cultivo daquilo que se ama. Nelson Rodrigues amava suas memórias, cheias de suicidas, assassinos, prostitutas e dor. E assim, o profeta do óbvio expõe sua nudez: “O que é a memória senão um pátio de milagres? Um pátio de agonias, e de gemidos, e lágrimas de pedra?” (2009, p. 70).

Referência bibliográfica

RODRIGUES, Nelson. Memórias: A menina sem estrela. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

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Imagem: Mata Hari/P.Boyer (1905)

Sobre o autor

Flávia Arielo

Historiadora e Professora do curso de História do Centro Universitário Sagrado Coração – Unisagrado. Doutora em Ciências da Religião pela PUC-SP. Desenvolve pesquisa sobre conservadorismo, cinema e arte. Pesquisadora do Grupo de estudos Nelson Rodrigues: Literatura, Filosofia e Religião do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.