
De repente todos estão de acordo. Dos populistas de plantão às influenciadoras; da esquerda à direita, acima e abaixo da linha do Equador, do Supremo ao Ínfimo, todos concordam que o problema do Brasil e dos brasileiros é o complexo de cachorro vira-lata. Não é de pit-bull, nem poodle, é de vira-lata legítimo.
Consolidou-se a unanimidade diante de tal complexo, restrição psíquica ou divagação canina que explica e justifica todas as nossas mazelas. Enumerá-las seria enfadonho, pois todos nós brasileiros temos listas e listas de revoltas, coceiras, infâmias históricas que, vindas ou não com as caravelas, estagiaram na Corte carioca, criaram raízes no planalto central brasiliense, se enfiaram terra adentro e Brasil afora.
De nada adiantou a Pelé e seus companheiros de time vencer três Copas das quatro disputadas e dar um pontapé de palhaço de circo na bunda do complexado vira-lata. De nada adiantou a música de Tom Jobim, a Bossa Nova, João Gilberto, a capacidade criativa e técnica da Embraer e da Embrapa. Continuamos a latir as nossas mazelas. Graças aos impostos baixos e justos, o Estado e seus donos nos dão tudo e, ingratos que somos, por causa de nosso canino complexo não reconhecemos a bondade cuidadosa dos governantes. Temos o funcionamento perfeito da Justiça, da Saúde, da Educação, plena Segurança em nossas ruas e avenidas e tudo aquilo que é plantado em nossa rica terra é generosamente repartido com os cidadãos pelos magnânimos governos que se sucedem resolutos em sua intenção igualitária.
Vamos botar a bola de volta ao centro do gramado do Maracanã.
Era a tarde de 16 de julho de 1950. Nas arquibancadas, meu pai, também Ney, com um grupo de amigos, roia as unhas esperando Mr. Reader apitar o início do jogo. Não longe dali, nas cadeiras perpétuas compradas por meus tios-avôs para contribuir na construção do estádio, minha tia e futura madrinha Nancy, com suas primas, ajeitava nas lancheiras os sanduíches e as Coca-Colas que ao final do jogo comemorariam a conquista do campeonato mundial de futebol pelo Brasil. Duzentas mil pessoas se espremiam no Maracanã e compartilhavam a mesma ansiedade. Em uma pequena rua sem saída da Tijuca, minha avó Lúci fazia tricô enquanto minha mãe Maria Helena, grávida, passava suavemente a mão na barriga onde eu também esperava o jogo começar.
Não se sabe se Nelson Rodrigues estava no Maracanã ou de ouvido colado ao rádio Phillips na sala de uma casa no Andaraí.
Os dois locutores da radio Nacional dividiram o campo e cada um narraria o jogo de um lado. O locutor Antonio Cordeiro, explica aos ouvintes que no primeiro tempo acompanhará o ataque uruguaio e Jorge Cúri, o ataque brasileiro. O jogo começa às 14:55, Cordeiro narra as três primeiras ações do jogo e passa para Cúri.
Movimentou Ademir para Jair. Jair atrasou para Bauer. Bauer na frente para Zizinho. Recebe Zizinho. Progride. Na frente para Ademir. Ademir para Zizinho. Avança Zizinho. Atrai Schiaffino. Passa por ele. Deu para Ademir! Ademir para Zizinho! Cortou Matias Gonzalez! Insiste Zizinho! Manda Rodriguez Andrade para corner!
E assim começa a triste saga da decisão do Campeonato Mundial de Futebol de 1950, em que o Brasil foi derrotado pelo Uruguai por 2 a 1 no Maracanã lotado. Esse acontecimento deixou marcas profundas nos brasileiros daquela geração, assim como em Nelson Rodrigues que se referia a ele como se fosse uma tragédia grega.
Entre as suas crônicas esportivas conhecidas e publicadas em livro, há uma na Manchete Esportiva de 31 de maio de 1958, Complexo de vira-latas, a última antes do embarque da seleção para a Copa da Suécia, que é a primeira em que aparece o tal complexo. Nelson volta à fatídica derrota de 50 e diz que ela ainda dói na cara e na alma dos brasileiros: – “Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar”. Tal sofrimento fez com que nosso futebol deixasse de acreditar em si mesmo e na hora do embarque da seleção, o brasileiro reviveu o temor de mais um fracasso, mais uma desilusão. Nessa crônica, Nelson diz que o jogador brasileiro “quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é único em matéria de fantasia, de improvisação e de invenção”. Profeticamente, ele estava definindo algumas características que marcariam o estilo de jogo brasileiro nas décadas seguintes e levaria a conquista de três Copas das quatro disputadas até 1970. Para Nelson, a inibição que atrapalha o brasileiro é o complexo de vira-latas. E, ao espantado leitor, Nelson explica o que é aquilo: é o complexo de inferioridade em que o brasileiro se coloca diante do mundo em tudo, principalmente no futebol.
Eu vos digo – o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia.
É preciso entender o contexto em que essa crônica foi escrita. Ao final dos anos 50 ainda era muito presente a questão da busca da identidade brasileira, ponto central do pensamento de vários dos grandes explicadores de Brasil. Não é o ridículo nacionalismo pachequista, ou os inatuais bigodes de granadeiro, tantas vezes citados por Nelson, mas, sim, o esforço de entender o que é o Brasil, presente no pensamento de Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Hollanda, no livro O Negro no Futebol Brasileiro, de Mário Filho e no Modernismo de 22. Havia obsessão de encontrar e entender o Brasil. O que somos? Qual é o nosso rosto? Com a sua certeira intuição de observador da gente brasileira, Nelson logo percebeu que o futebol era uma expressão dessa possibilidade de identidade, pois era capaz de, no dizer de Roberto DaMatta, dramatizar as complexas situações sociais e antropológicas do Brasil.
A disfuncionalidade da polarização que nos acomete há alguns anos, transformou a percepção de Nelson de um traço do psiquismo brasileiro em um conceito elástico e expandido capaz de explicar, justificar e, pior, ser manipulado, para manter as condições que, aí sim, levam o brasileiro, esmagado por uma realidade que não compreende e nem o representa, a vagar como reles e humilde vira-lata. Se não se livrar disso restará a ele latir em busca de uma oportunidadezinha, uma bem fornida lata de lixo, repasto caído do céu ou das mãos de um político, para achar que “se deu bem”. O vira lata de Nelson é irmão do Cachorro Vira-Lata, samba-choro gravado por Carmen Miranda em 1937. Por coincidência, a música é de autoria de Alberto Ribeiro, compositor e médico, também autor das Touradas em Madri, cantada a plenos pulmões no Maracanã na semifinal contra a Espanha que antecedeu a derrota para o Uruguai.
Carmen diz que “Gosto de cachorro vagabundo que anda sozinho no mundo sem coleira e sem patrão/Gosto de cachorro de sarjeta que quando escuta a corneta sai atrás do batalhão”. Se Macunaíma fosse um canino, poderia ser primo do vira-lata de Carmen Miranda.
Enquanto o vira-lata de Nelson é um humilhado pela constatação da superioridade estrangeira, o de Carmen é admirado por sua liberdade e pela capacidade de adaptar-se às circunstancias difíceis da vida. Não é difícil perceber a relação que tal ideia tem com a exaltação da malandragem que tanto mal tem causado ao Brasil, especialmente ao Rio de Janeiro.
Apesar de todo o carinho de Carmen pelo vira-lata, a música guarda uma surpresa no final. Era o tempo em que as carrocinhas de cachorro recolhiam os animais que viviam soltos na rua, pois aqueles que tinham dono precisavam estar registrados, vacinados e terem na coleira uma plaquinha de metal que atestava isso. Carmen canta que “Até mesmo entre os caninos/diferentes os destinos costumam ser./ Uns tem jantar e almoço/ outros nem sequer um osso/de lambuja prá roer. / E quando passa a carrocinha/ a gente logo advinha a conclusão/ O vira-lata coitado que não foi matriculado/dessa vez virou sabão”.
O futebol deu e ensinou muito ao Brasil ao expor nossas mazelas e grandezas, confrontando com a realidade ideias como a do complexo de cachorro vira-lata. Estabeleceu a dialética permanente entre o cumprimento das regras do jogo em oposição à malandragem desonesta; relativizou a autonomia absoluta do craque que resolve e o inseriu no jogo coletivo. Hoje, comparamos a lembrança da beleza inventiva, da maestria do jogo que um dia jogamos com a qualidade de organização tática e técnica do futebol europeu que, mais que times de futebol, são vistos como padrões civilizatórios.
Achar que o complexo de cachorro vira-latas é algo que ainda explica o brasileiro e o Brasil desde 1950 é exaltar e insistir em algo que nos mantém atrelados às esperanças em salvadores da pátria ou em ideologias providenciais que possuem o monopólio da virtude e da verdade. O vira-lata está sempre atrás de alguém que o acolha e conquiste sua confiança em troca de um prato de comida.
Os desempenhos das seleções que conquistaram cinco títulos mundiais de futebol, sem qualquer viralatismo ou malandrismo macunaímico, tinham caráter e identidades próprias e foram forjados com criatividade, invenção e fantasia, qualidades exaltadas por Nelson Rodrigues, mas também com treino, trabalho, sentido de grupo e jogo coletivo.
A poucos dias do início de mais uma Copa do Mundo, resta a esperança de reencontrar no trabalho e na criatividade do futebol brasileiro um espelho daquilo que talvez ainda possamos ser como nação.
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