Estudos sobre morte e pós morte

Pesquisa empírica na quarentena: um tabefe divino

No dia 3 de abril de 2020, bem cedo, eu recebi a informação da morte de um amigo da família – David[1]. Oitenta anos, grande amigo do meu pai, presente na vida da minha família imediata, de amigos, da coletividade judaica. O enfrentamento da morte e do luto em tempos de isolamento social surgiu sem nenhuma possibilidade de “escolha”.

A família decidiu fazer três cerimônias simbólicas, pelo aplicativo zoom, para que os abraços e carinhos fossem compartilhados via redes.

A primeira semana de luto no judaísmo é um ritual emocionante e necessário. A família se recolhe, e, na shivá (os sete dias de luto judaico), recebe visitas, reza, se abraça, chora e compartilha a dor para que ela pareça menor, para que ela se torne menos solitária, para que a vida pareça ter mais sentido. Neste cenário atual, o que fazer?

A família escolheu a forma mais sábia: recolher o carinho virtualmente.

Um primo imediato, conhecedor do judaísmo, profissional da Congregação Israelita Paulista, conduziu as cerimônias de forma admirável. Elas ocorreram com cerca de 70 a 100 dispositivos (entre celulares, ipads e computadores). Elenco abaixo a rotina de forma resumida e sistemática, para todos entenderem com clareza:

  • Solicitação para que todos desligassem seus microfones e que fossem passando as telas a fim de observarem os presentes, quem estava ao nosso lado, quem rezava junto e quem compartilhava a dor;
  • Explanação de que aquilo que estava acontecendo era uma confraternização simbólica, sem um cunho religioso ortodoxo, mas, sim, um momento importante dentro do luto para os rituais judaicos e, acima de tudo, para que a família recebesse o acolhimento necessário;
  • Leitura de um poema ou algum outro texto reflexivo e profundo sobre a morte/luto;
  • Enquanto ouvíamos uma melodia cantada por ele, todos escreviam no bate-papo do aplicativo palavras e/ou expressões felizes que nos faziam lembrar o homenageado;
  • Alguns amigos e familiares davam os seus depoimentos – breves, simples, anedóticos e emocionantes;
  • Reza do Kadish (reza do luto judaica) coletiva, juntamente com a família.

Posso afirmar que presenciei algo que nunca havia sentido antes – uma reunião de pessoas profundamente emocionadas e conectadas com os seus sentimentos mais íntimos. Tentando trazer conforto para o outro lado da tela, tentando entender os sentimentos ali aflorados, chorando junto e com lágrimas que não podiam ser limpadas por outros. Por nenhum amigo, por nenhum outro familiar.

O luto dos primeiros sete dias na religião judaica simboliza uma quebra em toda a rotina, simboliza o respeito ao indivíduo que se foi e a profunda comunhão com os familiares. As rezas acontecem na casa dos enlutados ou em uma sinagoga – ao amanhecer e ao alvorecer. Impossível neste contexto atual. Neste ritual não se “agradece” a quem vai prestar sua solidariedade ou seus sentimentos. É nossa obrigação estar lá. É nossa obrigação participar da reza, abraçar filhos, esposas e os demais que estão sofrendo junto. Dizem que o “gelo” do luto, de dentro de cada familiar enlutado, começa a derreter dentro da shivá – pelas visitas, pelo carinho e pelos abraços. Agora, o gelo se derrete virtualmente. Depois destes 7 dias profundamente sensíveis, transformadores e terríveis, a família “se levanta”.

Na minha experiência pessoal, depois dos meus sete dias de shivá pelo meu pai, há cerca de dois anos, acordei achando que minha vida tinha voltado a uma pequena normalidade. Senti necessidade de ir ao supermercado e de arrumar pequenas coisas. Como “voltar ao normal” depois de sete dias de luto em isolamento? Não há resposta. Há tentativas somente. Não há certo ou errado.

Transformar tudo isso em algo distante foi absolutamente desafiador – acredito que não só para a família, mas para todos nós. Entendermos sentimentos que nem sequer existiam antes, que não havíamos pensado que sentiríamos.

A fé se reinventa, os rituais PRECISAM ser reinventados dentro de cada religião e cada liturgia.

Digo com clareza que saio transformada depois destes dias. A minha experiência foi única. Meus sentimentos na hora da reza do Kadish foram intensos. Senti que estava, novamente, rezando para o meu pai. Me senti conectada com algo que talvez não estivesse, caso os rituais fossem em uma sinagoga ou com outras pessoas ao meu lado.

O indivíduo só, em frente a seu computador, lendo a reza mais conhecida (infelizmente) do judaísmo, sem se preocupar com sua aparência pessoal, sem se preocupar se precisará sair do local para outro compromisso, é algo único, intenso e raramente visto. Talvez isso precise ser enfrentado – a solidão, a própria falta de recursos, as mãos atadas frente às contingências da vida e, obviamente, frente ao inevitável – a morte – a única certeza que temos.

Nota: “tabefe divino” é expressão sugerida pela psicanalista, Profa. Dra. Danit Falbel Pondé, quando contei para ela minha experiência.

[1] Nome trocado em respeito à família, que autorizou a publicação deste texto.

Imagem: Heraldo Galan


Sobre o autor

Andréa Kogan

Formada em Letras, doutora em Ciências da Religião pela PUC-SP, pós-doutoranda em Ciências da Religião pela PUC-Minas, autora do livro “Espiritismo Judaico”, assistente acadêmica do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ, onde também coordena os grupos de pesquisa sobre Morte e Pós-Morte e Judaísmo Contemporâneo.