Nelson Rodrigues: literatura, filosofia e religião

Eu não posso tudo!

“É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez.” [1]

Isolamento social é o novo termo que temos de aguentar neste momento de Pandemia. Uma medida dura, porém, necessária à proteção da saúde da nossa sociedade.

Somos seres de linguagem – nosso inconsciente é assim estruturado – é isso que nos diferencia dos animais irracionais, que em sua maioria conseguem conviver em bando, se cuidando e se alimentando, todos juntos, acasalando e morrendo.

Por acaso falei algo que parece que tem aborrecido a muitos seres racionais? Se concorda ou não comigo, por que será?

Todos nós temos algo insuportável. Sim, temos, aliás, muito mais coisas insuportáveis, só nossas, que o outro que vive ao redor não suporta, como você, por tabela, também não suporta no outro. A recíproca é verdadeira, acredite!

Jacques Lacan (1901-1981), psicanalista francês, contemporâneo nosso, entre muitas frases absolutas, deixou a que diz: “Amor é dar o que não se tem para quem não quer”. Mas como podemos dar o que não temos para toda a família, convivendo dentro de casa, 24 horas por dia, reclusa e atormentada pelo medo, pela insegurança do não saber e pelo convívio absolutamente próximo?

Como? Eu não tenho o que fazer? Calma, esta é uma questão que aflige a muitas pessoas. Mas não se angustie, pois você tem o que fazer sim, pode tentar habitar o mesmo espaço social que a sua família tal e qual Viver a Vida como ela é, de verdade e sem aqueles subterfúgios que ajudam as pessoas a se tolerarem. Você conta também com a nobre possibilidade de não se matar e tampouco os seus vizinhos, a sua família, os porteiros do seu prédio, os manobristas e tantos outros que não têm a possibilidade de ficar em casa como a maioria de nós.

A frase até pode ser forte, mas a responsabilidade é tanto minha quanto sua. Posso não morrer, mas não sei se posso matar o coleguinha do lado. É duro sim, mas é a mais pura verdade. Sei que existe o grande problema financeiro, que acomete a todos nós, contudo, a questão é: quem pode e consegue ficar mais um pouco em casa, por que não fica?

Acredito que Nelson Rodrigues foi um expert em dizer das angústias, do medo e do temor do ser humano em viver a vida de verdade. No tempo dele, não existiam lives, cursos on-line, um mundo tecnológico tentando salvar o insuportável de cada um. Hoje, defrontamo-nos com a face hedionda de cada um, umas dez vezes por dia, pelo menos.

Mas nem tudo são terrores. Há quem esteja feliz porque não tem mais que inventar mil e quinhentas desculpas para não ir ao chá de bebê, casamento, cinema, teatro, passeio ao shopping, happy hour e outros compromissos que os seres humanos promovem para si mesmos, para lotar a agenda e fugir da verdadeira e amarga rotina.

Ao ser humano é dado de presente a castração. Algumas pessoas, nos consultórios dos psicanalistas, dizem se sentir atormentadas, e que o fato de existir uma lei para controlar os “instintos” faz com que um não mate o outro, que não se comam, literalmente, como os monstros dos filmes de terror classe E. Não poder fazer tudo traz certo desconforto, irritabilidade e angústia.

Sim, todos podemos, entre tantas coisas, sentir frustrações, porém, o fato é como suportar tudo isso e dentro de casa. Não dá para explodir lutando boxe, correndo no parque, treinando krav maga, nadando, por exemplo. Não dá, por enquanto não dá, mas em algum momento voltaremos às nossas atividades costumeiras. E eu, do mesmo jeito que você, caro leitor, por um lado, infelizmente, tenho de lidar com o não saber todos os dias, e por outro lado, felizmente, reconheço que não dá para fazer tudo, e aprender a lidar com isso nos ajuda a respeitar nossos próprios limites.

Você não precisa ser um pai ou uma mãe que detém todos os poderes de ensinar tudo aos seus filhos (você não é super-herói); não precisa fazer todos os cursos que apareceram on-line (porque você precisa continuar trabalhando); ou não precisa se inscrever no melhor curso de culinária francesa (porque você não fez gastronomia). Faça apenas o que consegue, o que é razoável, o que faz com que você viva melhor em grupo ou até mesmo sozinho. Relaxa um pouco, pois estamos atravessando uma fase em que o medo está assombrando a todos em maior ou menor grau. Posto isso, encontre uma forma própria de lidar com a vida como ela é, e se não conseguir por si só, permita-se pedir ajuda a um especialista.

Creia-me, vai ser um alívio quando você conseguir se olhar no espelho, admitir e dizer a si mesmo: Eu não posso tudo!

[1] RODRIGUES, Nelson. Flor de Obsessão: as 1000 melhores frases de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 152.

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Imagem: iStockPhoto

Sobre o autor

Carla Almeida

Psicanalista Lacaniana. Mestre em Ciência da Religião pela PUC/SP. Bacharel em Direito e Especialista em Educação e Religião pela Faculdade Messiânica. Pesquisadora na área da Psicanálise Lacaniana e Literatura de Nelson Rodrigues. Coordenadora do Grupo de Estudos sobre Nelson Rodrigues no Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.