Filosofia política

Apocalipse ressentido?

O risco em identificar no ressentimento uma mola mestra do atual cenário político brasileiro e mundial é continuar condenando à inferioridade (intelectual, no mínimo) aqueles que discordam com o ainda establishment progressista, em suas várias versões e pautas. Pode ser um novo jeito de dizer que somente “broncos” votam em Trump, dão as costas para a União Europeia ou vão ao aeroporto receber Bolsonaro. No caso do ressentimento, considerando que aquele que o carrega se apequena em sua potência rancorosa, isso pode ser ainda mais capcioso… O olhar de cima para baixo, supondo que o que está por baixo se veja bem lá embaixo e por aí vai… Vale o cuidado.

Certa esquerda (ou ‘a’ esquerda, já não sei) pode estar mais uma vez se arvorando em perspectivas pouco autocríticas. Há uma diferença entre dizer, em mero tom de mea culpa, “puxa, cedemos ao poder e também roubamos” e entre reconhecer que nos últimos governos petistas a corrupção adquiriu dimensão sistêmica. Dizer “puxa, só porque também roubamos,agora esses ressentidos não querem dialogar conosco!” soa quase mimado. Da mesma forma, em nível global e pensando mais na pauta dos costumes, não dá para negar empáfia no discurso progressista – concordemos com seu conteúdo ou não – ao supor que determinadas hierarquias de valores seriam deslocadas por outras na base do voluntarismo (seja do já caidinho Femmen ou de burocratas de Bruxelas). Há uma dificuldade imensa em reconhecer, em outros casos, algum tipo de lógica ou racionalidade na tradição resistente.

Ressentimento, sem dúvida, há e ele é vocalizado de modo explícito, escancarado, nas redes. (Aliás, falando de novo das últimas eleições, tenho uma curiosidade imensa em saber qual dos lados mais desfez amizades virtuais no Facebook). Hoje, há meios de aferir esse sentimento de forma mais técnica. E, por paradoxal que seja, agora os ressentidos se revelam, se engrandecem. Daí porém, a meu ver, a dificuldade em saber se esse ressentimento é maior hoje ou se no passado também era assim… Em saber se a história não se move – especialmente em suas guinadas mais profundas (la longue durée) – em “fla-flus” de ressentimentos com intuito de revanche. Quanto de realidade, de vetor de causa e efeito, está sendo criado pelo próprio instrumento de aferição (big data) quando o ressentimento é visto como categoria mestra? Há risco de algum tipo de correlação espúria, mascarada em clusters? Será que há ressentidos mais perigosos do que outros? E histéricos?

Partindo-se da centralidade do ressentimento, porém, sigamos. Onde está a origem deste mal? Não é possível afirmar que o ressentimento foi plantado no centro da sala da política pelo discurso da “dívida histórica” tão acalentado pelas lideranças de esquerda? O manejo narrativo da história, em si mesmo, na linha do “nunca antes” lulopetista, não é um modo sinistro de calar? Dado que o ressentimento se manifesta, entre outras coisas, na falta de diálogo – o que dizer de uma narrativa que elimina o contraditório? O que dizer da superioridade de uma certa intelligentsia que, na melhor das hipóteses, ridicularizava qualquer discurso que lhe fizesse oposição? De setores que se apropriaram “do bem”? Não havia diálogo – se muito, sermão. Uma democracia em que sempre se alternam partidos de centro-esquerda é de uma alternância bem retórica – no pior da palavra. Por isso, acho curioso que o incômodo com certa ‘indisposição para o diálogo’ se exaspere somente agora no pós onda (bronco?) conservadora. Sintomático em algum grau talvez, volto à carga, de certa histeria apocalíptica que tomou segmentos progressistas às vésperas do pleito tupiniquim. Pondero, nessa linha, como advogada do diabo, que se ‘ressentimento’ pode ser um marcador útil dos tempos atuais, ‘histeria’ pode ser outro. Reconhecida a quantidade de trapalhadas, atropelos, vícios e malandragens dos últimos tempos – pra finalizar por aqui mesmo – não consigo deixar de identificar uma frequência esquisita, um descompasso urgente daqueles que não suportam ser confrontados em suas hostes. Tudo é pra já! (Inclusive as eleições de 2022!). Tanto quanto o ressentimento anão, o medo de fantasmas também pode ser infantil. É preciso alinhar os ponteiros e digerir o tempo.

Imagem: Agência Brasil

Sobre o autor

Rejane Araújo

Economista com graduação e mestrado pela FEA-USP. Bacharel em filosofia pela FFLCH-USP. Professora do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pesquisadora do Grupo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.