Filosofia política

A polarização política é o problema?

Quando observamos os inflamados embates nas redes sociais, nas ruas quando ocorrem manifestações, ou ainda em alguns debates em canais de televisão, por exemplo, é comum ouvir as pessoas dizendo que um dos grandes problemas que estamos enfrentando, hoje em dia, é o da polarização política.

Segundo tal visão, esta polarização dificultaria ou mesmo impediria o debate racional, colocando as pessoas em campos não apenas diferentes, mas diametralmente opostos, incapacitando-as, por isso, de compreenderem a posição umas das outras, impulsionando o “racha” na sociedade brasileira. Podemos tentar entender melhor essa situação ao buscar tornar mais precisos os conceitos e termos que utilizamos.

A primeira questão que nos ocorre é se a polarização em si é o problema. Então, de que estamos falando quando descrevemos o problema como sendo de “polarização”? Esta ideia parece querer dizer que o problema em política é o fato de haver polos opostos e que é preciso, sempre, encontrar o ponto de diálogo em que as diferenças seriam superadas. E, ainda, como apontado acima, de que polarização indica sempre a posição extremada, fechada, em que “polos” sempre são absolutamente opostos.

Neste aspecto, é preciso, primeiramente, ter em conta que apenas faz sentido pensar na política como sendo o âmbito da vida em sociedade em que as diferenças de opinião, de aspirações, de visões de mundo entram em confronto. E que a vida política é o esforço de chegar a acordos mínimos que contemplem e acomodem o melhor possível estas diferenças. Portanto, é preciso considerar que a experiência social e o vocabulário da política não existiriam sem haver algum grau de polarização.

A democracia foi o regime que surgiu como proposta de contemplar estas diferenças e estabelecer os mecanismos para embate, admitindo-os como sendo a forma mais adequada para a prática política que contemple a diversidade de interesses e de pontos de vista na sociedade civil. Havendo, então, duas posições opostas na sociedade, haverá polarização, o que não significa que elas necessariamente sejam absolutamente opostas e que não haja possibilidade de diálogo entre elas. À medida que as sociedades ocidentais se tornaram mais complexas, diversificadas, cada vez mais perspectivas e aspirações sociais, econômicas e políticas, poderíamos dizer, mais “polos”, surgiram e entraram em confronto.

Sendo assim, pode-se perceber que a “polarização” é inerente ao próprio âmbito da política, que não existiria se não houvesse estas diferenças. Se todos tivéssemos os mesmos desejos e aspirações, não teríamos desenvolvido a dimensão política de nossa vida social.

Por esta linha de raciocínio, poderíamos dizer que o problema, então, não é exatamente isso a que estão chamando de polarização.

Vejamos, então, alguns outros conceitos que podem nos ajudar a precisar um pouco melhor o entendimento desta situação.

Quando nos deparamos com posições opostas em debates, que são defendidas acaloradamente, também é comum as pessoas dizerem que os debatedores são “radicais”. Este é outro termo que entrou na linguagem cotidiana ao ser aplicado para descrever posições totalmente antagônicas e incompatíveis, defendidas de forma inflexível pelos seus adeptos.

Em verdade, o termo “radical”, que significa voltar às raízes, aponta para uma afirmação integral de uma determinada doutrina; como expressão política, nasceu de certos grupos e pensadores de cunho liberal que surgiram na Inglaterra no século XVIII, com a industrialização, a emergência da burguesia e novos segmentos e classes sociais, que buscavam mudanças profundas em amplas áreas da sociedade civil britânica, e depois tiveram sua expressão também na França e em outros países.

Em geral, o radical se opõe ao status quo e busca mudanças amplas no ambiente político, que em geral é marcado pelo desequilíbrio nas posições conflitantes e por uma grande dificuldade em se adequar aos modelos sistemáticos de pensamento. Tendo isso em conta, vemos que não é exato atribuir o termo apenas a movimentos de esquerda, sendo, ao mesmo tempo, possível também haver, como efetivamente houve, radicais de direita. O radicalismo político significa mudança ampla e profunda, mas não necessariamente exclui a diversidade.

E há um terceiro termo que representa um conceito mais preciso para certas atitudes políticas vigentes em nosso tempo, que é o “extremismo”. Neste caso, pode-se falar de uma atitude política que se coloca em uma posição fechada ao diálogo, que recusa as outras formas de pensamento, que vê como única solução para o embate político a eliminação de seu oponente, que não enxerga possibilidade para uma terceira posição em um confronto de ideias (em filosofia, essa atitude é conhecida pela expressão latina tertium non datur). Houve radicalismos de direita, que tentavam – alguns ainda tentam – suprimir as classes políticas e sustentar um determinado status quo, assim como houve – e ainda há – radicalismos de esquerda, como nos movimentos comunistas que se opunham intransigentemente à democracia parlamentar.

Ao extremismo político, podemos ainda agregar o extremismo religioso, que é aquele que quer impor uma determinada organização social fundada nas suas crenças e tradições e que não tem nenhuma disposição para admitir qualquer forma diferente de sociedade, de crença e de regime político.

A partir deste quadro, poderíamos dizer que o maior problema está nas formas extremistas de manifestações políticas, que em geral, contaminam o ambiente social com discursos de ódio, e se utilizam de todos os meios comunicacionais e tecnológicos para difundir suas posições e afirmações autoritárias, segregacionistas, preconceituosas.

Mas, não bastasse este último conceito, podemos agregar uma outra perspectiva a esta situação, que é marcada pelo que conhecemos por “ideologia”. Este último se refere ao conjunto de ideias, valores e crenças que fundamenta uma certa visão de mundo e uma correspondente prática política. A ideologia ainda é vista de uma forma mais crítica quando é adotada a interpretação marxiana, que vê nela a chamada falsa consciência. Isto é, a ideologia é apenas uma construção simbólica cuja finalidade é a de manter e reproduzir uma determinada ordem social. Nesse caso, é vista como uma falsificação da realidade.

Em outra forma de abordar a ideologia, o filósofo britânico Michael Oakeshott a apresenta como um conjunto abstrato de ideias que pretende definir a priori como se deve agir no âmbito concreto da política, sem levar em consideração a história, a prática, as reais circunstâncias em que a ação política se dá. Ela é movida por grandes ideias abstratas como Liberdade, Igualdade, Pureza Racial, Máxima Produtividade, Felicidade, etc.

Sendo assim, é um tipo de ideia que se assume, toma-se como a melhor descrição da realidade (e aqui podemos acrescentar a ideologia nascida da fé religiosa) e que fundamenta a visão de mundo que determinará toda forma de ação daquele grupo particular.

Podemos perceber, então, que o pior cenário se dá na combinação da ideologia com o extremismo. Neste caso, com a ajuda destes dois conceitos, identificamos a grande dificuldade que se instaura quando grupos de interesse político se embasam desta forma.

O discurso extremista e ideologizado é incapaz de perceber outra posição que não a sua.  Na história recente do Brasil, pudemos constatar este tipo de posicionamento representado em frases como “eles contra nós”, “nunca antes em nossa história”, “é preciso eliminar este(s) grupo(s)”, “falamos em nome do povo”, “o povo é que quer assim”, “foi Deus quem o colocou nesse lugar, não o voto”, etc.

O grande desafio no mundo atual, dada a grande crise trazida pela pandemia do novo coronavírus, é alcançar algum grau de equilíbrio entre a racionalidade científica com suas determinações sanitárias, a racionalidade econômica com seus planos e ações de manutenção dos meios materiais de sobrevivência da população – especialmente no campo da gestão pública pela ação governamental –, e racionalidade política, no sentido de preservar as aquisições civis como as liberdades fundamentais e a proteção da lei contra os abusos e avanços do Estado sobre o cidadão.

Quais os entraves e riscos que temos observado? Notamos que este equilíbrio tem sido muito dificultado porque certos grupos adotam esta posição extremista e ideologizada ao abordarem o problema da origem do vírus e da doença. Isso acontece quando avaliam as formas sociais de enfrentamento – como o distanciamento social –, as formas possíveis de tratamento – cloroquina é a solução? – também a organização econômica – “fique em casa” versus “não podemos parar” – e assim por diante.

Como sairemos desta situação é a pergunta cuja resposta hoje é a mais valiosa, que todos buscamos, mas que ninguém tem em mãos. O que temos, ao menos, é um conjunto de atitudes que podemos adotar que, no curtíssimo prazo, parecem as mais seguras e minimamente baseadas em dados concretos. Que a sorte nos sorria a todos!

Imagem: kieferpix/iStockPhoto

Sobre o autor

Luiz Bueno

Bacharel e Mestre em Filosofia, Doutor em Ciências da Religião e coordenador do Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.