Filosofia política

O racionalismo no campo da administração

MIchael Oakeshott

No ensaio Rationalism in politics [1], Michael Oakeshott (1901 – 1990) classifica o racionalismo como memorável onda intelectual da Europa Pós Renascentista, uma forte e vívida maneira de pensar. Suas críticas são tão profundas, que, no final de seu texto divulgado em 1947, ele chega a associar o Racionalismo a uma doença entranhada na sociedade. Uma infecção de longa duração. Oakeshott concentrou sua atenção nos impactos do racionalismo no campo da política.

Novata no campo da filosofia política, a leitura deste denso e erudito ensaio disseca a disposição de pensamento prevalente nas escolas de administração em que estudei ou ensinei, assim como nas organizações privadas em que atuei.

Associo inicialmente a aversão à tradição demonstrada pelo racionalista com o fetiche da mudança organizacional, síndrome descrita por Cristopher Grey[2], da Universidade de Cambridge. Como o racionalista de Oakeshott, cuja disposição mental faz com que ele aceite mais a destruição com a criação de algo novo do que a reforma de algo corrente, o(a) administrador(a) é treinado(a) para entrar em qualquer ambiente com o objetivo de identificar transformações. O mandamento é mudar em nome da competitividade e do ganho de produtividade e para isso foram desenvolvidas inúmeras estratégias.  

A reengenharia, estratégia de gestão criada na década de 1990 por professores do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), reflete a disposição racionalista em sua essência. O administrador, como o racionalista de Oakeshott, menospreza o hábito e atribui maior importância ao conhecimento técnico em detrimento do conhecimento prático. Um processo de reengenharia prevê o mapeamento de processos e fluxos de trabalho, com subsequente restruturação organizacional a partir de um novo desenho formulado por consultores externos e aprovado pela direção da empresa. Trata-se de mudança social radical com o pressuposto de que o conhecimento técnico de profissionais especializados em uma estratégia de gestão tenha primazia sobre o conhecimento prático expresso no trabalho de dezenas, centenas ou milhares de pessoas. Empresas de consultoria que vendem esse tipo de serviço preconizam que a “razão” seja um guia infalível da atividade empresarial. O ideal é partir do zero, apagar a história e criar algo novo, mais produtivo. O velho e o tradicional devem ser descartados.

No final da década de 1990, a abertura econômica do Brasil propiciou a ocorrência de um progressivo número de fusões, aquisições e privatizações. Trata-se de operações financeiras que reproduzem e refletem a progressiva internacionalização da economia, com simultânea concentração de poder e de riquezas. Buscam-se sinergias, também designadas por racionalizações, com decorrente redução de postos de trabalho na busca por maior retorno sobre o investimento. O insucesso de proporção significativa dos processos de integração pós-aquisição não impediu sua propagação. Parece que o(a) administrador(a), assim como o racionalista de Oakeshott, “não tem senso de acumulação da experiência, tampouco tem o poder de aceitar mistérios, incertezas sem buscar a ordem e uma formulação de teoria que se imponha sobre os eventos”. No universo acadêmico e na literatura de negócios, muitos autores identificaram questões culturais como causa dos expressivos fracassos; falava-se em choques culturais. A subsequente proposição de engenharias culturais reflete, de maneira similar à reengenharia, a disposição racionalista de reconstruir um tecido social a partir de um modelo estabelecido pela direção da empresa com assessorias especializadas. Em síntese, imagina-se possível transformar complexos tecidos sociais a partir da identificação de traços culturais existentes e comunicação de comportamentos, posturas e competências desejados e premiados.

Acadêmicos de perspectiva crítica, minoritários nos estudos organizacionais, questionam há bastante tempo a possibilidade de que “alguns seres extraordinários possam controlar tanto organizações quanto ambientes e que possam movê-las a seu destino final – um discurso de domínio ‘incorporado’ pelo mítico sujeito moderno do conhecimento, ‘o administrador norte-americano’”[3]. Porém, a crítica nem sempre é bem recebida no cotidiano das organizações.

Cabe lembrar que a sobrevivência de executivos e ocupantes de cargos de gestão de nível médio no mercado de trabalho depende da sua capacidade de aprender as regras do jogo e “entregar os resultados” no tempo determinado. Espera-se um comportamento que demonstre clara adesão e aplicação das práticas ditadas pelos modismos empresariais. É fundamental acreditar, ou pelo menos parecer crer, que os dirigentes sabem o que fazem e dispor-se a sucessivas adaptações, sem demonstrar qualquer forma de resistência. Resistir é limitação, problema a ser superado ou mesmo eliminado. Frequentemente, as grandes organizações proporcionam programas de capacitação de lideranças que utilizam toda sorte de métodos de treinamento para viabilizar a difusão do conhecimento técnico e adoção de práticas gerenciais preconizadas para viabilização dos objetivos organizacionais estabelecidos. Assim como o racionalista, a administração recompensa a esperteza que é encorajada pela retribuição de poder e privilegia o treinamento em oposição a uma educação que favoreça a reflexão crítica.

Para Oakeshott, a moralidade do racionalista reduz-se à técnica através do treinamento em uma ideologia. No campo da administração, a indústria do management – constituída pelas escolas de negócio, empresas de consultoria, gurus empresariais e mídia de negócios – veicula e legitima essa ideologia. A certeza subjacente é calcada numa racionalidade representada pela busca da produtividade, do lucro, da maximização do ganho. Um vale-tudo, em nome da sobrevivência da empresa e do emprego do administrador, cujo desempenho é medido por meio da elaboração de indicadores de gestão que, como todos os demais números suficientemente torturados, acabam por dizer o que se pretende demonstrar. Afinal, não faltam exemplos de relatórios duvidosos, fraudes e fracassos, de obtenção de resultados insuficientes ou mesmo desastrosos entre aqueles que ocuparam as capas de revistas de negócios…

[1] OAKESHOTT, Michael Joseph. Rationalism in politics. In: Rationalism in politics and other essays. New and Expanded Edition, Liberty Fund, Carmel, Indiana, United States, p. 5: 42, 1991.

[2] GREY, Cristopher. O fetiche da mudança. RAE, vol. 44, n.1, p 10-25, 2004.

[3] CALÁS, Marta B.; ARIAS, Maria Eugenia. Compreendendo as organizações latino-americanas: transformação ou hibridização? In: MOTTA, Fernando C.P.; CALDAS, Miguel P.(coord.) Cultura Organizacional e Cultura Brasileira. São Paulo: Atlas, cap. 19, p. 316-325, 1997.

Sobre o autor

Ruth Steuer

Mestre e Doutora em Serviços de Saúde na Faculdade de Saúde-Pública da USP. Pós-Doutorado em Estudos Organizacionais na EAESP – FGV. Integrante do Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.