A crise do amadurecimento na contemporaneidade

Um bom lar comum na essência democrática

O ano de 2020 teve início com inúmeras preocupações sobre o impacto da pandemia do COVID-19 em diferentes setores da sociedade mundial. Além disso, no mês de maio, o assassinato de George Floyd por policiais americanos ativou um estrondoso senso de injustiça racial, repercutindo em uma onda de protestos espalhados pelo mundo. Em certos lugares, os protestos se tornaram violentos, agressivos, gerando caos e destruição. Partindo desse contexto, o presente artigo recorre a Winnicott a fim de apresentar as suas teorias e propor um paralelo com a realidade atual, considerando que o autor aponta para a ideia de identificação imatura com a sociedade, em que o indivíduo acaba sendo “pró- sociedade, mas anti-indivíduo”. Em contrapartida, e segundo o mesmo autor, os denominados indivíduos saudáveis contribuem de uma forma íntegra com a democracia, pois a essência desse regime político repousa no funcionamento de um bom lar comum.

Winnicott apresenta que a democracia pode ser estudada do ponto de vista psicológico, pois a construção da sociedade avança conforme o desenvolvimento pessoal de seus membros, ou seja, ela envolve questões relacionadas à maturidade. Vale dizer que tanto a democracia quanto a maturidade não podem ser implantadas em uma sociedade, pois Winnicott assinala o fator democrático inato, que deriva dos trabalhos de um bom lar comum. Há um significado na devoção da boa mãe comum a seu filho, e é necessário tal reconhecimento, uma vez que essa devoção fundamenta a capacidade que, posteriormente, permite a maturidade emocional.

Assim, os pais devem proporcionar para seus filhos um lar em que eles possam crescer como indivíduos saudáveis e que, gradualmente, eles tenham a possibilidade de se identificar com os pais, e em seguida com agrupamentos cada vez maiores. Segundo Winnicott (1950), a “mãe devotada comum”, é capaz de gerar uma pessoa inteira, que se relaciona com o outro, e que tem a possibilidade de criar a própria família e contribuir com a sociedade. Assim, Winnicott (1957) chama a atenção para a imensa contribuição que a boa mãe comum faz ao indivíduo e à sociedade, simplesmente por ser devotada a seu filho e, por isso, toda a sociedade e a política devem conferir liberdade para que os pais conduzam seus lares a seu modo. Bons pais comuns não precisam de ajuda, precisam de tudo o que a ciência pode oferecer em termos de saúde física, de prevenção e tratamento da enfermidade física; também precisam de instruções pluriculturais e de auxílio quando apresentarem doenças ou problemas psicológicos. Mas a responsabilidade que os pais comuns têm em relação aos seus filhos não deve ser retirada, e a sociedade deve garantir tal orientação.

Partindo desses pressupostos, Winnicott (1950) nomeia como antissociais ocultos os indivíduos que reagem à insegurança interna através da identificação com a autoridade ou com uma causa, visto que a realidade psíquica não pode ser suportada por sujeitos que não vivenciaram uma experiencia criativa ao longo da vida que possibilitasse a integração da personalidade. Essa identificação é imatura, não tornando possível a autodescoberta do ser, “é o senso de moldura sem o senso de quadro”, ou seja, uma tendência a favor da sociedade, mas em oposição ao indivíduo.

Assim, protestos que giram em torno de grandes causas podem exemplificar tais identificações. Os indivíduos tendem a procurar um representante, que pode ser limitado, integral ou até mesmo um conceito social consolidado do mundo atual. Dessa forma, os conflitos se instalam no meio social, são mantidos por esses indivíduos e as cenas catastróficas vistas nos últimos dias evidenciam o quanto esses confrontos são benéficos para esses indivíduos, em razão de aliviarem os conflitos da realidade psíquica interna.

Quando o indivíduo tem fascínio por um líder ou por determinada ideia, isso gera uma certeza de suas ações e o transforma num ditador que não possui dúvidas, apenas uma compulsão para manter o domínio. Atualmente, nos deparamos com posições ou líderes que são defendidos fervorosamente. A partir disso, tolerar o antagonista torna-se a coisa mais difícil de se conseguir, pois é mais fácil impor uma ideia ou autoridade e, consequentemente, tirar toda a liberdade do grupo e desconsiderar toda construção feita por ele. Porém, de uma forma ilógica, a liberdade para o grupo maior e mais forte que obteve o domínio permanece, sem um debate aberto e maduro (WINICOTT, 1969).

Assim se estabelece o domínio de uma ideia supostamente boa sobre uma ideia má, porém, a definição das qualidades das ideias é privilégio do ditador ou da causa. Segundo Furedi (2020), a sociedade atual tem possibilitado que a linguagem pública seja rapidamente seguida por uma perda intencional de visão da realidade, o que impossibilita que as questões sejam discutidas entre os indivíduos que compõem o grupo social, e os significados clássicos das palavras acabam sendo perdidos. Neste caso, o extremismo tanto da esquerda quanto da direita demonstra que não existe um confronto de ideias, mas sim imposições, que afastam e discriminam os indivíduos, além de fracassarem na aplicação de mudanças significativas para a sociedade, aumentando a polarização e o esvaziamento do debate.

Em contrapartida, Winnicott (1969) discorre sobre as pessoas saudáveis que contribuem com a sociedade de uma forma completa, sendo capazes de lidar com o conflito tanto de forma interna quanto externa, e assumindo responsabilidade por tudo. Dessa forma, a liberdade presente nesses indivíduos tem como base a responsabilidade e, assim, o homem livre fica sem o alívio de justificar as suas atitudes com base em uma determinada ideia ou autoridade, ele não possui ninguém que lhe dê ou retire a permissão para fazer o que quiser, segundo Winnicott, alguém que o poupe da tirania de uma consciência.

Deste modo, torna-se compreensível que as pessoas temam tanto a não liberdade quanto a liberdade. Quando os indivíduos são mandados, um grande alívio é proporcionado e a única exigência é o culto às ideologias ou aos grandes heróis. É muito raro, em uma sociedade, indivíduos que sejam livres e que assumam plena responsabilidade pelos seus atos e pensamentos, sem que isso gere uma frustração excessiva. Assim, tanto a demasia quanto a inibição das ações e pensamentos pessoais podem ser transferidos para um líder ou para um princípio de uma forma muito descomplicada, porém o resultado é a pobreza da personalidade.

Winnicott (1940), apresenta a democracia como exercício da liberdade e, assim, espera-se que os indivíduos sejam capazes de tolerar as opiniões opostas, com um possível debate que pode envolver desgaste e dor, mas que não deixa de ser necessário para o bom funcionamento da sociedade. Porém, atualmente, as discussões não são desenvolvidas entre os indivíduos, o que facilita e mantém a sensação de um mundo binário, em que os padrões acabam sendo repetidos e o protagonismo individual é deixado de lado, dando lugar a falas massificadas (UNAMUNO, 2017).

Um ambiente que é facilitador, ou seja, suficientemente bom, precisa ter certas qualidades que irão auxiliar no processo maturacional da criança, assim cria-se a possibilidade de ela se tornar uma pessoa real e completa, que contribui com a sociedade de maneira responsável, com diálogos e construções proveitosas e que consequentemente auxiliam, de modo satisfatório, na manutenção da democracia. Quando o ambiente falhou, o indivíduo não consegue alcançar a plenitude em relação ao seu potencial pessoal. Logo, a aderência a um princípio ou a um líder é facilitada, pois o indivíduo não consegue preencher a si mesmo ou se tornar completo, sendo que o externo proporciona alívio, justificativas, direções, em que as ações podem ser explicadas por argumentos extremistas, intolerantes, preconceituosos etc. E o que se vê atualmente é um período em que a sociedade vem sendo estimulada por pessoas que dizem amar a liberdade, mas sem que isso signifique assumir responsabilidades; assim, elas acabam adotando medidas severas que eventualmente podem resultar em uma ditadura.

A democracia é uma aquisição de uma sociedade que possui diversidades e posições opostas que devem favorecer o desenvolvimento de fronteiras. Por isso, os limites de ações que são aceitáveis em um protesto não giram em torno de princípios baseados simplesmente na liberdade de expressão, mas sim em torno de algo que deve ser debatido e negociado. O direito de protestar deve ser garantido a todos, em uma esfera que não prejudique o outro (FUREDI, 2012). Neste caso, torna-se compreensível que a raiva pelo assassinato de Floyd, que foi o estopim para a indignação das pessoas com o racismo, desencadeasse inúmeros protestos. No entanto, a base para a sociedade e suas movimentações, incluindo manifestações e protestos, é a personalidade humana que deve ser total e que deve ter limites. Isto posto, violência, prédios em chamas, janelas e patrimônios sendo destruídos, multidões saqueando e violentas batalhas entre manifestantes e policiais, ultrapassam a lógica e o direito de protestar, justamente por ultrapassarem os limites – incluindo os limites de pessoas inocentes que foram agredidas ou que tiveram seus estabelecimentos destruídos.

Deste modo, vale destacar a importância do funcionamento e do reconhecimento de um bom lar comum, pois a essência democrática repousa nesse desenvolvimento, e assim, segundo Winnicott, a sociedade poderá caminhar com as suas diversidades de modo saudável, sem os discursos de ódio, destruição ou violência extrema. E aqueles que estão suficientemente bem, livres, responsáveis e que contribuem com a sociedade de maneira efetiva, precisam ser capazes de suportar o triunfo que é próprio ao seu estado de existência.

Se nos deixarmos levar pelas correntes ideológicas vigentes, corremos o sério risco de nos tornarmos partidários – de uma causa política, de um movimento, de uma agenda de interesses agrupados […]. De alguma maneira, o teatro do mundo tornou-se um palco onde sobrevivem os coros em detrimento dos personagens: enquanto os primeiros são marcados pelo uníssono e o homogêneo os segundos são identificados pelas idiossincrasias e a irrepetibilidade (AMORIM, 2017, p.11).

Referências

FUREDI, A. Right to protest, or just plain wrong?. Spiked online., Set, 2012. Disponível em: <https://www.spiked-online.com/2012/09/20/right-to-protest-or-just-plain-wrong/>.

FUREDI, A. Are we allowed to call them riots?. Spiked online., Jun, 2020. Disponível em: <https://www.spiked-online.com/2020/06/02/are-we-allowed-to-call-them-riots//>.

UNAMUNO, M. D. A agonia do cristianismo. Tradução de Alexandre Müller Ribeiro. 1.ed. Curitiba, PR: Livraria Danúbio Editora, 2017.

WINNICOTT, D. W. (1940) Discussão dos objetivos da guerra. In: Tudo começa em casa. Tradução de Paulo Sandler. 3 ed., cap. 21, p. 215-227. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

WINNICOTT, D. W. (1950) Algumas reflexões sobre o significado da palavra “democracia”. In: Tudo começa em casa. Tradução de Paulo Sandler. 3 ed., cap. 24, p. 249-271. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

WINNICOTT, D. W. (1957) A contribuição da mãe para a sociedade. In: Tudo começa em casa. Tradução de Paulo Sandler. 3 ed., cap. 12, p. 117-122. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

WINNICOTT, D. W. (1969) Os muros de Berlim. In: Tudo começa em casa. Tradução de Paulo Sandler. 3 ed., cap. 22, p. 229-235. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

WINNICOTT, D. W. (1969) A liberdade. In: Tudo começa em casa. Tradução de Paulo Sandler. 3 ed., cap. 23, p. 237-247. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

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Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil

Sobre o autor

Larissa de Araújo

Acadêmica de Psicologia da Universidade de Taubaté. Pesquisadora do Núcleo de Filosofia Política e do grupo de pesquisa sobre A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.