Nelson Rodrigues: Literatura, Filosofia e Religião

Pasión, Traición y Muerte: ler Nelson é escutar um Tango

Se os textos de Nelson Rodrigues fossem gênero musical, certamente seriam o tango.

Tango, que na origem da palavra deriva do latim tangere – toque e também remete à onomatopeia do tambor, herda desse instrumento o compasso de estocadas. Possivelmente, as mesmas estocadas sentidas ao ler Nelson, já que em seus textos a verdade, a vida e seus conflitos são postos frente às nossas vistas da forma mais nua e cruel possíveis.

Certa oportunidade, nosso grupo de pesquisa realizava a leitura e análise dos textos que compõem A vida como Ela É…, mais especialmente, o volume A dama do lotação. 

Começando por aspectos que correspondem ao tango, conta-se que em um primeiro momento surge a música e depois surge a dança. Posteriormente, nascem as letras (algumas mais polêmicas – e dramáticas – que outras). O certo é que inicialmente só os homens dançavam tango, tema de análise curiosamente controverso, posto que o ambiente do baile era “de machos”, os prostíbulos. Isso permeia o perfil das primeiras letras produzidas. As que falavam de mulheres e homens que se gabavam por serem os melhores bailarinos de tango, os melhores amantes, melhores jogadores, os que sempre ganhavam e eram os mais espertos. Ditas letras possuem um perfil chamado pícaro. Esse perfil nos traz à memória personagens de Nelson como o Norival, da crônica “Caça-dotes”, que depois de dez dias de casado com a viúva Susana – viúva por ele assediada até a exaustão – solta: “Não aguento mais; o que salva a minha mulher é que ela é cheia da gaita! Podre de rica!”. A Susana à qual nos referimos é a mesma do trecho: “Não havia esposa mais humilhada, mais ofendida”. Ou ainda podemos detectar esse perfil na personagem de Humberto, de “Um caso perdido” (aquele tomava dinheiro de mulheres, até se casar com a Edgardina, mas termina indo parar num circo onde é descoberto pelo filho que havia deixado pra trás).

As letras de tango de classificação sentimental começam a surgir a partir de 1910 (Nelson nasce em 1912, portanto, curiosamente, durante a época de produção sentimental). Foi a época de uma chegada massiva de imigrantes ao porto de Buenos Aires. Essas letras falam com sentimentalismo do amor e da perda do ser amado; seja por abandono, morte, ou ainda porque, por algum motivo, o ser amado terminava na cadeia. Eram sentimentos e temas que por vezes se encontravam ocultos ou eram descritos timidamente, mas que agora afloravam quase que de maneira, por assim dizer, “ridícula”.

Lembrando: o próprio Nelson enfatiza em uma de suas crônicas que “Sem ridículo não há tango”. Ele inclusive cita nessa crônica:

“Dirão vocês que há, no tango, um ridículo essencial. Concordo. Sem ridículo, não há tango. E, por isso, a Argentina o repudiou. Mas o ridículo é uma das dimensões vitais mais trágicas do homem, dos povos, de tudo.”
(Texto foi publicado em 02 de abril de 1969 e republicado em O remador de Ben-Hur)

O tango – assim como os textos de Nelson – reflete uma realidade direta, social e histórica; a qual resgatamos no papel que seus personagens assumem onde se desenvolvem nessa trama dramática e intensa (por vezes até violenta). Merece especial atenção a linguagem utilizada nas letras de tango. Conhecida como lunfardo – jargão que se formou por palavras dos idiomas falados pelos imigrantes que chegavam à região do Río de la Plata, no final do século XIX, começo do século XX; esse jargão era empregado originalmente por pessoas de classe baixa da região do porto de Buenos Aires (em alguns dicionários inclusive figura o termo “delinquentes” para designar o grupo que fazia uso dessa linguagem). Para o lunfardo contribuíram – além do espanhol – os idiomas italiano, alemão, francês (em termos ligados semanticamente ao campo erótico), o inglês e também o português.

Falando em linguagem, nosso Nelson sentenciou: “só eu sei o trabalho que me dá empobrecer meus diálogos”. Entretanto, os vocábulos por ele utilizados como “no duro” “batata”, ou tantos outros, longe de empobrecer, eram ricos em autenticidade, já que transitavam tranquilamente entre diferentes classes sociais e diferentes gêneros, fazendo com que o público sentisse maior proximidade com os textos que lia.

Retornando ao tango, ele se transforma em testemunha ocular de uma época. De uma época e de um contexto também, já que nos fala da periferia, luta de classes, injustiças, dos prostíbulos e do cotidiano do porto[2].

O tema do amor encontra no mencionado gênero musical o terreno perfeito para desenvolver-se em todas as suas nuances. Como na literatura, em suas letras, e na maioria das vezes, o tango não fala do amor feliz, mas expõe o fracasso amoroso, sendo essa a sua maior fonte de inspiração. O fracasso amoroso se conecta diretamente ao abandono e à traição. No tema “abandono”, geralmente é o homem quem fica sozinho depois da fuga de sua amada (quase nunca o contrário). Diferente, por exemplo, do Romualdo do texto intitulado “O inferno”, que abandona Lucília, e só retorna graças à intervenção, por assim dizer, do filho desta, Odésio, quem faz com que o casal se veja unido “para sempre” – no inferno…

A traição, no tango, se apresenta como uma das causas mais comuns desse abandono. O narrador (ou eu-lírico) fala das mulheres em geral e adverte o homem sobre a traiçoeira natureza feminina. A que pode fazer com que o homem perca todos os bens ou ainda definhe de desgosto. Entrando nesse tema – natureza feminina e desgosto –, não poderíamos deixar de nos lembrar de Solange, de “A dama do lotação”, e do que as suas saídas vespertinas causam em Carlos (a morte em vida, já que o mesmo sentencia: “Morri para o mundo”); ou ainda o comportamento de Clélia, em “A missa de sangue”, que deixa o marido, Penteado, transtornado com a repetição do nome Euzébio em seu leito de morte[3], e isso faz com que Penteado termine matando um tal de “Euzébio” na saída da missa. Isso sem esquecer também de D. Zuleica, a sogra que morre no texto “O chantagista”. Sua morte revela um segredo do passado, do qual o genro se aproveita, mas quem realmente leva a pior termina sendo a filha, Dolores, cujo marido queima seu rosto com água fervendo, pensando que ela faria o mesmo que a mãe… Temos ainda Maria de Lourdes, que apanha uma “Anemia perniciosa”, depois de enganar o marido… O certo é que vemos diferentes personagens femininas que coincidem de alguma forma no quesito “traiçoeira natureza”.

Nas letras de música, entre as reações mais frequentes vindas de uma traição, estão a vingança e o duelo. Este sempre termina com a morte de um dos homens envolvidos na trama, e por vezes também com a morte da mulher. Esta é assassinada ou levada ao suicídio, caso o homem morto no duelo não seja o seu escolhido. O ódio, o rancor, e a vingança são elementos indispensáveis nesse estilo de letra. Sem esquecer, é claro, da obsessão: quando o abandonado não consegue se vingar ou não é provido dessa coragem pra investir numa vingança, ele é tomado pelo sentimento esperançoso (e obsessivo) de que pode haver um reencontro com a mulher amada. A busca é incessante, como a que acompanhamos em Nelson em “Curiosa”, onde Serafim, obcecado por Jandira, que é casada, passa a persegui-la depois de ouvir dela que a traição praticada foi por “curiosidade” – ele não se conformou… e ainda no final o marido dela “quebrou-lhe a cara”. Quando esse reencontro acontece, a pessoa com que o ser abandonado se depara abre duas possibilidades: ou a “ex” está caindo aos pedaços, envelhecida (resultado de um abandono) ou está bonita, envolta em elegantes roupas e endinheirada. Também se dá, por vezes (não com tanta frequência), o retorno da mulher que no passado se foi. O homem a recebe perdoando seu abandono (sendo raros os casos em que ele a rejeita).

Ainda falando do gênero musical, a figura feminina é também alvo do protótipo de “mulher fatal”: a que se transforma no motivo pelo qual o homem vai à ruína. Frequentemente ela é a causa do abandono não só de uma esposa, mas também de uma mãe, e até mesmo de uma família com filhos e tudo mais. Sem falar dos vícios e da corrupção à que submete o homem cegamente apaixonado. O álcool – falando de vícios – é outro dos motivos da ruína do “homem de bem”[4]. Justificada pelo abandono ou pela traição, a embriaguez ganha protagonismo e bebe-se para esquecer e afogar uma dor.

O assunto das mães é, ao lado do amor, outro dos temas mais tratados nesse gênero musical. Ora, Nelson também explora facetas da relação mãe/filho(a) de um viés, até diríamos, bastante inusitado. No tango, o que se vê é o filho (ou filha) ingrato que troca a casa materna por uma paixão incerta e insana, ou por ambição, e a mãe desamparada espera amargurada o regresso e arrependimento dos rebentos. Enquanto o que vemos em Nelson, começando pelo primeiro texto do volume “O inferno”, é a relação de Lucília com seu filho Odésio, revelando-nos uma mãe consumida pela culpa em deixar o filho para encontrar-se com o amante, e surpreende-nos no final com a decisão de Odésio de sacrificar-se pela felicidade da mãe (já que o mesmo se suicida jogando-se na frente de um ônibus, não sem antes pedir para Romualdo voltar com a Lucília). E o que falar de Marina: a mãe que morria de medo da filha, em “Veneno”, e que termina sendo forçada por ela – a Teresinha – a tomar veneno para com sua morte pagar o preço de uma traição (traição essa tão instigada pela amiga desquitada).

Não podemos esquecer das sogras – que também são mães – como D. Violeta, mãe de Marcio, que faz da vida da nora Osvaldina um calvário, na crônica “O sacrilégio”. Ela atrapalhou inclusive a noite de núpcias do casal, mas ao morrer leva consigo o medo (talvez?) que o filho sentia por ela e o casal, por fim, pode desfrutar do casamento.

Em particular, o que Nelson dominava com maestria era a habilidade de lidar com a morte, o macabro, o grotesco do dia a dia. A morte, em particular – seja fruto de um adultério descoberto, suicídio ou ainda um desfecho de uma situação mórbida –, faz referência aos seus anos como repórter policial, período que, segundo o próprio Nelson, lhe serviu de escola para com tanta naturalidade e autenticidade mostrar-nos uma “Vida como ela É”. Vide “Noiva da morte”, com Alipinho enforcando-se com vestido de noiva no dia do próprio casamento; ou ainda “Noiva para sempre”, que nos traz a disputa de duas irmãs pelo noivo – até que uma delas se mata cortando os pulsos no leito de núpcias da irmã casada, selando, assim, a desgraça que talvez para sempre acompanhe o casal. Tudo isso, sem esquecer de “Cemitério de Bonecas”, em que o exemplar Dr. Basílio e D. Emília terminam sendo descobertos como “fazedores de anjos”.

Esse realismo tão presente nas crônicas rodriguianas atrai a atenção do público, afinal, as características das personagens podem ser vistas em pessoas que conhecemos, seja no seio familiar, laboral ou social. Sentimentos profundos de dor ou prazer[5] são muito bem ilustrados, tanto pelo gênero musical aqui citado como pelos textos de Nelson, nascidos de sua máquina de escrever cujos toques foram como acordes que embalaram o destino de suas personagens; da mesma forma que o bandeneón o foi para Astor Piazzolla.

Interessante nomear aqui Piazzolla, já que suas músicas mais conhecidas não o são pelas letras, mas sim pelos acordes do seu bandoneón, acordes estes que combinam perfeitamente com o drama e a tragédia rodriguianas.

Quem não se lembra da canção “Adiós Nonino”[6], de Piazzolla, servindo de cortina musical para a minissérie “Engraçadinha”?

Fuga nº 9, também de Piazzolla, é escolhida por Arnaldo Jabor para o filme “Toda a nudez será castigada”. Escolha que rendeu a Astor Piazzolla uma Menção Especial do Júri, como melhor trilha, no Festival de Gramado de 1973. Vê-se dizer que “a parceria” Piazzolla&Nelson funciona.

A intensidade de notas destiladas pelo bandoneón fazem o par perfeito para os textos de Nelson – tão intensos e dramáticos – com a introdução do tema, o desenvolvimento e o clímax (quase sempre nos deixando sem conclusão – o que não deixa de ser interessante). São textos acompanhados por um narrador que não se envolve nunca com o que nos conta, permanece em terceira pessoa, mas mostra-se onisciente – por vezes até parece divertir-se com o que narra – nos envolve, nos leva a crer numa coisa, depois  noutra, nos faz amar e odiar (e por que não, repudiar?) as personagens e seus comportamentos.

Interessante pensar como teriam sido os tangos escritos por Enrique Santos Discépolo – um grande compositor argentino, autor de letras famosíssimas como “Cambalache” e “Chorra” –, se ele tivesse lido Nelson. E, curiosamente, é razoável indagar se, por acaso, alguma vez, Nelson se inspirou em algum tango para escrever suas crônicas.

O certo é que: se a arte imita a vida, o tango é o maior imitador da “Vida como ela É…”

Referências 

LÓPEZ, Irene. Morochas, Milongueras y percantas. Representaciones de la mujer en las letras de tango. Espéculo. Revista de estudios literarios de la Universidad Complutense de Madrid, 2010.

PASTRO, Sandra Maria. Os folhetins de Nelson Rodrigues: um universo de obsessões em fatias parcimoniosas. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo para a obtenção do título de Mestrado em Letras. São Paulo, 2008.

PEREIRA, Avelino Romero. Entre gestos e vestes: Tango e Identidade na Buenos Aires dos anos 20. VI Simpósio Nacional de História Cultural, Teresina, Piauí. Universidade Federal do Piauí UFPI. ISBN: 978-85-98711-10-2.

RODRIGUES, Nelson. A Vida como Ela É… . São Paulo: Ed. Nova Fronteira, 2012.

RODRIGUES, Nelson. O remador de Ben Hur. São Paulo: Cia. das Letras, 1996. p.111 – 114: Sem ridículo não há tango.

WILLENPART, Lucía: El Tango: temas y motivos. Artigo escrito para a revista “Verba hispánica: anuario del Departamento de la Lengua y Literatura Españolas de la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad de Ljubljana”, ISSN 0353-9660, Nº. 9, 2001, págs. 219-230.

http://artistaemconstrucao.blogspot.com/2012/01/um-tango-para-nelson-rodrigues.html

Nota: Cabe mencionar a realização de tradução livre de trechos de algumas referências bibliográficas utilizadas neste artigo.

[1]  O mesmo pode-se dizer dos textos de Nelson, visto que retratavam fatos extraídos do cotidiano carioca, dos quais muitas vezes ele tomava conhecimento por meio de conversas informais.

[2] Confesso que, como leitora, também fiquei curiosa para entender esse enigma.

[3]  Também o é nas músicas que escutamos hoje em dia.

[5]  Prazer ainda que controverso – vide “Caça-dotes”, onde Susana – aquela que era cheia da gaita, e embora fosse a esposa mais humilhada – diz ao pai: “Quando ele me beija (Norival), eu sou a mais feliz das mulheres!!”).

[6]  Música composta em 1959 ao saber da morte do pai, Vicente Piazzolla. Astor morava em Nova Iorque, o pai falece em Mar del Plata, e dessa distância o adeus se faz através da canção mencionada.

Imagem: kittimages/iStockPhoto

Sobre o autor

Cristina Achcar

Aluna especial no Programa de Pós-graduação de Letras da UNIFESP. Tradutora e Intérprete no par de idiomas portuguêsespanhol. Pesquisadora do grupo de estudo Nelson Rodrigues: Literatura, Filosofia e Religião do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.