Estudos Agostinianos

O problema da morte

Iron Maiden: Hallowed Be Thy Name

Santificado seja o vosso nome[1] é o título da incrível letra da banda de heavy metal, Iron Maiden. A música fala do complexo assunto também tratado por Agostinho e Pascal: o problema da morte. Conta-se sobre um homem que está numa cela fria aguardando o momento em que será enforcado. As areias do tempo para mim estão se esgotando[2], era o grito desesperado de uma pessoa que em verdade pôde entender a finitude da vida. A morte o forçou a refletir sobre o mundo que havia dado errado para ele e enxergar o terror que acometia sua alma – difícil controlar o terror que me vence[3]. A morte lhe foi apresentada e lhe trouxe terror.

O fato do ser humano morrer não é o grande problema em si, torna-se um problema quando a morte se torna iminente. Não podemos permanecer apáticos diante dessa situação e grandes pensadores examinaram o tema da morte. Senêca afirma: Deve-se aprender a viver por toda a vida, e, por mais que tu talvez te espantes, a vida toda é um aprender a morrer. Um dos maiores impasses entre o homem e a morte é que ele não quer pensar nela, se esquiva, e ao esquivar-se ignora sua condição deplorável, corruptível e degenerável. Blaise Palcal chamou esse esquivo de divertissement, descrevendo-o como o ato de fechar os olhos diante da finitude que temos, da questão existencial. Entregar-se ao divertissement é desviar-se de sua condição mortal, essa condição que é consequência do pecado adâmico. Trata-se de entregar-se aos perigos, guerras, ações ousadas, desavenças, paixões, caça, dança, etc. Ocupar-se desses divertimentos para olvidar sua real situação. Se o homem ignora o divertissement, ele passa a se conhecer, passa a saber que precisa de tais coisas para ser feliz e que sem elas enxergará o vazio que existe dentro de si e a sua finitude.

O personagem da música enxergou esse vazio ao se deparar com a morte: Quando você souber que sua hora está chegando, talvez então você comece a entender que a vida aqui embaixo é apenas uma estranha ilusão[4]. Ao se deparar com o terror da morte, o homem se depara também com sua real situação.

Agostinho, em sua obra “Confissões”, relata o problema da morte de outra forma – ele teve que sofrer duas grandes perdas, a do seu amigo e de sua mãe, que foram tratadas de maneiras distintas. No caso de seu amigo, enfrentou forte angústia quando o perdeu. A tristeza foi imensa pelo fato dele haver posto todo o seu amor na amizade terrena. Já no momento da perda de sua mãe, Agostinho estava mais maduro e conseguiu decifrar melhor o sentido da morte. Em Confissões, ele conta como conheceu seu amigo: “Naqueles anos que comecei a lecionar onde nasci, ganhei um amigo que me era muito caro pelos interesses que tínhamos em comum (…) Contudo, era muito doce essa amizade cozida ao fogo de interesses semelhantes.”[5]. Quando o amigo faleceu, Agostinho viu a obscuridade em seu coração “tudo que eu via era a morte (…) A pátria era para mim um tormento, a casa paterna uma incrível infelicidade, e tudo que estava relacionado com ele se tornou sem ele uma insuportável tortura”[6]. Quanto à morte de sua mãe, ele conta: “Mais tarde, ouvi que certo dia, enquanto estávamos em Óstia, conversando com alguns amigos meus em confidência materna sobre o desprezo desta vida e o bem da morte, estando eu ausente, eles, surpresos da virtude feminina que tu lhes deste, perguntavam se não temia deixar seu corpo tão longe da pátria, ela respondeu: “Nada está longe de Deus, e não há perigo de que ele, no fim dos séculos, não saiba onde me encontrar para me ressuscitar”[7]. No primeiro caso, no óbito de seu amigo, Agostinho entendia a morte como o fim, restando-lhe apenas o choro, que ocupou o lugar do falecido nos prazeres da sua alma. No segundo caso, ouviu da sua própria mãe que nada estava longe de Deus, e que um dia, no fim dos séculos, Deus saberia onde encontrá-la.

Deste modo, a morte pode ser enfrentada de duas formas. Pode-se entendê-la como o fim, hipótese em que o terror invade a alma, trazendo medo e desesperança, como no caso do falecimento do amigo íntimo de Agostinho. A segunda forma é entendê-la como um princípio, o fim de uma vida temporária e o início de uma nova, como sua mãe, de fato, pôde entender perfeitamente. Dietrich Bonhoeffer, pastor alemão que não se dobrou ao nazismo, conseguiu enfrentar o seu fim de forma tranquila, e quando estava preso afirmou: “Se meu estado atual fosse a conclusão de minha vida, então isso teria um sentido que eu acreditaria entender.”[8] A poesia judaica também fala a respeito disso: “Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos”[9]. A morte é vista como uma esperança, um novo lar.

Quando se acredita na graça, a morte é tratada de modo diferente. Passamos a entender nossa finitude e imperfectibilidade como consequências do pecado, e que sem a graça divina estaríamos perdidos. Essa graça nos traz salvação. Passa-se a entender também que Cristo veio como segundo Adão[10] e que levou nossas culpas e podridão no madeiro[11]. A partir disso, a morte se torna clara e a esperança visível. Cristo traz a esperança metafísica de um novo lar “… na casa do meu pai há muitas moradas”[12]. Isto posto, para aquele que confia na graça, a vida aqui na terra passa a ser temporária, o homem vive como peregrino em terra estranha, aguardando o dia em que conhecerá o seu verdadeiro lar. Talvez o personagem da música possa ter entendido isso, ou talvez não, mas o que ele afirmou na canção, para alguns, pode ser uma verdade irrefutável. A nossa real situação sempre estará presente e o que nos torna diferentes é a graça, favor imerecido que nos dá esperança.

[1] Hallowed be thy name

[2] The sands of time for me are running low

[3] Hard to stop the surmounting terror

[4] When you know that your time is close at hand, maybe then you’ll begin to understand life down here is just a strange illusion

[5] AGOSTINHO. Confissões. Livro IV, 7

[6] Livro IV, 9

[7] Livro IX, 28

[8] Resistência e Submissão: Cartas e anotações escritas na prisão. 2ª ed. São Leopoldo, RS: Sinodal, pág. 359

[9] Salmos 116:15. (ARA)

[10] Romanos 5:12-21

[11] Gálatas 3:13

[12] João 14:1

Imagem: Hallowed Be Thy Name/Iron Maiden

Sobre o autor

Uiliam Grizafis

Graduando em jornalismo pela faculdade Anhanguera e membro dos grupos de pesquisa Teologia Cristã e Religião Contemporânea, Cultura Política no Brasil e Núcleo de Estudos Agostinianos, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.