A crise do amadurecimento na contemporaneidade

Winnicott e a geração atual frente à pandemia

É possível ter garantia de segurança diante da imprevisibilidade da vida, que está sujeita às mais inesperadas circunstâncias, como uma pandemia viral? Talvez esse seja um dos questionamentos mais importantes dos jovens na atualidade, considerando a necessidade que possuem de segurança constante.

Para responder esse questionamento, é preciso entender o tipo de segurança desejada pela geração I, ou centennials, como são chamados os nascidos entre 1995 e 2007 pela professora de psicologia da Universidade de San Diego, Jean Twenge. A iGen é composta por aqueles jovens que estão constantemente grudados nas telas de seus celulares, antenados a cada novidade online e ativos em todas as redes sociais. Esses indivíduos, de acordo com a autora, são menos dispostos a correr riscos e a necessidade deles por segurança engloba seus corpos e emoções, ou seja, os centennials também querem segurança emocional.

Winnicott, psicanalista inglês, responderia à pergunta dizendo que a tentativa idealizada dessa geração de garantir um maior senso de segurança existencial, ao tentar a todo custo viver em um ambiente sem falhas ou danos, privando-se de experiências ruins e situações potencialmente desconfortáveis, é insustentável diante da imprevisibilidade da vida. Para ele, a vida de um indivíduo saudável, além de marcada por características positivas, é também caracterizada por medos, conflitos, dúvidas e frustrações. Ou seja, o indivíduo saudável e maduro entende que é impossível evitar as circunstâncias ruins e desconfortáveis. Algo bem diferente do que vemos hoje, especialmente em um contexto pandêmico.

Em 2020, com a pandemia do COVID-19, temos convivido com a ideia de crise com muito mais proximidade do que gostaríamos e os impactos podem ser desastrosos para essa geração. O contexto caótico em que estamos vivendo é sem precedentes para os mais novos, considerando que eles não tinham experienciado até então uma conjuntura de tensão de tamanhas proporções. Estamos falando de uma geração que, apesar de mais consciente dos problemas sociais, é mais insegura e mais frágil do que as anteriores, adiando prazeres e responsabilidades que a exponha aos riscos.

Ao refletir sobre a repercussão de uma crise como a atual nos centennials precisamos entender como esses jovens estavam amadurecendo ‑‑ ou não ‑‑ antes da pandemia. Para isso, partimos do pressuposto do que Winnicott considera um indivíduo saudável e maduro: aquele capaz de exercer sua própria liberdade, responsabilidade, autonomia e cuidado com os outros.

Mas para alcançar o amadurecimento, Winnicott afirma que é necessária a presença de cuidados ambientais suficientemente bons. Inicialmente, esse cuidado é oferecido pela figura materna, de maneira estável e previsível, a partir do qual a criança será capaz de experienciar uma vida criativa. Essa criatividade está relacionada à possibilidade de vivenciar experiências práticas de diferentes ordens, boas e ruins, o que permitirá, mais tarde, que a criança se sustente por si mesma, suportando as desilusões e o reconhecimento da existência de limites. Mais tarde, serão necessários cuidados parentais, familiares, grupais e sociais, permitindo a manutenção e enriquecimento da estrutura da sua personalidade. Portanto, é fundamental para o amadurecimento que os cuidados ambientais sejam suficientes, mas não excessivos.

Caso o ambiente falhe ao oferecer esses cuidados, especialmente no início do desenvolvimento, ao invés do sujeito seguir vivendo sua criatividade e espontaneidade em prol do amadurecimento, ele precisará reagir à falha ambiental sentida por ele como uma ameaça. Nesse caso, não seria desenvolvido no sujeito um sentimento de confiança na realidade de “si-mesmo” e do mundo. O resultado é uma dificuldade de estruturação da personalidade, uma desconfiança básica e uma inconsistência que torna tudo irreal.

Hoje em dia, o que vemos é um foco exacerbado em segurança, que sufoca a necessidade infantil de descobrir coisas e aprender tomando as próprias decisões. As pessoas superam medos confrontando-os, não se escondendo deles. A obsessão por segurança sufoca a criatividade e a independência das crianças, e o excesso de proteção e cuidado parental pode torná-las vulneráveis, porque elas não aprendem a resolver os problemas sozinhas, tendo seu amadurecimento impossibilitado.

Atualmente, é possível notar em alguns do centennials uma cautela exagerada que ajuda a mantê-los seguros, mas também vulneráveis, pois ninguém está imune a decepções e, ao se deparar com elas, o indivíduo se depara também com sua incapacidade de lidar com a realidade. Nesta circunstância pandêmica, ao tentar evitar as ameaças do ambiente, o sujeito pode agir de forma a negar o que está acontecendo. Exemplo disso é a tentativa de conferir ao vírus um sentido ideológico ou conspiratório, tentando invocar uma certeza que alivie seus temores diante do desconhecido e do imprevisível. Aquele que é avesso ao risco, e se sente ameaçado por qualquer nova circunstância, procura descarregar seus medos e ansiedades no mundo externo ao se agarrar ferrenhamente em qualquer causa, ideologia ou autoridade que lhe dê um senso de segurança.

Sendo dominados pelo medo dos riscos, os centennials não percebem que estão exigindo viver em um mundo infantilizado e protegido. Ao invés de assumir suas responsabilidades, eles partem para uma cultura de vitimização, na qual as pessoas evitam a confrontação direta e recorrem a terceiras partes para lidar com o conflito, responsabilizando outros por seus problemas e elegendo um representante ou uma causa para justificar suas ideias. Ao contrário do que faria uma pessoa madura, segundo Winnicott, esse tipo de atitude reflete o sujeito imaturo que adere a uma causa ou ideia para aliviar seus conflitos, tanto internos quanto externos, já que ele não suporta a realidade de “si-mesmo” e do mundo, sendo ambas distorcidas. A pandemia nos mostra que o governo, o Estado, ou seja lá como chamamos o ente abstrato governamental em quem depositamos nossas esperanças, não é capaz de resolver todos os problemas. E nem pode ser responsabilizado plenamente por eles.

Os jovens que antes já pareciam apavorados com os perigos físicos e com os perigos emocionais da interação social humana se sentem ainda mais temerosos em um cenário pandêmico. Presenciamos uma ameaça global a uma geração já marcada pela constante tentativa de se proteger dentro de casa, que se relaciona preferencialmente através de mídias sociais, e evita as vulnerabilidades de qualquer atividade cotidiana.

Esse tipo de instabilidade no mundo pode agravar as dificuldades preexistentes dessa geração. Não bastasse uma superproteção nos relacionamentos, ao evitarem se relacionar presencialmente; uma rejeição às diversões típicas de jovens, ao ficar em casa jogando videogame; ou até mesmo a busca por referências dessa geração que se manifesta em horas dispensadas assistindo vídeos no YouTube… Além de todas essas atitudes que geralmente já são reforçadas pelo ambiente, os centennials agora correm o risco de ter todos os seus medos validados. Para dar as mãos, será preciso álcool gel, aproximações físicas exigirão cautela, sair de casa exigirá máscaras e cada nova pessoa poderá ser vista como uma ameaça em potencial. Qual é a chance desses jovens estarem mais confiantes e seguros de si diante da vida?

Provavelmente nenhuma. Agir implica risco e uma pessoa insegura tenta se proteger. Ainda antes da uma ameaça global, os centennials, mesmo insatisfeitos com as circunstâncias de suas realidades, desconsideravam a atuação prática. Em uma pandemia, os instintos altruístas de chegar lá e ajudar, de ser ativo diante da realidade, podem rapidamente ser neutralizados pela mensagem de que é arriscado demais sair de casa e a melhor coisa a fazer é ficar longe um do outro.

É o contrário do que Winnicott designa como um sujeito saudável e maduro, que é capaz de fazer uma avaliação objetiva da realidade, pois sabe quais são os limites entre seu próprio eu e o “não-eu”, entre o real compartilhado e os fenômenos de sua realidade psíquica pessoal; além de ser ativo em sua comunidade, exercendo seu potencial criativo, reconhecendo a importância de sua participação e tendo o cuidado com os outros decorrente do seu amadurecimento. Diante de uma pandemia, não vai agir baseado em princípios abstratos e descolados da realidade, mas, tendo os próprios princípios como norte, buscará maneiras responsáveis e possivelmente benevolentes de atuar em suas relações interpessoais.

Ainda que pareça uma aspiração arcaica, virtudes como benevolência, coragem, altruísmo e responsabilidade formaram, ao longo dos séculos, a capacidade da humanidade de utilizar seus recursos contra as catástrofes e adversidades. Em um mundo cada vez mais infantilizado, ao tratar toda situação desconfortável como uma patologia a ser enfrentada, incentivamos nossas crianças e jovens a se perceberem como frágeis e sempre com necessidade de ajuda. Com isso, a vulnerabilidade passa a ser uma virtude aplaudida, e, através dela, passamos a questionar a capacidade da sociedade de lidar e resistir às adversidades inerentes à existência humana. Mais importante, exaltar a vulnerabilidade a todo instante nos coloca diante de uma sensação de desamparo arrebatadora, ao invés de promover a capacidade humana de dar sentido às experiências e lidar com os perigos que nos ameaçam.

O mundo contemporâneo virou um ambiente inóspito ao amadurecimento saudável, onde as experiências práticas são vistas como apavorantes, devido ao temor do risco alimentado pelo discurso cotidiano. As advertências intensas de que nossos jovens não são “imbatíveis” diante de um problema podem ser importantes para que não se tornem inconsequentes, mas inflar suas inseguranças os cega diante de uma realidade objetiva, diminuindo sua capacidade de dar sentido às experiências. Com isso, não estamos negando que a Covid-19 seja um problema a ser enfrentado ou que medidas de segurança não sejam necessárias na luta contra um inimigo invisível; mas que preço estamos pagando ao entregar nossas responsabilidades em troca de uma suposta garantia de certeza? Ao privar os mais novos da valorização das virtudes e tratá-los como porcelanas a serem preservadas? Talvez seja um preço alto demais, ainda desconhecido.

Referências

FUREDI, Frank. A disaster without precedent. Spiked online., Set, 2012. Disponível em: <https://www.spiked-online.com/2020/03/20/a-disaster-without-precedent//>.

WINNICOTT, D. W. (1940) Discussão dos objetivos da guerra. In: Tudo começa em casa. Tradução de Paulo Sandler. 3 ed., cap. 21, p. 215-227. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

WINNICOTT, D. W. (1950) Algumas reflexões sobre o significado da palavra “democracia”. In: Tudo começa em casa. Tradução de Paulo Sandler. 3 ed., cap. 24, p. 249-271. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

WINNICOTT, D. W. (1957) A contribuição da mãe para a sociedade. In: Tudo começa em casa. Tradução de Paulo Sandler. 3 ed., cap. 12, p. 117-122. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

WINNICOTT, D. W. (1969) Os muros de Berlim. In: Tudo começa em casa. Tradução de Paulo Sandler. 3 ed., cap. 22, p. 229-235. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

WINNICOTT, D. W. (1969) A liberdade. In: Tudo começa em casa. Tradução de Paulo Sandler. 3 ed., cap. 23, p. 237-247. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

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Imagem: puckons/iStockPhoto

Sobre o autor

Larissa de Araújo e Lorraine Bim

Graduandas em Psicologia na Universidade de Taubaté. Pesquisadoras do Núcleo de Filosofia Política e do grupo de pesquisa sobre A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.