Teologia cristã e religião contemporânea

Teodiceia da libertação

O sofrimento como fonte de liberdade

O problema da Teodiceia talvez seja a maior questão teológica sobre a qual precisamos pensar hoje. Ao construir a sua teologia da libertação, durante o seu doutoramento em Princeton, Rubem Alves faz, em algum sentido, uma reflexão “teodiceística”. Nos valeremos dela para pensar as dores e possíveis soluções para o contemporâneo.

O problema do mal, do sofrimento, da existência conivente de Deus com a dor – que é a teodiceia –, talvez seja tão antigo quanto a própria noção de divindade. Na tradição Judaico/Cristã, nós temos o clássico exemplo de Jó, sempre perguntando a Deus onde Ele estava enquanto seu servo sofria e por que ele estava sofrendo daquela maneira. Mas a palavra teodiceia foi forjada pelo filósofo alemão Leibniz, que faz argumentações para tentar validar a existência de Deus e do mal simultaneamente.

Já em Alves, nós não vamos pensar a existência de Deus e a existência do mal. Ele está mais para um místico do que para um teólogo tradicional[1]. Para Rubem Alves, “Deus é fundamentalmente mistério sobre o qual é melhor se calar que falar. E se falar, o fará de modo indireto e metafórico.”[2] Com isso, pensar uma teodiceia alvesiana seria pensar como falar de Deus nos momentos de sofrimento, não uma proposta de interpretação metafísica, mas uma reflexão sobre nossas capacidades de pensar as linguagens teológicas que usamos a partir dos problemas enfrentados. Na introdução de um dos seus últimos livros sobre a religião, “Perguntaram-me se acredito em Deus”, publicado em 2007, ele diz que:

Sou um construtor de altares.
Construo altares à beira de um abismo escuro e silencioso.
Eu os construo com poesia e música.
Os fogos que neles acendo iluminam o meu rosto
E me aquecem.
Mas o abismo permanece escuro e silencioso.”[3]

Dessa forma, nossas falas e formulações não passam de um reflexo da nossa própria imagem.[4] Sobre o abismo, nos resta o silêncio e a admiração. Como um bom leitor de Nietzsche que era, Alves desenvolve sua noção de libertação a partir da imagem descrita no clássico “Assim falou Zaratustra”, especificamente na parábola das três metamorfoses do espírito.[5] Ele entende que o filósofo prussiano captou perfeitamente o movimento da dialética da libertação naquela parábola. Essa estória acontece em três estágios: O primeiro, que é o camelo, é o sofredor, aquele que carrega as dores do mundo nas suas costas, o que recebe a negação do mundo; O segundo é o leão, que é essencialmente a negação do camelo, não aceita nada nas suas costas e pode atacar quem tentar machucá-lo, é a negação da negação; O terceiro, a criança, é a negação do leão, o sim para a criação, que já não está condicionada com os sofrimentos passados para construir seu futuro.  

Assim, a teologia da libertação alvesiana entende que o sofrimento, o estágio do camelo, deve ser o ponto de partida para a produção teológica. Ele denomina de “proletariado mundial” todos os grupos que têm seu futuro cerceado e sua liberdade de criação do presente limitada.[6] Nesse grupo estariam a classe trabalhadora, os negros nos Estados Unidos, as mulheres, os jovens em países ricos e todas as classes que não poderiam construir seu futuro com liberdade.

Nessa linha, o autor entende que o papel do oprimido, do escravo, do sofredor é a construção da sua libertação. Libertação essa que não é mero projeto humano, mas plano de Deus executado por nós, em um processo de cocriação.[7] A problemática da fala de Deus em consonância com o mal é entendida como um processo primeiro do projeto político de Deus (libertação). O sofrimento, então, seria esse lugar do fazer teológico, teologia essa que será o motor das metamorfoses (camelo à leão à criança). Entender o sofrimento como lugar teologal é fazer das nossas próprias experiências a solda dos nossos altares, modo pelo qual faremos uma teologia para o homem real, concreto, moldável e histórico.

Uma boa pergunta é como poderíamos fazer dos sofrimentos pandêmicos um lugar teologal. Talvez, a partir do sofrimento do isolamento, pudéssemos repensar nossos ritos eclesiásticos, mesmo que por um tempo determinado. Se estamos sofrendo porque não podemos nos encontrar, deveríamos fazer dos nossos futuros momentos de encontro um lugar de culto. Nos reuniríamos, aos domingos, somente para conversar, abraçar e sentir o calor do outro, há tempos esperado. Talvez fôssemos mais comunidade, e nossa adoração fosse mais sincera e real. Nossas atitudes estariam mais próximas do humano real que vive hoje.

[1] (ALVES, 2019, p. 8)

[2] (ALVES, 2019, p. 8)

[3] (ALVES, 2007, p. 5)

[4] Aqui é clara a influência de Feuerbach no pensamento alvesiano. Ele aprofunda essa visão no seu livro “O que é religião”. 

[5] (ALVES, 2019, p. 169)

[6] (ALVES, 2019, p. 51)

[7] (ALVES, 2019, p. 214)

Obras Citadas

ALVES, R. Perguntaram-me se acredito em Deus. São Paulo: Editora Planeta , 2007.

ALVES, R. Por uma teologia da libertação. Juiz de fora: Siano/ Recriar , 2019.

Imagem: Job (Léon Bonnat, 1880)

Sobre o autor

André Vinícius Souza Castro

Graduando em teologia pela Faculdade Latino Americana e membro do grupo de pesquisa Teologia Cristã e Religião Contemporânea do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.