
A relação entre os evangélicos brasileiros e a política é perigosa para o Brasil. Pode parecer um tanto dramática tal afirmação, mas compartilhamos aqui algumas sinceras preocupações. Vamos nos dar esse direito, pois somos evangélicos. Temos lugar de fala.
Embora todo esforço, mais que necessário, de evidenciar a pluralidade do movimento, evitando alguma fala preconceituosa em relação ao grupo religioso em questão, podemos dizer ao certo é que na pluralidade existe uma fatia predominante, de traço fundamentalista. Portanto, não nos preocuparemos aqui em ser “politicamente corretos”. Quando falamos do perigo, nos referimos, justamente, a esse mainstream evangélico. Acreditamos que alguns analistas políticos, preocupados com não serem preconceituosos, não dão a urgência necessária àquilo que todos já sabem: os evangélicos são um perigo para o Estado Democrático de Direito brasileiro.
“O maior problema da democracia nos próximos anos não vai ser direita ou esquerda, não vai ser estatização. Vai ser a luta de um segmento que acredita que a Igreja tem que tomar o Estado” (Otavio Guedes durante programa jornalístico Estudio i do canal Globo News).[1]
Temos dúvidas se parte da culpa por este cenário pode ser atribuída à dificuldade de comunicação entre o campo progressista político e este segmento religioso. Há diálogo possível? Ronilso Pacheco entende que o acesso aos evangélicos exige uma “mudança de chave” no discurso, uma escuta e um aprendizado do campo progressista procurando entender a rede de solidariedade que a igreja proporciona para as pessoas e a visão política dos evangélicos que vai além do período eleitoral.[2] Já Ricardo Nêggo Tom é cético em relação à possibilidade deste diálogo: “Precisamos entender que onde há dogma não há raciocínio lógico que sustente um debate”.[3] Também cremos que não. Mas essa é outra conversa…
Nos parece que não há como evitar o perigo. O leite já esparramou. Alguns fatos que nos fazem ter essa leitura um tanto drástica:
Não há vergonha em expressar as teses antidemocráticas
Os mais recentes eventos que envolvem evangélicos fundamentalistas e a política brasileira não deixam dúvidas sobre a índole dessa relação promíscua em se tratando do locus democrático. O discurso de Michelle Bolsonaro (MB) na Paulista em 25/02/2024[4] foi um dos mais explicitamente reveladores em termos de projeto de poder teológico-político deste grupo fundamentalista. Com a clara intenção de subverter o ordenamento constitucional vigente no Brasil, ao defender a suspenção do caráter laico do Estado, um dos pilares do Estado de Direito, com consequências imponderáveis, mas certamente nocivas para as garantias individuais, proteção dos direitos humanos, o ordenamento jurídico e o pluralismo da sociedade entre outros temas constitucionais afetados pela laicidade, MB “prega” para seus fieis político-religiosos. Alguns destaques:
“Aprouve o senhor nos colocar a frente desta nação…” (MB). Para quem diz que se trata de um projeto exclusivamente “neopentecostal” – como parte dos comentaristas ainda retrata a questão, em nosso ponto de vista, equivocada –, não consegue captar o tom determinista e fatalista na fala de MB, para nenhum calvinista botar defeito. Quem sabe ensaiou junto de André Mendonça? Enfim, nesse fatalismo bolsoevangélico, Deus, em sua soberania, os predestinou para serem os arautos da “verdadeira justiça”. Sim, os Bolsonaro e sua trupe evangelical. Obviamente é um calvinismo míope, incapaz de reconhecer a “soberania de Deus” na vitória de Lula…
“E hoje o povo brasileiro sabe a diferença de um governo justo de um governo ímpio…” (MB). As teologias do domínio, sejam as mais gourmets, da “cosmovisão” (reformadas e calvinistas, de brancos da classe média-alta) ou as mais populares, de “domínio” (dos pentecostalismos), se fazem presentes, animando parte do poder político em uma empreitada para colocar todos os campos da vida social e da esfera pública sob influência e presença ostensiva do cristianismo fundamentalista.
“A característica central dessa teologia (do domínio) advoga a dominação do mundo pelo cristianismo, seus valores e sistemas de crenças” Christina Vital da Cunha – Nexo Jornal.[5]
“Sim, por um bom tempo fomos negligentes ao ponto de dizer que não poderiam misturar política com religião. E o mal tomou e o mal ocupou o espaço. Chegou o momento, agora, da libertação….” (MB). A teologia da “guerra espiritual” ou “batalha espiritual” se apresenta com o seu traço principal que é identificar o “mal” (e por consequência o bem, pois para esta teologia não existe neutralidade) inserindo o “fazer político” em um contexto de guerra cósmica, em que, claro, o bem é quem está no trio-elétrico do Malafaia (!) – que saudade do Boechat – e não com os “comunistas”, sejam eles Dória, Lula ou o saudoso Bebianno. Certo é que para ela – e não há receio em deixar isso claro – existe uma luta entre bem e mal, justos e ímpios, representantes de Deus e do Satanás sendo travada. Quem teria algo a perder dentro de um jogo desses? Quais regras valeriam se você é team-Deus?
Separação entre Igreja e Estado? Na ótica de MB a religião – a dela! – deve se misturar com política sim, para evitar o mal (em sentido ontológico, mas personificado em tudo o que é diferente deles). Não há mais aqui um dizer nas entrelinhas ou uma cautela em expressar ideias pouco republicanas. Está explicito. Está escancarado.
Fica pior. Quem sabe o nosso preconceito (contém cinismo) possa nos conduzir erroneamente à ideia de que MB não teve acesso a uma compreensão histórica mais apurada, que a levasse a um discernimento mais equilibrado sobre as razões de não se misturar Igreja e Estado. Mas um ministro do STF? Pois é… André Mendonça (AM), o “terrivelmente evangélico”, coleciona pérolas interessantíssimas. Posto lá pelo “mito”, em um sinal de bajulação à sua principal base eleitoral – os evangélicos –, esse pastor presbiteriano (não “neopentecostal”!) opera na mesma frequência de MB. Ao estilo Dallagnol de ser,[6] se sente uma peça nas mãos do Soberano (Deus) na luta contra as “potestades desse mundo”. Não se trata de uma compreensão privada de fé. Ao contrário – e bem distante dessa ideia moderna –, sua função como ministro da mais alta corte no Brasil está em serviço do seu Deus contra as forças demoníacas – claramente forças políticas que não lhe são palatáveis (para ele algo como esquerdopatas, comunistas, maconheiros, gays e assassinas de bebês). Isso fica evidente quando observamos a sua reação quase que imediata (possivelmente simultânea e sincronizada com Malafaia) à fala do ministro Gilmar Mendes,[7] que sinaliza um fato estudado pelos pesquisadores que analisam o fenômeno evangélico e sua relação com o tráfico de drogas no Rio de Janeiro.[8] Nos parece – ao menos é nossa impressão – que sua fala faz eco às preocupações malafalianas – que, não sabemos como, se sente “papa” do evangélicos e defensor de uma “moral ilibada”.[9] A fala de Mendes é tranquilamente bem compreendida e em nada surpreende quem está a par nos estudos sobre o assunto. Entretanto, tendo em vista a “guerra cósmica” e a sensação de “profeta de Deus”, como passar sem defender a reputação do Todo Poderoso? (contém ironia).
Anterior ao fato mencionado acima, AM usa o púlpito de sua denominação, já famoso por controversas em relação ao Estado Democrático[10] – nenhuma igreja paga IPTU, logo, não deveria se meter em política partidária – para satanizar seus oponentes políticos produzindo notícias falsas em tom de piedade cristã.[11] Além disso, como se não bastasse, partilha bastidores de sua atividade de juiz, confundindo seus papéis na sociedade brasileira. Poderíamos lembrar sua comemoração junto da MB ao ser aprovado para a vaga de ministro do STF, que não teve sequer uma reverência à laicidade do Estado,[12] ou até mesmo suas citações bíblicas na ocasião das discussões sobre abertura de templos religiosos durante a pandemia da COVID-19.[13] Tudo isso já seria em si chocante tendo em vista o bom senso dentro da República. Ele, porém, conseguiu se superar nos exemplos sinalizados inicialmente.
A engrenagem de produção de votos é altamente eficaz e eficiente
Qual seria o bem mais precioso em uma democracia? Resposta: votos. Nenhum grupo consegue ter a engrenagem de geração de votos que os evangélicos têm. Volume de igrejas; teologia fundamentalista norte-americana (economicamente neoliberal) disseminada sistematicamente ao longo de duas ou três gerações; alinhamento político-ideológico com contornos religiosos (viva o Tio Sam!). Estamos diante de uma operação eficaz e eficiente. Atinge o objeto e o faz com qualidade. Chamar isso de “voto de cabresto” é pouco. Trata-se algo sofisticado e gestado ao longo de décadas. Cada peça que compõem essa engenharia está treinada e capacitada para cumprir o seu papel de angariar votos para seus candidatos.
Soma-se a isso as mídias sociais. Evangélicos são peritos em operar as mídias, todas elas (rádios, TVs e internet). Não foi diferente com os “zaps” da vez. Potencializados com os algoritmos de Zuckerberg, que amam um radicalismo para gerar engajamento…[14] Bingo! Os planetas se alinharam em uma operação de disseminação de tudo que possa favorecer o campo político dos fundamentalistas. Pânico, medo, escatologia, juízo, inferno, pecado, “homossexualismo”, “kit gay” e muitos, mas muitos pastores engajados com milhões de seguidores e views nessas conspirações político-religiosas, faz a máquina de votos operar de modo poderoso. Ora, diante de tal poder, até mesmo Lula se rendeu a tamanho medo de “se queimar”. [15] O “papa” é gospel!
Os espaços de poder estão ocupados
Mais daquilo que já está escancarado! Os espaços de poder estão tomados por esse tipo de mentalidade político-religiosa. Tanto faz a real intenção, a representatividade dos evangélicos, etc… Essa lógica de operar o político conquistou espaços importante de poder e atuam de forma decisiva nas instâncias de decisões do país. Pasmem: Nikolas Ferreira (NF) preside a comissão de educação da Câmara dos Deputados Federal (!).[16] Michelle Bolsonaro recebeu nos últimos dias o título de cidadã paulistana (!).[17] Bolsonaro foi presidente do Brasil! Quem diria que isso seria possível em 2016? Ora, se ele com limitações cognitivas conseguiu, que dirá a MB ou o atual presidente da comissão de educação com combinações cognitivas extras?
Certo é que, no Brasil contemporâneo, evangélicos se gabam pois existem pastores e pastoras fundamentalistas (os não fundamentalistas não usam a fé para se perpetuarem no poder) em todas as instâncias: municipais, estaduais e federal; no executivo, no legislativo e no judiciário, sendo AM integrante da mais alta corte. Os evangélicos fundamentalistas têm alta influência sobre os homens fardados das polícias do país, como recentemente foi revelado,[18] ocupam assentos em órgãos fundamentais dos municípios brasileiros, são capazes de articulações políticas sofisticadas e de pressões – lobbys – poderosíssimos na dinâmica da vida pública, fazendo até mesmo com que o campo progressista no poder se sinta intimidado diante de tal força. Isso é uma realidade. É um fato.
O número de evangélicos no Brasil é gigantesco
Soma-se a isso o volume de pessoas que estão inseridas dentro dessa engrenagem cheia de potência de produção de sentido político-religioso-escatológico. Essas pessoas são decisivas na avaliação do atual governo. Longe, mas longe mesmo, de idealizar Lula e seu terceiro mandado, mas nos parece claro que as coisas estão melhores do que nos anos anteriores. Em relação a economia isso é evidente. Mesmo assim, a força desse grupo consegue avaliar mal o atual governo, mesmo podendo comprar picanha mais barata.[19] Por que a melhora econômica não os convence? Porque o peso do elemento religioso e a capilaridade política ativa, ou seja, eleita, é enorme. Mesmo a Paulista de 25/02/2024 tendo uma maioria católica,[20] quem “segura o rojão” da extrema-direita tupiniquim são os evangélicos fundamentalistas (históricos e pentecostais).
Algumas outras hipóteses que endossam a força evangélica brasileira: o mercado religioso fortíssimo; possibilidade de lavagem de dinheiro em templos religiosos, que facilitariam “intercâmbio” com vários players sociais (políticos, narcotraficantes, milícia, poderosos em geral que precisam de “serviços financeiros” com “segurança”); facilidade na abertura de templos religiosos (seja para difusão de ideias político-religiosas ou com interesses “lava-jatistas” – lavagem de dinheiro); ministros e ministras religiosas facilmente formados à luz de uma lógica que serve aos interesses do status quo fundamentalista-evangélico.
O bolsoevangelicalismo é maior que Bolsonaro
Bolsonaro é fraco intelectualmente. Fracassou em executar plenamente o golpe. Quem poderá assumir o seu vácuo? Independentemente de quem, certo é que “já se passou do ponto de retorno” desse tipo de ideologia político-religiosa no Brasil.
O evento do dia 25/02/2024 deixou claro que Bolsonaro possui uma surpreendente e incontestável capacidade de mobilização, considerando que seu governo deixou marcas negativas na sociedade brasileira como a péssima gestão da pandemia de COVID-19, aumento da carestia, baixas taxas de crescimento econômico e investimento,[21] atos de depredação em Brasília em 08/01/2023 e uma tentativa de golpe em investigação com fartas provas em poder do STF.
A extrema direita é uma força política resiliente, cuja defesa de temas abstratos – Deus, pátria, família e liberdade – embalados em uma roupagem antissistema é capaz de atingir afetos de uma parcela considerável da população brasileira. “A extrema direita é hoje a única força política real do país, porque é a força que tem capacidade de ruptura, tem estrutura e coesão ideológica”, conforme afirma o professor de filosofia da USP, Vladimir Safatle.[22]
Assim o apoio ao “bolsonarismo” parecer ser uma combinação de identificação ideológica, polarização política, desinformação, carisma pessoal e instrumentalização da igreja evangélica.[23]
A inexigibilidade de Bolsonaro não significa o fim da extrema direita, e no atual cenário político brasileiro (associado a uma quase certa vitória de Donald Trump para um segundo mandato presidencial nos EUA) são vislumbrados vários “herdeiros” para o espólio político da extrema direita no Brasil. MB, NF e Damares Alves são alguns dos nomes que podem disputar uma eleição majoritária com chances reais de vitória neste contexto de polarização política e associação entre a extrema direita e o movimento evangélico fundamentalista. Afinal o “mal” precisa ser “exorcizado” das instituições. Já imaginou a MB ou o NF como presidentes da república? Ou, quem sabe, Malafaia como ministro de estado? Pois é… Cremos ser uma possibilidade real. O leite foi esparramado, caros irmãos e irmãs.
O abismo da polarização
Se um observador desavisado analisasse a igreja evangélica no Brasil nos últimos 4 anos poderia imaginar que ela sempre esteve associada com a extrema direita. Todavia, no passado, além do engajamento político não ser prioridade deste grupo, muitos de seus líderes (incluindo alguns que estavam no trio elétrico de Silas Malafaia no dia 25/02/24) já apoiaram presidentes progressistas e se envolveram com suas campanhas.
Uma das explicações para este casamento entre igreja evangélica e extrema direita pode ser o protagonismo das pautas morais no debate público e a polarização política que veio crescendo desde 2013 e explode em 2018[24], sendo alimentada desde então.
Para Thomas Traumann e Felipe Nunes,[25] a polarização extrapolou o voto e transbordou para o dia a dia das pessoas. Em 2018 há uma mudança na arena política na qual as pautas de valores morais se impõem no debate público e a polarização deixa de ser partidária e passa a ser uma polarização afetiva gerando um processo de polarização calcificada. Nesta calcificação, os dois grupos que possuem visões de mundo tão diferentes não se reconciliam e criou-se um conflito “moral” na sociedade.
É possível pensar uma igreja evangélica progressista e com capilaridade para fazer frente ao mainstream evangélico? Alguém consegue imaginar esse cenário na realidade? Nos parece que não.
O que fazer?
Como limpar a sujeira? Gostaríamos de partilhar algumas ideias que nos parecem necessárias e imprescindíveis nesse esforço de mitigar o risco do Brasil ser conduzido para alguma distopia como The Handmaid´s tale (O Conto da Aia).
Repactuação democrática da sociedade
É necessário, primeiramente, um novo pacto democrático com os atores sociais e políticos. Triste, mas os batistas brasileiros perderam essa oportunidade de testemunhar seus valores democráticos – alguns se aproximam de golpistas explícitos! –, sendo que há apenas uma minoria que resiste diante do caos da política nacional. Enfim…
Não é momento para se ter “nojinho”. Nesse pacto democrático cabem todos: bolsonaristas arrependidos, esquerda e direita democrática, pessoas físicas, igrejas e toda e qualquer instituição comprometida com o mínimo denominador comum democrático, como compromisso com a separação entre Igreja e Estado. Esse movimento supraideológico pró-democracia é fundamental para tentar estancar a sangria, não permitindo que candidatos explicitamente antidemocráticos sequer disputem eleições.
O fascínio que a extrema direita exerce sobre as pessoas deveria mobilizar a academia, os partidos políticos, os institutos de pesquisa do fenômeno político e religioso no sentido de encontrar respostas para algumas questões: por que as pessoas perderam esperança na democracia? Por que a possibilidade de viver sob um regime autoritário não causa espanto? Por que as pessoas votam em candidatos que fazem uso explícito da violência como instrumento político? Por que as pessoas consideram que existe liberdade plena em um regime autoritário e consideram que a liberdade está tolhida em um regime democrático? As respostas a estas e outras perguntas possíveis sobre o tema poderão subsidiar as ações de um novo pacto democrático e propor um aperfeiçoamento da democracia brasileira para que ela não seja tão tensionada como tem sido nos últimos anos e seja capaz de atender os anseios da população brasileira.
Políticas públicas e fiscalização do ambiente religioso brasileiro
Discussão de políticas públicas que previnam o Estado desse mal – ser cooptado por projetos político-religiosos – também é uma necessidade urgente. Qualquer instituição religiosa isenta de IPTU pelo Estado jamais deveria estar usando seus púlpitos para fazer proselitismo político-partidário, que se configura em um ato anticonstitucional, pois fere o princípio da soberania popular no exercício do sufrágio universal. É urgente que o TSE proponha novamente a discussão do abuso do poder religioso no processo eleitoral como um ilícito eleitoral. É crucial que Congresso Nacional discuta a equiparação das punições do abuso do poder religioso com o abuso do poder econômico.
Mais: deveriam existir trabalhos proativos de conscientização democrática dentro dos templos religiosos em solo brasileiro. Além disso, quais os critérios para se abrir um CNPJ religioso? E se tornar ministro religioso no Brasil? Quem credencia? Quem avalia a qualidade da formação? Pessoas que não estão devidamente preparadas para atuarem dentro da religião profissionalmente no Estado Democrático brasileiro não deveriam poder exercer tal função – de extrema responsabilidade! Ora, esses são apenas exemplos, complexos, que devem ser aprofundados, mas, certamente, existem outros entraves e mecanismos legislativos dignos de discussão.
Investimento em educação
Educação. Chegamos ao ponto no Brasil de formarmos quadros políticos – e eles serem eleitos! – sem o mínimo de civilidade.[26] A educação do nosso país precisa avançar em termos de cultivarmos um diálogo mais sóbrio, racional e democrático. A história já provou que esse flerte autoritário-político-religioso é um mal que não deve ser subestimado.
Regulamentar as mídias sociais e a IA
É impossível não pensar a questão da internet! O Marco Civil da internet (Lei nº 12.965/2014) estabelece princípios e diretrizes para o uso da Internet no Brasil, incluindo questões relacionadas à privacidade, liberdade de expressão, neutralidade da rede e responsabilidade dos provedores de serviços online. Todavia, o Marco Civil estabelece que provedores de internet não podem ser responsabilizados pelo conteúdo gerado por terceiros, a menos que descumpram ordem judicial específica. É urgente avançar no debate sobre a transparência no monitoramento de dados de usuários, responsabilização pelo uso de robôs para disseminação de desinformação e da responsabilização solidária das Bigs Techs por danos causados por conteúdos indevidos publicados por terceiros.
Se o ambiente virtual desregulamentado das redes sociais já propicia um ambiente fértil para a disseminação de desinformação, ataques à democracia e novas percepção da realidade (disfunção cognitiva coletiva), qual é o tamanho da ameaça que representa a Inteligência Artificial ao alcance de todos?[27] Não há como fugir desse debate.
Choque de realidade no mundo evangelical
Por fim, este flerte com a teocracia veio após anos de uma doutrinação promovida pelas igrejas, baseada no medo, disseminação de desinformação, informação incorreta, má informação e teorias conspiratórias. Está na hora de um choque de realidade nos ambientes evangélicos. Uma “dispensação” da realidade ou uma aliança com os fatos. Um compromisso inequívoco de abolir tudo aquilo que tem atrapalhado a capacidade de decisão dos fiéis. Chega de fomentar o imaginário das comunidades evangélicas com o tal do “kit gay”, o comunismo imaginário e ameaças de perseguição religiosa. A maior proximidade do Brasil com o comunismo ocorreu em 14 de junho de 1982, na partida Brasil 2 X 1 União Soviética, na Copa do Mundo da Espanha.[28] Políticos que são batizados no Rio Jordão não se tornam automaticamente evangélicos ou ungidos. O Brasil não será um país mais próspero quando “for do Senhor Jesus”. Parem de macetar o texto bíblico até ele provar um nexo casual entre os problemas do Brasil com uma suposta atitude pecaminosa do Brasil como nação! Vamos cultivar a atitude dos bereanos de examinar e julgar o que é dito no púlpito; admitir que um pregador, “profeta”, líder pode não estar falando da parte de Deus é imprescindível (“A fé se revela como irmã gêmea da dúvida”, escreveu Rubem Alves); Não existe algo que esteja oculto para toda a nação e revelado apenas para os evangélicos; Fugir da tentação do conhecimento absoluto e admitir os riscos da vida (“Temos a necessidade emocional, psíquica de um mundo estável”, porém este é caminho do autoritarismo, como já postulava Alves);[29] Ter uma atitude cética e crítica sobre os profetismos (Cada vez mais os evangélicos embarcam em uma crença neurótica de que Deus está ostensivamente diligenciando sobre todos os aspectos da vida inclusive a política e revelando cada detalhe do futuro. É a providência divina levada às últimas consequências). A participação de evangélicos nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro foi insuflada por suposta profecias e revelações[30] e, nesta ocasião, aconteceu umas das cenas mais bizarras da história do movimento evangélico no Brasil: as pessoas caindo de joelho em oração e cantando louvores e hinos depois de depredarem patrimônio público.[31]
As Teologias do Domínio (ou reconstrucionismo), da Batalha Espiritual e da Prosperidade contribuíram para o expressivo crescimento da religião evangélica, porém comprometeram o compromisso ético do evangelho e a credibilidade da igreja. A perversidade destes “ensinos” deve ser denunciada bem como as autoridades que não os defendem, mas silenciam e se omitem mesmo sabendo que suas ovelhas se alimentam em outras comunidades.
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O leite já esparramou. Longe de condenarmos a participação legítima dos evangélicos na política. Entretanto, precisamos fazer a faxina da sujeira que parte significativa desse grupo fez. É urgente. É agora. O leite esparramado já possui um odor difícil de suportar.
[1] https://www.instagram.com/reel/C4qgnMourat/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==
[2] https://www.nexojornal.com.br/podcast/2022/09/14/fe-no-voto-a-acao-dos-lideres-evangelicos-e-a-realidade-dos-fieis
[3] https://www.brasil247.com/blog/por-que-lula-erra-ao-propor-mais-dialogo-com-os-evangelicos
[4] https://www.poder360.com.br/brasil/leia-a-integra-do-discurso-de-michelle-na-avenida-paulista/
[5] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2024/03/17/teologia-do-dominio-o-que-e
[6] https://piaui.folha.uol.com.br/materia/as-motivacoes-e-taticas-de-deltan-dallagnol-em-950-mil-mensagens-do-telegram/
[7] https://g1.globo.com/politica/blog/andreia-sadi/post/2024/03/11/entrevista-gilmar-mendes.ghtml
[8] Cf. Os trabalhos de Bruno Paes Manso e Viviane Costa.
[9] https://g1.globo.com/politica/blog/andreia-sadi/post/2024/03/13/mendonca-responde-gilmar-mendes-sobre-narcomilicia-evangelica.ghtml
[10] https://iclnoticias.com.br/pastor-demoniza-indicacao-de-dino-ao-stf-temos-que-orar-contra-esse-comunista/
[11] https://www.metropoles.com/colunas/grande-angular/andre-mendonca-diz-que-erro-maior-do-brasil-e-apoiar-terroristas
[12] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/12/o-que-sao-as-linguas-usadas-por-michelle-bolsonaro-e-por-que-evangelicos-falam-em-intolerancia.shtml
[13] https://www.brasildefato.com.br/2021/04/07/ao-defender-igrejas-abertas-agu-cita-3-trechos-da-biblia-e-nenhum-da-constituicao
[14] Cf. FISHER, Max. A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo. Todavia: São Paulo, 2023.
[15] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/02/27/pec-que-amplia-isencao-tributaria-de-igrejas-avanca-na-camara.htm
[16] https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2024/03/08/eleito-presidente-de-comissao-de-educacao-nikolas-ferreira-nunca-apresentou-projeto-sobre-o-tema-como-deputado.ghtml
[17] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/03/25/michelle-bolsonaro-evento-sp-marco.htm
[18] https://www.intercept.com.br/2023/05/29/como-a-igreja-universal-esta-doutrinando-as-forcas-policiais-do-brasil-e-os-governos-fingem-que-nao-veem/
[19] https://g1.globo.com/politica/noticia/2024/03/06/pesquisa-quaest-governo-lula.ghtml#
[20] https://revistaforum.com.br/politica/2024/2/27/pesquisa-revela-ampla-maioria-de-catolicos-em-ato-convocado-por-malafaia-na-paulista-154733.html
[21] https://www.cartacapital.com.br/blogs/observatorio-da-economia-contemporanea/entre-as-piores-do-mundo-um-balanco-da-economia-brasileira-no-governo-bolsonaro/
[22] https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2024/02/esquerda-morreu-e-extrema-direita-e-unica-forca-real-no-pais-diz-safatle.shtml
[23] https://iclnoticias.com.br/video/eliziane-gama-quem-fez-menos-pela-igreja-evangelica-brasileira-foi-bolsonaro/
[24] Alexandre, Ricardo. E a verdade os libertará: reflexões sobre religião, política e bolsonarismo – 1ª ed- São Paulo: Mundo Cristão,2020. Cap.8
[25] https://www1.folha.uol.com.br/podcasts/2023/12/podcast-analisa-como-polarizacao-politica-extrapola-o-voto-no-brasil.shtml
[26] https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2024/03/13/comissao-de-direitos-humanos-tem-bate-boca-e-xingamentos-marielle-acabou-p.htm
[27] https://apublica.org/2024/03/qual-e-a-real-ameaca-da-inteligencia-artificial-nas-eleicoes/
[28] https://www.ogol.com.br/jogo/1982-06-14-brasil-urss/3994/videos
[29] ALVES, Rubem. Protestantismo e repressão. São Paulo: Ática, 1979.
[30] https://www.bbc.com/portuguese/geral-65579242
(Documentário BBC – Profetas do bolsonarismo: como religião foi usada no ‘8 de janeiro)
[31] https://www.youtube.com/watch?v=daEZlexkIJY
(Barroso: Invasores do 8 de janeiro ajoelhavam e rezavam fervorosamente após quebra-quebra).

