Cultura do consumo, sociedade e tendências

O Show de Truman e as simulações da sociedade de consumo

Siegfried Kracauer foi um dos teóricos mais importantes do século passado no que diz respeito à sétima arte. O pensador alemão acreditava que o cinema servia como uma ferramenta de leitura da sociedade, como se nós pudéssemos compreender ou até prever seus rumos a partir das suas produções cinematográficas. No seu famoso livro De Caligari a Hitler: Uma História Psicológica do Cinema Alemão, Kracauer estuda como os filmes expressionistas perceberam a guinada que a sociedade alemã dava rumo a um regime ultraconservador e totalitário, que mais tarde se consolidou como o Terceiro Reich.

Se aplicarmos esta percepção ao cinema hollywoodiano do final da década de 1990, perceberemos que filmes como Clube da Luta, Beleza Americana, Matrix e O Show de Truman fecham o século XX com um mal-estar perante a sociedade democrática, liberal e consumista norte-americana. Mesmo que aquele século tenha sido marcado por importantes vitórias internas e externas dos EUA, seu projeto de sociedade não estava isento de duras críticas que apontariam para rachaduras que só aumentariam nos anos vindouros.

O Show de Truman, de 1998, dirigido por Peter Weir, narra a história de um reality show em que acompanhamos toda a vida de Truman, que curiosamente é idêntica à vida de qualquer cidadão americano médio. Nascido e crescido dentro deste programa, nosso protagonista é o único que não sabe de sua existência. Tudo o que o cerca é um grande simulacro da sociedade da época; a cidade é um estúdio gigante, as pessoas ao seu redor são atores e praticamente todos os objetos de cena são mercadorias que estão em constante publicidade. E tudo ia bem, até que Truman começa a desconfiar de que sua realidade é controlada por estruturas secretas com objetivos obscuros, iniciando uma jornada iconoclasta contra toda a simulação da emissora televisiva.

Em um primeiro momento, todos os elementos dramáticos que remetem à simulação e ao simulacro podem parecer extravagantes e exagerados, fruto de uma mente criativa de Hollywood, mas, se olharmos a partir da ótica de Jean Baudrillard, veremos que tais conceitos são os fundamentos de como interpretamos a realidade na sociedade de consumo.

O teórico francês parte da seguinte premissa: as sociedades capitalistas contemporâneas impossibilitam a construção de uma tradição legitima, uma vez que a globalização e a produção a partir de máquinas afastam a relação do indivíduo com o espaço onde vive. Alega que não há uma ligação concreta com a terra e seus frutos, pois podemos passar uma vida inteira no Brasil sem consumir nenhum produto nacional, além de nem sabermos o que de fato é originário ou não do nosso país. Essa quebra rompe com a construção simbólica atrelada à região onde vivemos e deslegitima a autenticidade da tradição como fruto desta relação, condenando o espaço a constantes mutações e à perda de uma utilidade objetiva e singular para o que é produzido neste contexto; dando origem ao hipermercado e à hipermercadoria, conceitos que atentam para o alto grau de mutabilidade do espaço e dos elementos que nele circulam.

Para entendermos melhor esse tipo de sociedade tradicional, podemos recorrer ao modelo cultural medieval definido por Lótman, no qual tudo é significativo, ou seja, os locais, as vestimentas, as comidas, os animais, etc. têm um peso simbólico que desempenha uma função muito específica e toda a tradição gira em torno desse universo de significação. As pessoas que vivem nessa sociedade construíram seus costumes de modo orgânico e inerente à região onde moram, de tal maneira que as suas existências só passam a ter sentido quando inseridas neste microcosmo simbólico, diferentemente das sociedades capitalistas contemporâneas, em que o sujeito desfruta da sua plena liberdade angustiante ante a morte da transcendência e o silêncio do cosmos.

No entanto, nós precisamos de uma narrativa que nos confira identidade, e é neste contexto de desencanto que a simulação e o simulacro surgem como soluções. Uma vez que não podemos construir tradições com raízes muito profundas, preservamos e apropriamos culturas a partir de seus aspectos qualitativos ‑‑ simulacros ‑‑, e produzimos mercadorias com a promessa da construção identitária. Como a física moderna descobriu que o cosmos é indiferente a nós, e por consequência estamos lançados ao acaso, construímos uma nova cosmologia de bens de consumo que poderiam devolver o sentido para a nossa existência. A simulação da mídia entra como o fundamento da narrativa da sociedade de consumo. A indústria cultural simula a produção de conteúdos reais e espontâneos para convencer os receptores da veracidade do que está sendo representado na tela e, assim, legitimar-se como uma fonte de informação e conhecimento, gerando mitologias e arquétipos que irão conferir o valor simbólico necessário para as hipermercadorias a serem consumidas pelo público.

Esses dois conceitos centrais na obra do teórico francês podem ser encontrados em O Show de Truman. O criador do programa, Christof, defende que o mundo de Truman, construído pela emissora de televisão e comandado por ele, seria uma cópia melhorada da nossa realidade, como se todo o mundo ideal prometido pelas propagandas se concretizasse neste reality – no qual encontramos os arquétipos ideais da sociedade de consumo norte-americana, como a figura da mãe carinhosa, do pai protetor, do amigo leal, da esposa dedicada e do cidadão modelo, que é o nosso protagonista. Naturalmente, todas estas personagens estariam atreladas a mercadorias que as definem e vice-versa, como bebidas, utensílios culinários, automóveis, vestimentas, etc. E essa estrutura contribui para a construção da publicidade perfeita, os produtos vendidos de fato compõem o cotidiano dos personagens, o público podia entrar em contato com a faceta “real” do bem de consumo ‑‑ o que supera em muito a curta e veloz retórica do comercial.

Antes de começar sua aventura iconoclasta, Truman era um sujeito alienado, ou seja, não percebia a existência da simulação e do simulacro que o cercava. O mundo verdadeiro era aquele que se apresentava diante de sua percepção, ele não compreendia que as pessoas e os acontecimentos ao seu redor eram parte de uma narrativa criada por Christof, o Deus do reality show, que sempre manipulava os acontecimentos com a pretensão de afastar Truman da verdade e aprisiona-lo na ilusão ‑‑ como na cena em que faz Marlon repetir suas palavras em um diálogo comovente com nosso protagonista, a suposta morte do pai para traumatizá-lo visando afastar qualquer possibilidade de fuga da cidade pelo mar, inserir um novo interesse amoroso após o divórcio e afastar rapidamente qualquer pessoa que tente expor a verdadeira natureza daquele mundo.

O filme é uma metáfora para a condição do sujeito contemporâneo em meio ao sistema consumista midiático. Truman representa o consumidor alienado, Christof seria a indústria cultural e os atores do programa encarnam os perfis do público alvo do departamento de marketing de algumas mercadorias que são apresentadas no filme. Curiosamente, a obra não cessa apenas neste panorama metafórico, ela também apresenta de modo objetivo a prática de entretenimento e convencimento ao consumo que a mídia exerce sobre seu receptor. Os espectadores de reality sempre são representados de forma estática, diante do espetáculo, como sujeitos incapazes de agir no mundo de modo concreto, sem a mesma coragem do protagonista. A prova da incapacidade crítica dos espectadores é a falta de compreensão do que simbolizou o fim da utopia de Christof, a libertação diante da estrutura do simulacro foi suplantada por uma camada superficial de êxtase diante da jornada de Truman, pois o público da era capitalista foi ensinado a ler as histórias a partir das emoções que inspiram e a ignorar as entrelinhas que dão a sustentação verdadeira aos acontecimentos narrativos. Após o término do reality show, o canal é trocado, e a sociedade de consumo continua intacta.

Até aqui, as ideias de Jean Baudrillard parecem ser uma análise sofisticada de algo que podemos perceber intuitivamente em nossa sociedade, mas se aprofundarmos na crítica do autor, perceberemos que a questão é mais profunda e preocupante. Baudrillard radicaliza a famosa máxima de McLuhan, “o meio é a mensagem”. Enquanto o teórico canadense estava apontando para o fato de a materialidade do meio influenciar no conteúdo da mensagem, o pensador apocalíptico chega à conclusão de que não existe comunicação em um sentido efetivo. Uma vez que o meio se torna a mensagem, não temos um conteúdo propriamente dito, apenas a imposição da lógica do meio de comunicação, logo não temos mensagem. Ora, se não temos mensagem, não temos meio, pois não há o que mediar. E, se não há meio nem mensagem, o que temos? Simulação. Ou seja, nossa relação é com o signo e não com o objeto representado por ele, a linguagem tem por natureza substituir a realidade e nos condenar a uma leitura puramente simbólica de mundo. Nesse sentido, todos os nossos valores, o modo como interpretamos o mundo e nossas referências são construídas pelas empresas que medeiam a comunicação na sociedade, homens como Christof não são apenas os criadores de programas televisivos, mas de todo o imaginário de uma população.

Christof acreditava ter superado Deus ao melhorar seu projeto, dando de presente para Truman aquele paraíso terrestre, mas não contava com o ímpeto do protagonista de enfrentar os limites da simulação e do simulacro em busca da realidade. Após um confronto homérico contra seu criador, nosso herói consegue alcançar a desejada fronteira entre o mundo real e o mundo do estúdio, colidindo contra uma parede pintada, que, por anos, foi seu céu, seu horizonte inalcançável. Em uma última tentativa, seu criador tenta convencê-lo a ficar, alegando que a única diferença entre o mundo do programa e o mundo externo é que Truman estaria seguro no primeiro. Mesmo assim, nosso protagonista segue sua jornada e sai da simulação rumo à realidade.

Não é difícil traçarmos um paralelo entre esse filme e a alegoria da caverna de Platão, Truman não está trocando seis por meia-dúzia, como alega Christof. Nosso protagonista faz algo semelhante ao que foi feito pelo herói de Platão, após conhecer a verdadeira condição de sua realidade, o filósofo retorna para libertar os demais acorrentados, que no caso seria o público alienado do programa que está preso diante da televisão. Ao sair do estúdio, Truman estaria guiando as pessoas para a transcendência do simulacro.

A obra termina de modo otimista, tanto pela promessa de atingir a realidade verdadeira quanto pela sua metalinguagem. Critica a indústria cultural – embora seja um produto legítimo dela ‑‑, dando a entender que é possível uma relação harmoniosa entre empresas de comunicação de massa e a sociedade. É evidente que essa postura integrada vai na contramão da crítica construída por Baudrillard, que é naturalmente mais profunda do que a do filme. Mesmo assim, O Show de Truman segue como uma evidência legítima do mal-estar diante da sociedade de consumo.

Referências bibliográficas

KRACAUER, Sigfried. De caligari a hitler: uma história psicológica do cinema alemão. São Paulo: Editora Zahar, 1988.

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio d`Água, 1991.

SCHNAIDERMAN, Boris (Org.). Semiótica russa. São Paulo: Editora Perspectiva, 1979.

Platão. A república. São Paulo: Edipro, 2019.

Imagem: O Show de Truman (divulgação)

Sobre o autor

Francisco Etruri Parente

Bacharel em cinema pela FAAP, mestre e doutorando em comunicação e semiótica na PUC-SP e especialista em filosofia na Universidade Estácio de Sá. É pesquisador do grupo de pesquisa Cultura do Consumo, Sociedade e Tendências, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.