Cultura do Consumo, Sociedade e Tendências

Antes do fim, perguntamos: haverá lucro na autofagia?

No semestre passado, no grupo de CULTURA DO CONSUMO, SOCIEDADE E TENDÊNCIAS, no LABÔ, lemos um bilionário: Bill Gates e seu Como evitar um desastre climático. O livro nos faz acreditar que todos os concentradores massivos de renda serão pessoas com o mesmo nível de esclarecimento. É preciso admitir: Gates entremeia bem os campos pelos quais se interessou e pelos quais não construiu sua fortuna – e estreia como escritor mostrando que pessoas com acesso ao conhecimento podem, sim, idealizar serem membros produtivos da sociedade.

A leitura do livro, apesar de consideravelmente instrutiva para leigos no assunto e bastante focada – a aplicação é prática e espere pouca teoria… foque no título do livro – produz uma coceira difícil de espantar. Gates se coloca e se mostra como um mediador, um dos capazes (por mérito ou por conveniência) de transitar entre tantas entidades, governos, esferas sociais e bolhas acadêmicas voltadas a responder à pergunta que propõe. Por fim, acredita que falar com a massa – conosco – será um dos caminhos de estabelecer a pressão tão necessária para que o desastre climático seja evitado.

Esse desastre está a caminho. Deixando claro na introdução (afinal, não há tempo a perder) que somos nós que estamos provocando o desastre que potencialmente nos arrasará, Gates suscita o desespero que pode ser chamado apenas de urgência, necessário ao assunto, antes de prover quaisquer respostas. E o faz acertadamente, pois suas respostas são, então, eivadas de considerações humanistas. Quem poderá pensar em humanidades, cultura, sociologias, frente ao iminente desastre biológico que poderemos enfrentar?

Ao longo da leitura, Gates segue um roteiro bastante claro: delimitar o campo de ação humana, nos dizer seu status atual (com foco nas problemáticas enfrentadas) e atualizar-nos das iniciativas de resolução para as suas disfunções. Nessa empreitada, ele realiza cálculos (alguns feitos com dados desatualizados, pré-pandemia) nos quais baseia seus interessantes Prêmios Verdes, que mostram aos afeitos aos números o custo para pensarmos no meio ambiente em nossas decisões de consumo e manutenção física da sociedade.

Esse foco no custo recebe parte das minhas críticas. Não que não sejam interessantes ou importantes: reconheço seu valor e sua importância objetiva, até mesmo para consolidar em nossa mente o significado tão abstrato e complexo de um assunto como as mudanças climáticas. Mas Gates, ao fazer suas preleções, revela o que ocorre em sua mente de empresário. Para ele, convencer-nos que cuidar do clima pode render frutos a longo prazo será o estalo que nos fará pensar no assunto em nossas decisões cotidianas. O convencimento, então, passa pelo lucro que podemos obter.

Não vou discutir a ideia de natureza humana indicada por tal elaboração, e também não abordarei sequer a problemática de pensar se haverá outra maneira de conseguir da sociedade um comportamento desejado com a rapidez necessária fora da lógica de estímulo-resposta, ou, melhor, estímulo-recompensa que Gates propõe. Quero contribuir à pergunta que dá título ao presente texto notando a atitude repetida de Gates de posicionar o(s) Estado(s) como o guardião por excelência do clima, como se sua posição mediadora fosse privilegiada por acessar todos os stakeholders da questão climática com facilidade. É o Estado que deverá incentivar pesquisas (financiando os estudos ou garantindo compradores), legislar, fiscalizar e punir nos campos de atividade social humana apontados na obra de Gates e ainda prover informações atualizadas e confiáveis para a sociedade agir e decidir no que lhe couber. Esse Estado ideal deverá, também, claro, ser capitalista: deve agir desta maneira para incentivar as empresas a agir da maneira correta, disciplinando-as e saindo de seu caminho quando não necessitarem de correções.

Gates não parece considerar o que Immanuel Wellerstein, em seu Capitalismo Histórico & Civilização Capitalista, nos recorda sobre a socialização do risco:

Por último, os governos redistribuem em benefício dos ricos quando usam o princípio da socialização do risco e da individualização do lucro. Ao longo da história do sistema capitalista, quanto maior o risco (…) mais provável se tornou a entrada dos governos nas operações (…). Enquanto essas práticas de redistribuição anti-igualitária têm sido o lado vergonhoso do poder do Estado (vergonhoso no sentido de que governos têm se mostrado embaraçados e buscado manter escondidas essas atividades), a destinação de capitais para o financiamento de investimentos sociais tem sido abertamente alardeada, e sem dúvida defendida como uma função essencial do Estado na manutenção do capitalismo histórico. Gastos cruciais para reduzir os custos dos grupos de proprietários-produtores (…) têm sido amplamente sustentados por fundos públicos. Não há dúvidas de que a maioria das pessoas obteve algum lucro desse capital social, mas não é verdade que todas elas tenham obtido benefícios iguais.

Será que o clima estaria tão ruim se nada de errado estivesse mesmo sendo feito? E se a resposta para esta pergunta for positiva, faz-se necessário perguntar: quem fez estas coisas erradas? Com esta resposta em mãos, podemos voltar a examinar o Estado que Gates quer impor e perguntar-nos com quem ele dialogará. Um Estado capitalista (e suas empresas-filhas) pode ser, ao fim e ao cabo, o sistema gerador desse desastre climático que ele antevê no título do livro, e não sua solução caso seja reformado. Permitir que o capitalismo siga sem implodir o mundo é o que mais me parece implausível em todo o livro. Gates, que quer que o capitalismo sobreviva ao desastre climático que ele provoca, não parece sequer considerar ou debater a possibilidade de que talvez, enquanto o sistema que se baseia na ganância infinita reinar, alguns de nós não queiramos evitar um desastre climático, mas sim lucrar com ele. Quem sabe alguns não se preocupem de verdade com o desastre climático autofágico que virá, mas queiram saber qual parte dele poderão abocanhar…

Imagem: IA

Sobre o autor

Débora Leão

Mestra em Letras/Linguística pela UERJ e bacharel em Comunicação Social, habilitação Publicidade e Propaganda, pela FACHA. É pesquisadora do grupo de pesquisa Cultura do Consumo, Sociedade e Tendências, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.