
O ressentimento sempre foi uma arma poderosa para a manipulação. Ele é capaz de mobilizar multidões ao se aproveitar de seus afetos fragilizados com a triste concretude da realidade. Nietzsche chama atenção para a relação genealógica entre tal sentimento e a origem do pensamento ascético. Nos dias de hoje podemos perceber como discursos político populistas se valem da frustração econômica e social de seus eleitores para angariar votos. Mas para além destes dois exemplos notórios devemos considerá-lo também como um motor para o consumismo, não simplesmente pela ilusão da autopromoção através da aquisição de produtos, como também em um cenário macro de descredibilização do sujeito diante de um espelho invertido, que revela tudo aquilo que lhe falta e o faz sanar tais deficiências pela panaceia da mercadoria. Aqui é onde as máquinas do ressentimento atuam.
“Mas seria isso uma novidade?” o leitor crítico se pergunta, certamente não se considerarmos o star system hollywoodiano da primeira metade do século passado, ou mesmo as campanhas massivas de marketing na televisão, nos outdoors e nas revistas que insistiam em estabelecer uma clara distinção entre o astro propaganda e o mero consumidor ordinário. No entanto, vale ressaltar, não apenas a intensificação e aprimoramento de tais campanhas com os dispositivos móveis, como também a espontaneidade dos próprios consumidores em reproduzir tais ideias em suas postagens.
É curioso como as redes sociais se tornam uma arena de disputa de ostentação e recalque em que as vaidades se confrontam, buscando da humilhação do outro, sem perceber que é este movimento interno, espelhado no movimento coletivo, que gera justamente o ambiente hostil e humilhante que faz com que boa parte destes “jogares” sofram com frustração, ansiedade e sobretudo o ressentimento. É como se o remédio do ressentimento fosse causar isso no outro que te observa, uma maneira de tentar repelir tal sentimento ao virar uma fonte emanadora deste mesmo ressentimento. O senso de coletividade está morto.
É evidente que não podemos atribuir a causa deste processo única e exclusivamente aos usuários, afinal a lógica de divulgação deste conteúdo obedece a algoritmos que monitoram os interesses e as pesquisas dos usuários e direciona conteúdos relacionados, sempre com o intuito de atiçar o ressentimento ao evidenciar a falta e a falha do espectador diante deste outro mais próximo da perfeição, que brilha na tela do seu celular.
Neste sentido, o ressentimento se converte em um motor para consumo, não apenas no sentido clássico de aquisição de bens, mas também no sentido simbólico de se reificar para ser consumido pelo outro, de emular o garoto propaganda de outrora e reproduzir os comportamentos, poses e padrões que se alinham ao ideal apolíneo de consumo. Nesta lógica, o indivíduo tenta deixar de ser sujeito para se tornar objeto, deixa de ser o observador para se tornar observado, não quer ser o espectador que zapeia pelos canais de comunicação, mas o produto que é oferecido por eles.
As máquinas de ressentimento geram uma tentativa de despersonalização do indivíduo, que quer fugir do lugar daquele que contempla o mundo e reflete sobre ele para ser a obra imortal, pálida e estática que excita a imaginação. O sujeito contemporâneo não busca usufruir de sua capacidade imaginativa, e sim de a suicidar para se converter em uma reprodução de clichês, para achatar sua complexidade e realidade em imagens escapistas limitadas das quais o olhar logo se anestesia. Teria isso algo de pulsão de morte?
Talvez o que explique este comportamento superficial de reprodução de padrões e ideias de maneira praticamente automática, seja este próprio sistema de clichês, baixo repertório e alta redundância, uma vez que a faculdade imaginativa e estética não tem para o que olhar e o que pensar, uma vez que ela carece de objetos. Ela mesma busca ser o objeto para ocupar o lugar daquilo que deveria despertá-la, ela mesma busca ser o fenômeno que desperta o agente. Está é a reificação do espírito que não compreende sua potência e se reduz à mediocridade mimética de reproduzir ideias já combalidas para escapar das próprias frustrações alimentadas pelas redes e dispositivos. A reificação da subjetividade se transforma no combustível das máquinas do ressentimento.
Imagem gerada por IA
