Sala Michael Oakeshott

Programa Universitário: Artes – Filosofia da História

Palestra de Michael Oakeshott originalmente transmitida pela BBC 13.1.48 (13 minutos)
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Tradução: Ruth Steuer | Revisão: Luiz Bueno e Andréa Kogan | © Labô

Sempre haverá algumas disciplinas que, apesar de seu interesse e importância, não aparecem no currículo de graduação de uma universidade. Às vezes, isso é apenas uma questão de convenção e tradição, e difere de uma universidade para outra e de um país para outro. Mas, frequentemente, é porque o assunto é considerado inerentemente inadequado para esta etapa da educação. E no que diz respeito às universidades da Grã-Bretanha, isso certamente se aplica à filosofia da história. Eu duvido que essa disciplina possa ser encontrada no ciclo básico da graduação, seja em história ou filosofia, em qualquer universidade britânica. Isso, no entanto, não significa que o assunto não seja estudado nas universidades britânicas; significa apenas que normalmente não é exigido para o nível de graduação. E acho que há duas razões para acreditar que é uma tradição sensata, que reserva essa e outras matérias para a pesquisa de pós-graduação. Dedicar-se à filosofia da história de modo proveitoso, em qualquer uma das formas em que apareceu no pensamento europeu, exige longo e variado preparo. Além disso, a forma que agora é comumente adotada é a de um estudo cujas realizações ainda são tão pequenas e provisórias que, por algum tempo, não haverá a devida consistência e estabilidade que a tornariam uma parte apropriada desta fase da graduação.

Desde que Voltaire, no século XVIII, inventou o nome, “filosofia da história”, este nome propiciou o surgimento de três linhas de estudos diferentes, cada uma das quais é foco de acadêmicos, embora seja muito incomum os associarmos à filosofia da história. Dois, de fato, quase deixaram de ser chamados por esse nome e deixaram o terceiro em posse indiscutível do título. No entanto, mesmo a mais breve revisão do lugar da filosofia da história nas universidades britânicas deve reconhecer as três diferentes linhas de estudos que compartilharam o nome por muitos anos.

A primeira delas é o estudo do curso de eventos passados, na tentativa de detectar alguns princípios ou princípios gerais, que os manteriam como um todo coeso.  Antigamente, esse princípio era encontrado na ideia de Deus como a origem de tudo o que acontece. Mas o desaparecimento da “providência” do vocabulário do historiador abriu as portas para um novo campo de especulação e pesquisa: muitos princípios diferentes e tipos diferentes de princípios têm sido sugeridos para ocupar esse lugar. Alguns escritores pensaram nesses princípios como leis da mudança histórica, semelhantes às leis que os cientistas observaram em funcionamento no mundo natural. Outros, por sua vez, consideraram esses princípios como ideias gerais, abstratas, que aparecem em diferentes formas, em diferentes períodos da história do mundo, atribuindo um significado geral a todo o curso dos eventos. Hegel, por exemplo, encontrou na ideia de liberdade o fio unificador da história. Esse empreendimento, de descobrir um padrão ou plano no decorrer dos eventos mundiais, já inspirou muitas obras de grande erudição e imaginação, e é seguro dizer que no futuro inspirará muito mais. Mas esse é um objetivo exigente e talvez nem uma vez em uma geração seja feita uma contribuição significativa nesta direção. E é fácil perceber que é melhor chamar esse tipo de estudo simplesmente de história em vez de filosofia da história, porque os trabalhos que inspira diferem de outros trabalhos históricos apenas na amplitude de sua escala. Consequentemente, não nos surpreende que a mais recente dessas iniciativas seja designada pelo seu autor, o professor Arnold Toynbee, um estudo da história. Até o momento, no que diz respeito à academia britânica, este é o grande trabalho de nosso tempo neste campo. Seria, portanto, absurdo esperar que as competências necessárias para esse tipo de estudo fossem amplamente difundidas nas universidades de qualquer país. Porém, a maioria das universidades britânicas oferece alguma oportunidade para trabalhos desse tipo.

A segunda linha de estudos, conhecida pelo nome de filosofia da história, é um estudo completamente diferente. Não se ocupa originalmente com o curso dos eventos, mas com os problemas e métodos da pesquisa histórica, com o que pode ser chamado de metodologia. Esta linha de estudos foi iniciada no século XVII por acadêmicos franceses e, até agora, alcançou grandes realizações. Nas faculdades de história da maioria das universidades britânicas, podemos encontrar professores interessados por esse tema para o qual acadêmicos britânicos fizeram grandes contribuições. Mas, de forma geral, deve-se admitir que essa linha de estudos tem se desenvolvido de forma mais sistemática no continente europeu, na França e na Alemanha e depois na Inglaterra, onde sua vitalidade geralmente depende de uma personalidade marcante, e não de uma tradição contínua de pesquisa e ensino. O Instituto de Pesquisa Histórica de Londres é talvez o mais próximo que temos de um centro para esse tipo de estudo. Mas é um estudo que, com uma percepção mais clara de sua natureza real, deixou de ser pensado como a filosofia da história e tem sido reconhecido como um estudo especializado do método histórico, ou, como às vezes é chamado, historiografia.

O terceiro empreendimento, a linha de estudos que ainda mantém seu domínio sobre o nome “filosofia da história”, difere radicalmente das outras duas. Segundo essa linha, a história não se refere ao curso dos eventos, mas a um certo tipo de investigação, um certo tipo de conhecimento. Ainda segundo essa linha, o que interessa não é metodologia da pesquisa, mas a validade de seus resultados. O problema que se propõe elucidar são a natureza e os pressupostos dessa pesquisa chamada história. E o objetivo do estudo é chegar a algumas conclusões sobre a natureza da verdade histórica e a validade do conhecimento histórico. Agora você pode ver instantaneamente que qualquer pessoa que realize esse tipo de empreendimento precisa ter à sua disposição, como parte dos materiais de seu estudo, um corpo considerável de escritos históricos. Se alguém se propõe a discutir a validade de uma certa forma de pesquisa, essa pessoa precisa ser abastecida com exemplos dela. Como os historiadores têm conduzido seus trabalhos a partir de perspectiva crítica apenas nos últimos cento e cinquenta anos, é compreensível que o estudo filosófico do conhecimento histórico tenha esperado até recentemente pela inspiração e oportunidade para começar.

Daí a relativa pequena importância de suas conquistas se comparadas, por exemplo, às realizações de estudos semelhantes sobre a natureza e validade do conhecimento científico. De fato, grande parte do caráter dessa filosofia da história tem sido, até agora, determinado pelo inevitável atraso de seu surgimento. Por exemplo, no período em que os filósofos começaram a considerar a natureza da investigação histórica, o prestígio da pesquisa científica já era enorme. E parecia claro que a maneira mais satisfatória de demonstrar a validade do conhecimento histórico era mostrar que era apenas uma forma de conhecimento científico, talvez diferente no tema, mas com objeto e método idênticos. Isso foi um erro. Mas isso ocorreu algum tempo antes do início da atual e mais proveitosa pesquisa sobre as diferenças entre o conhecimento científico e o histórico.

No entanto, já faz muito tempo que esse tipo de filosofia da história encontrou seu lugar no universo acadêmico e começou a explorar seu campo apropriado de pesquisa. Naturalmente, esse tipo de filosofia da história florescerá apenas onde o estudo da história e o estudo da filosofia caminham lado a lado. Pois, embora não faça parte da função dessa filosofia da história dar orientações ao historiador sobre como ele deve pensar e escrever, as relações entre os dois são recíprocas. O filósofo nesta linha de estudos usa o trabalho dos historiadores, ao menos em parte, como seu material. E o historiador, em sua pesquisa, talvez se beneficie da crítica filosófica de suas ideias mais gerais – ideias como causa e efeito, crescimento e decadência, desenvolvimento, mudança, progresso, sucesso e fracasso. Essas condições, história e filosofia estudadas lado a lado, existem e têm existido há muito tempo em todas as universidades britânicas. Mas, embora a potencialidade do estudo da filosofia da história não esteja ausente em nenhum lugar da Inglaterra, ela foi naturalmente realizada com mais plenitude na universidade em que o estudo da filosofia e o estudo da história têm sido, por muito tempo, tradicionalmente aliados, isto é, em Oxford. Entretanto, também foi necessário algum estímulo externo para direcionar as mentes dos acadêmicos ingleses nessa direção, um estímulo que veio primeiro da Alemanha e depois da Itália.

Mas, pode-se dizer que, desde cerca de 1870, os acadêmicos ingleses deram uma notável contribuição para este tipo de filosofia da história, e que os estudiosos de Oxford exerceram um papel de liderança, começando com FH Bradley. Em nenhum campo, é fácil explorar uma escola de pensamento na academia inglesa. Pesquisadores qualificados conseguem revelar mais a sua grandeza no impulso do que na direção exata que atribuem ao estudo. E se eles encontraram uma escola, é mais provável que seja uma escola de pesquisa do que uma escola de pensamento. Isso certamente se aplica à filosofia da história. Ela carrega a marca de pessoas de forte personalidade, como o falecido professor RG Collingwood, mas nem ele nem ninguém mais restringiram o pensamento britânico neste tema em uma direção específica ou estabeleceram a superioridade de uma doutrina em particular. De fato, esta é uma linha de estudo na qual, atualmente, na Inglaterra, existe uma forte tradição e uma crescente oportunidade de pesquisa, com pouco ou nada para cercear a direção em que ela pode ser conduzida.

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Sobre o autor

Michael Oakeshott

(1901–1990) – Pensador britânico que pesquisou e lecionou filosofia política e história do pensamento político. Graduou-se em Cambridge, onde também foi professor. Depois de servir nas forças britânicas durante a II Guerra Mundial, lecionou em Cambridge novamente, depois brevemente em Oxford até que obteve a cadeira de Ciência Política na London School of Economics, onde permaneceu até se aposentar e, mesmo depois, como colaborador.