A crise do amadurecimento na contemporaneidade

Escolher pela renúncia faz parte da maturidade

“Vivemos numa loja mercantil transparente, onde nós próprios, enquanto clientes transparentes, somos supervisionados e governados…Já é hora de transformarmos essa casa mercantil novamente numa moradia…” (Byung-Chul Han)

Enquanto todos os olhares se voltam para o espetáculo da conquista, a cada dia que passa, menos indivíduos são capazes de apreciar a construção daquilo que está sendo aplaudido, e poucos são aqueles que questionam o real motivo de tamanha balbúrdia em torno de algo que não foi constituído por aquele que recebe a aclamação.

Segundo o sociólogo Byung-Chul Han, “Nós produzimos para a produção… Nós ganhamos visibilidade e expomo-nos como mercadorias”.  Aproveitando essa colocação, eu gostaria de questionar se você é capaz de saber para quem exatamente você está sendo mercadoria, e para qual fim o produto da sua vã produção está sendo destinado.

Vivemos tempos líquidos, como sabiamente determinou Bauman, e não me cansarei de repetir esse termo, já que ele descreve tão bem a sociedade não apenas do cansaço (parafraseando Han), mas também a sociedade do caos, da solidão e da individualidade.

Na ânsia de ser algo que idealizam como sendo simples, estão jogando fora (ou tentando) sua própria constituição e capacidade de sobrevivência.

O médico Donald Winnicott bem disse que há necessidade de vivermos os traumas apresentados pela vida, para que assim sejamos capazes nos formar enquanto indivíduos e assim aprendermos nossos limites e quem nós somos em meio à sociedade – que exerce grande influência sobre a nossa constituição. Mas, veja, essa sociedade exerce influência e não nos forma, e não é a única responsável por quem nós somos.

Muitos pais no contemporâneo estão preferindo compartilhar a responsabilidade do desenvolvimento dos filhos, cabendo a eles apenas o racional e material. Contudo, fiquem atentos, porque o imaterial, o inconsciente, é parte fundamental na existência desses filhos.

Estamos fatidicamente aprisionados à liberdade, e, sem a constituição de quem somos, será cada vez mais difícil a compreensão de que não seremos tudo aquilo que queremos – posto que a vida impõe limites, sejam eles de ordem natural, genética ou cognitivo-comportamental. Seu filho, provavelmente, não será aquilo que você deseja, e isso não quer dizer que ele não seja o melhor que pode, se eventualmente não atingir as suas expectativas. Veja, as expectativas são suas.

Cabe aos pais as dores e as frustrações, dentro da liberdade de escolha. Vocês escolheram ser pais e, como toda escolha está automaticamente ligada a uma renúncia, cabe a cada um a consciência de que sempre haverá perdas.

Educação não se constitui apenas por palavras difíceis e austeridade, educação se dá pelo exemplo, pelas atitudes e pela maneira com que o seu comportamento impacta a vida daquele indivíduo. Já ouviu falar que “a fruta não cai muito longe do pé”, um tradicional dito popular?

Pois bem, se o seu filho é capaz de amar, é porque ele teve contato com esse sentimento. Se ele é capaz de respeitar, é porque viu o respeito na maneira com que você tratava as pessoas. E, se ele é capaz de agredir, tenha certeza de que ele também seguiu os passos daqueles que são sua referência. Os discursos bonitos de empatia dentro de casa não terão efeito completo se, ao passar pelo porteiro do prédio, você o destratar.

Tenho visto jovens cheios de ideias rasas, que muitas vezes se contrapõem justamente às ideias rasas e ignorantes daqueles que deveriam ser seus exemplos. Muitas vezes, as discussões entre pais e filhos do mundo contemporâneo se dão entre crianças, seres que não tiveram a capacidade de se desenvolver além do estado infantil.

Sabe por que existe a frase “Freud explica”? Justamente porque esse psiquiatra, criador da psicanálise, acreditava que tudo aquilo que vivemos fica de alguma maneira guardada no nosso inconsciente, e em algum momento isso se manifesta. E pela manifestação se dar de forma não voluntária, ele concluiu que o recalque está se mostrando ali.

Guarde seus conceitos de recalque desenvolvidos no hoje – não estamos falando aqui de inveja e sim de sentimentos mais profundos, de desejos e frustrações guardadas a sete chaves justamente para te proteger.

Quando vejo um jovem completo, de fala ponderada, educado e receptivo para o diferente, que age com naturalidade em relação àquilo que é diferente, mesmo estando completamente fora do seu habitat natural, meu coração se aquece, pois noto que ali houve o desenvolvimento satisfatório do indivíduo com presença maternal e paternal. Isso não coloca o ser em questão como alguém perfeito e sim como alguém que teve seu desenvolvimento respeitado e suas necessidades abarcadas no seio familiar.

Quase nunca, a questão financeira representa algo superior a presença, repreensão, educação, acolhimento e ordenamento por parte dos pais. É necessário que o indivíduo saiba que existe um mundo além do que ele vive, e que, nesse mundo, ele deve ser adaptável, para contribuir positivamente na construção dessa sociedade que exerce função no desenvolvimento do indivíduo. Perceba aquele ciclo tornando a se fechar.

Sartre diz que não existe eu sem o outro, e não existe outro sem o eu. Sendo assim, aquilo que me incomoda no externo é parte de mim, e se eu realmente quiser mudar algo no mundo, devo iniciar mudando no meu eu.

O Ego não está relacionado apenas à vaidade, mas também à equalização entre quem gostariam que eu fosse e quem eu deveria ser para o meio, tendo como resultado dessa conta o Eu, único e individual.

>> Leia mais sobre Winnicott no off-lattes

Imagem: Non-Exclusive/iStockPhoto

Sobre o autor

Maycow Montemor

Jornalista. Pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô.