Filosofia política

A imaginação moral e as virtudes simbólicas

A imaginação moral sob a perspectiva da teoria da comunicação

A imaginação é fundamental para a relação entre comunicação e cultura, pois trabalha como uma ponte. Nesse cenário, toda tentativa de transmissão de conhecimento e ideias, em geral, desde as pinturas rupestres, a sermões de igreja, e até este breve texto, fazem parte de um contexto único – já que ambas “comunicação e cultura constituem-se, desse modo, em esferas indissociáveis” (BAITELLO JUNIOR, 2014, p.12) – que utiliza a imaginação como um depósito de seus consensos. Esses consensos devem se ancorar em imagens – “não importa em que tipo de linguagem, se visual, se auditiva, se olfativa, tátil ou performativa” (BAITELLO JUNIOR, 2014, p.21) – para que sejam palatáveis à consciência através da imaginação, pois ela “é a capacidade de fazer e decifrar imagens” (FLUSSER, 2018, p.15).

Nenhum processo comunicacional será, então, bem-sucedido, se não houver uma estimulação da imaginação, dado que “imaginação e a razão são igualmente necessárias para o entendimento” (ADLER, 2010, p.195). Por isso, a imaginação se mostra indispensável para a formação histórica, social e cultural de um povo, e, devido a sua função no papel de compreensão do passado e de ação no presente, seu estudo não resiste a “visões reducionistas ou simplificadoras” (BAITELLO JUNIOR, 2014, p.11) da natureza humana, propostas pelas ideologias.

Nesse sentido, a Imaginação Moral parte do pressuposto de que a moral de uma sociedade se forma empiricamente pelo hábito, através do tempo, e que, devido a essa complexidade, não pode ser conservada em conceitos lógicos, mas sim em imagens reais. Estas estão presentes na arte, literatura e história, e são compostas por duas partes:

  • uma ilustração, um exemplo prático, presente em livros, quadros e outros artefatos culturais ou em um agente histórico – abordarei este tópico mais à frente; e
  • um símbolo, que são os valores morais a serem conservados – o que chamarei de Virtudes Simbólicas, que “são grandes sínteses sociais” (BAITELLO JUNIOR, 2014, p.24), cuja relevância e vida só são possíveis graças aos seus suportes: as imagens, com as quais constituem uma relação simbiótica.

Podemos, com isso, definir Imaginação Moral como “aquela capacidade que temos de ver além do homem empírico”, isto é, enxergá-lo em sua totalidade de faculdades, e “perceber uma certa dignidade que pode nos reunir a partir de certos sentidos” (HIMMELFARB,2019, p.201) ou, com os termos deste estudo, como a capacidade de olhar através das imagens reais e nos vincular com as virtudes simbólicas que elas carregam.

Pela Imaginação Moral, conseguimos transformar as imagens reais em janelas abertas a nós, permitindo que nos vinculemos às virtudes por trás delas. E esse vínculo, que é “a unidade mínima das relações comunicativas” (BAITELLO JUNIOR, 2014, p.123), nos dá o sentido de coletivo e humanidade – a “certa dignidade que pode nos reunir” –, pois “quando portam valores, [as imagens] sustentam os vínculos entre o homem e suas raízes culturais e históricas” (BAITELLO JUNIOR, 2014, p.24) e “o sentido não é apenas mais uma construção arbitrária e autorreferente do espírito, mas um conjunto de vínculos maiores que levam em conta o homem na sua […] inteira complexidade, com suas potencialidades e suas necessidades” (BAITELLO JUNIOR, 2014, p.105).

A Imaginação Moral nos é, ainda, extremamente crucial na valorização e distinção de agentes históricos importantes – os heróis. Para os que não a desenvolvem, há uma rejeição deste tipo de imagem real, já que “todos os que se destacam da massa anônima em virtude, simplesmente, de não serem anônimos” (HIMMELFARB, 2019, p.58) são considerados figuras “elitistas”.

Winston Churchill, por exemplo, é uma vítima desse tratamento descuidado. Porém, quando o caracterizam como herói, não existe a pretensão de se afirmar que ele foi perfeito, pelo contrário, são seus erros que o tornam humano, uma vez que “sem virtude e vício não podem existir heróis e vilões” (HIMMELFARB, 2019, p.71). Sem a Imaginação Moral, é impossível capturar e conservar as virtudes que Churchill demonstrou em certos pontos de sua vida – como a coragem –, a despeito de seus defeitos, pois sem que o enxerguemos em sua “inteira complexidade”, não amputado pelas idealizações irreais, não há estabelecimento de vínculos.

Além disso, a Imaginação Moral possui uma capacidade criativa, posto que, ao se apropriar de diferentes virtudes simbólicas, em diferentes imagens reais, é possível reproduzir esses símbolos em novas imagens, ou seja, em novos artefatos culturais. Por exemplo, O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien apresenta, em suas páginas, virtudes simbólicas como amizade e responsabilidade em uma ambientação fantasiosa e mitológica. Por sua vez, Esopo descobriu que situações hipotéticas que envolvem animais falantes poderiam ensinar mais sobre confiança, paciência e inveja do que um tratado acadêmico. Nenhum destes valores nasceu com os autores citados, mas eles se vincularam aos valores, de maneira que souberam como transmiti-los.

Assim, percebemos que, apenas pela vinculação com o passado, somos bem-sucedidos na busca por um sentido que nos humanize; e sem comunicação, isto é, sem Imaginação Moral, tal vinculação é impossível. Em sua arrogância, o homem moderno virou as costas para a sabedoria acumulada através dos séculos, na tentativa de desconstruir e perscrutar todas as coisas, sem se dar conta de que “perscrutar todas as coisas é o mesmo que não enxergar nada” (LEWIS, 2017, p.76), lançando, em sua cegueira, a humanidade para sempre no mais profundo abismo da existência.

Referências

ADLER, Mortimer J. Como ler livros: o guia clássico para a leitura inteligente. São Paulo: É Realizações, 2010;

BAITELLO JUNIOR, Norval. A era da iconofagia: reflexões sobre a imagem, comunicação, mídia e cultura. São Paulo: Paulus, 2014;

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. São Paulo: É Realizações, 2018;

HIMMELFARB, Gertrude. Ao sondar o abismo: pensamentos intempestivos sobre cultura e sociedade. São Paulo: É Realizações, 2019; e

LEWIS, C.S. A abolição do homem. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

Imagem: O Lobo e a Cegonha (La Fontaine) por J. J. Grandville (1838)(

Sobre o autor

Alvaro Gadelha

Graduando em jornalismo pela faculdade Cásper Líbero. Pesquisador do Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.