A Imagem de Deus: religião, história e arte

Uma espiritualidade encarnada e pascal

A espiritualidade cristã leva à adesão à fé no Cristo crucificado-ressuscitado, convida à comunhão com Ele e aponta o Reino dos Céus como destino final do homem – sendo o cristão chamado por Deus a participar da vida divina.

Na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, o Papa Francisco alerta para o perigo de uma espiritualidade desencarnada, sem corpo, sem físico, sem carne. Ao falar dos novos gnósticos, ele afirma: “Concebem uma mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros, engessada em uma enciclopédia de abstrações. Ao desencarnar o mistério, em última análise preferem ‘um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo’” (Gaudete et exsultate, 37).

Uma espiritualidade, portanto, que tem o seu olhar voltado para o céu, mas que não é capaz de perceber as realidades terrenas – como lugar para se encontrar com Deus Encarnado e permitir ter a sua vida transformada por Ele – e, ao mesmo tempo, de mudar a realidade existencial emergente. Isso reduz a espiritualidade meramente ao racional e conceitual, sem modificar o aspecto relacional do indivíduo.

A espiritualidade cristã precisa haurir da Sagrada Escritura seus fundamentos, uma vez que ela é sua fonte. Nesse aspecto, a parábola do bom samaritano (Lc 10, 29-37) ilustra o contexto de uma espiritualidade que pode ser encarnada ou desencarnada: “Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de assaltantes que, após havê-lo despojado e espancado, foram-se, deixando-o semimorto” (Lc 10,30). A parábola, que quer refletir sobre fazer-se próximo daqueles que necessitam, apresenta protótipos de pessoas (sacerdote e levita) que foram capazes de conhecer a lei e a doutrina, mas não tiveram a mesma aptidão para perceber a imagem de Deus no homem que encontraram enquanto subiam a Jerusalém.

Ao olhar para o ferido e não o enxergar como imagem de Deus, agiram com uma espiritualidade desencarnada, incapazes de perceber o sofrimento e de se fazerem próximos daquele que carecia. Todavia, há um outro protótipo presente na perícope: “Certo samaritano em viagem, porém, chegou junto dele, viu-o e moveu-se de compaixão” (Lc 10,33). Assim, o bom samaritano, por sua vez, não apenas olha, mas se abaixa, oferece a sua compaixão e a sua amizade. Nesse contexto, se compreende as palavras do Papa: “o que mede a perfeição das pessoas é seu grau de caridade, e não a quantidade de dados e conhecimentos que elas possam acumular” (Gaudete et exsultate, 37).

O sacerdote e o levita agiram de modo racional, pois, de acordo com o estabelecido, tocar o homem ferido os deixaria impuros para o serviço litúrgico. O bom samaritano é capaz de sentir a dor do outro, porque esse encontro se dá numa dimensão relacional: “Aproximou-se, cuidou de suas chagas, derramando óleo e vinho, depois colocou-o em seu próprio animal, conduziu-o à hospedaria e dispensou-lhe cuidados” (Lc 10,34).

A dimensão relacional permitiu que o samaritano fosse interpelado pela realidade daquele homem assaltado, ferido e abandonado, não só por aqueles que lhe vilipendiaram, mas também por aqueles que, em nome de uma pureza ritual, não lhe prestaram auxílio. O bom samaritano, contudo, contemplou naquele homem ferido a imagem de Deus, ferido pela humanidade, e se estabeleceu ali uma relação. Rupnik, desenvolvendo o conceito de beleza pascal, enfatiza: “Então a beleza é relacional e não pode ser formal, pois a relação se dá na Páscoa, e a Páscoa é um martírio” (RUPNIK, p. 109).

O sacerdote e o levita não viram a beleza que havia naquele que estava caído ao chão; o bom samaritano, ao contrário, percebe naquele homem a imagem de Deus. Não um deus puro e perfeito na ótica do Renascimento, mas a imagem do Deus verdadeiro, ferido e chagado, vendo nele a beleza, que, no cristianismo, adquire uma conotação pascal. O homem caído é imagem de Deus, é ao mesmo tempo belo e pascal, pois aponta para realidades que extrapolam a dimensão terrena. Olhar e estender a mão a esses que não possuem beleza aos olhos do mundo é adentrar o universo de Deus encarnado, cuja imagem e beleza maravilhosamente se revelam no mistério da cruz.

Referências Bibliográficas

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição revista e ampliada. São Paulo, 2006.

FRANCISCO. Gaudete et Exsultate: sobre o chamado à santidade no mundo atual. Exortação Apostólica. São Paulo: Loyola, 2018.

RUPNIK, Marko Ivan. A arte como expressão da vida litúrgica. Brasília: Edições CNBB, 2019.

Imagem: divulgação

Sobre o autor

Diego Willian dos Santos

Mestre em Teologia pela PUC-SP. Pós-graduado em Processos Formativos em Seminários e casas de Formação. Bacharel em Teologia pela Faculdade Dehoniana. Licenciado em Filosofia pela Universidade de Sorocaba. Pesquisador do grupo A imagem de Deus: Religião, história e Arte, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.