A crise do amadurecimento na contemporaneidade

Em busca de uma identidade

Observamos na sociedade contemporânea uma série de fenômenos, tais como o surgimento de grupos identitários, polarização e a cultura do cancelamento, que se fazem cada vez mais presentes em nossa esfera social. É certo que tais fenômenos já se delineavam como parte de nossa cultura, mas se tornaram ainda mais rígidos com o surgimento da Covid-19, a necessidade de um distanciamento social e relacionamentos baseados preponderantemente nas redes socias.

Segundo FUREDI (2020), em seu recente livro Why Borders Matters, existe uma cultura da desvalorização das fronteiras físicas, geográficas e simbólicas. Os conceitos e as discriminações entre público e privado, adulto e criança, homem e mulher, humano e animal, o bem e o mal, estão sendo questionados, e qualquer tentativa de realizar uma distinção binária é denunciada como discriminatória.

O estabelecimento de fronteiras tem uma função simbólica estruturante, para o sujeito, na construção de sua identidade. Fronteiras nos auxiliam a obter insights a respeito de nós mesmos, fornecem um entendimento do nosso próprio self e dos outros, além de dar sentido à nossa existência. Quando ocorre essa diluição das fronteiras simbólicas, se estabelece uma crise cultural, na qual os jovens, ao perderem referências relevantes para a construção de suas identidades, têm uma maior dificuldade para o amadurecimento e entrada na vida adulta. (FUREDI 2020)

Nesse contexto em que as fronteiras estão enfraquecidas e os jovens em “crise de identidade”, observamos o surgimento de identidades fragmentadas entre determinados grupos sociais, cujos membros reconhecem que o seu pertencimento é dado por aspectos da sua identidade – os denominados grupos identitários. Como exemplo, temos os grupos de referência baseados em cor, sexo, deficiência e gênero. Os grupos identitários, apesar de não serem um fenômeno novo, ganharam força nas últimas décadas, inclusive no Brasil.

A sociedade democrática atual não é marcada por uma união de cidadãos ligados por princípios de solidariedade e uma visão de futuro comum, mas por um aglomerado de indivíduos, grupos e tribos com diferentes identidades – as quais não se falam. Vivemos em uma cultura hiperindividualista, na qual os jovens estão preocupados com as suas escolhas pessoais e identidades únicas, e pouco engajados com questões relacionadas a um bem comum. (LILLA, 2017)

Bolhas de identidade social, onde as pessoas tendem a se relacionar e interagir com outras que são como elas, e nas quais apenas uma forma de pensamento é permitida, fazem parte da nossa atmosfera crescente de intolerância cultural. (FUREDI, 2020)

O Exemplo de uma bolha de identidade social seria o Black Lives Matter (BLM), movimento no qual existe uma demanda para que as pessoas se conformem com a narrativa criada – “Silêncio é violência” – em que a discussão e o debate não são incentivados, e aqueles cujos pontos de vista são diferentes são silenciados, como nos aponta FUREDI (2020).

Na tentativa de incluir e dar voz a importantes e relevantes assuntos em nossa sociedade, determinados grupos sociais acabam reforçando a exclusão, o preconceito, e esvaziando o debate saudável tão relevante para qualquer democracia. Nesse sentido, podemos supor que estamos diante de uma sociedade imatura?

Para Winnicott (1969), a democracia é uma questão de saúde, de amadurecimento. “A sociedade democrática é uma sociedade “madura”, isto é, possui uma qualidade que vem de par com a qualidade de maturidade individual que caracteriza os seus membros sadios” (p.228). O autor fala de uma tendência democrática inata, que é conquistada por uma sociedade, em um determinado momento do tempo, e que para tal é necessário que exista uma proporção relevante de indivíduos que tenha atingido um grau suficiente de maturidade emocional. Essa maturidade começa a se delinear em um estágio muito inicial de nossas vidas, ainda na relação do bebê com sua mãe.

É no colo de sua mãe suficientemente boa que o bebê poderá crescer como indivíduo, adquirindo uma capacidade de se identificar com seus pais, e posteriormente se relacionar com uma realidade externa cada vez mais ampla. O termo mãe suficientemente boa, cunhado por Winnicott, diz respeito a uma mãe que é capaz de se dedicar ao seu bebê, respondendo as suas necessidades e permitindo que seu filho se sinta seguro e amado – ao mesmo tempo em que frustra o seu bebê, ao mostrar que ele não terá seus desejos atendidos de imediato, dando-lhe um limite, uma fronteira e o entendimento de que ele não é sua extensão. Esse ambiente suficientemente bom vai proporcionar que a criança gradualmente caminhe rumo a sua independência, e adquira o status de indivíduo com uma personalidade integrada. (WINNICOTT, 1969)

Segundo o autor, faz parte também do amadurecimento o desenvolvimento da empatia – entendida como a capacidade de se colocar no lugar do outro –, juntamente com a tolerância de suas próprias ambivalências, a de outros e da própria divisão existente em nossa sociedade. Sendo essas as condições de indivíduos e de uma sociedade madura, e consequentemente democrática.

Dentro dessa ótica, faz-se importante também refletir a respeito da cultura do cancelamento, uma espécie de “linchamento em praça pública” dos tempos modernos, no qual pessoas são punidas, muitas vezes perseguidas e excluídas socialmente por suas opiniões e/ou comportamentos – sejam nas mídias sociais ou fora delas. São inúmeros os casos, e vão desde celebridades a cidadãos comuns, sendo um exemplo a demissão de funcionários que publicam opiniões ou apresentam comportamentos nas redes sociais que não sejam alinhados com os valores das empresas.

Recentemente, surgiu na mídia o caso da funcionária de uma empresa, que foi filmada, em seu horário de lazer, em um bar do bairro da Barra da Tijuca, no Rio de janeiro, e apareceu, no Jornal Nacional, sem a máscara de proteção e desacatando um oficial da vigilância sanitária. A empresa, ao ter conhecimento do fato, imediatamente demitiu a funcionária e publicou uma nota no LinkedIn, tendo recebido vários comentários de aprovação social e likes por sua atitude.

Casos como o citado estão se tornando mais frequentes, e opiniões divergentes e mais agressivas em um Twitter – referentes a assuntos triviais como o futebol, por exemplo, podem ser repassadas ao empregador e ter como possível consequência uma demissão.

Nas universidades, ambientes onde supostamente o livre pensar e a capacidade crítica deveriam ser incentivados, existe uma crescente tendência de autocensura entre os estudantes e a academia. O medo de falar algo errado, ou de utilizar as palavras erradas, encorajou muitas pessoas a baixarem suas cabeças e a não emitirem suas opiniões. (FUREDI, 2020)

Nem os que já se foram escapam do cancelamento. Nos Estados Unidos, por exemplo, existe um movimento visando excluir Aristóteles das universidades, das escolas, das livrarias e bibliotecas, sob a alegação de que o filósofo, marco na história da filosofia, era racista e a favor da escravidão, entre outras críticas. Em nome do bem e do politicamente correto, é permitido atacar, e até mesmo censurar, sem levar em consideração que o sujeito é fruto de sua história, e que seu pensamento precisa ser contextualizado.

No cancelamento, a polarização está presente e o politicamente correto virou regra. Pessoas são “satanizadas” por outras que se colocam do lado da “virtude”, onde o bem e o mal não estão integrados. Prevalece um clima de intolerância, com pessoas cada vez mais preocupadas com o que falam, deixando, muitas vezes, de colocar suas opiniões, por medo de serem mal interpretadas e “canceladas”. Isso nos aponta para uma sociedade mais rígida e adoecida, em que a liberdade, a capacidade de diálogo, de enxergar o todo e de se colocar no lugar do outro estão prejudicadas.

Segundo Winnicott (1950), se o ambiente não for suficientemente bom, “o self verdadeiro da criança não consegue se formar ou permanece oculto atrás de um falso self que a um só tempo quer evitar e compactuar com a bofetadas do mundo” (p.24). São indivíduos que não atingiram um grau de integração e, consequentemente, de maturidade. Estes apresentam uma identificação imatura com a sociedade. “São indivíduos cuja falta de sentido social manifesta-se no desenvolvimento de uma tendência antissocial e outros podem reagir através de uma via alternativa – a identificação com a autoridade.” (WINNICOTT,1950 p.232)

Seriam os grupos identitários cada vez mais fragmentados, juntamente com a cultura do cancelamento, uma busca por identidade em um mundo sem fronteiras e referências? Uma tentativa para lidar com um EU não integrado e de controlar as pressões conflitantes internas fora do self?

É importante ressaltar que movimentos sociais são legítimos, e que as minorias precisam se organizar. Contudo, para que tais movimentos possam atingir seus objetivos, o discurso precisa estar integrado, precisam sair de uma posição narcísica e levar em consideração uma agenda comum, capaz de suportar as contradições em si e nos outros, de levar em conta as diferenças e se deparar com os conflitos na realidade compartilhada. Como nos assinala Winnicott (1950): “No encontro de pessoas sadias, cada uma contribui com todo um mundo, pois traz em si uma pessoa inteira.” (p.232)

Referências

FUREDI, Frank. Introduction: the paradox of borders. In: Why Borders Matter?  Why Humanity Must Relearn the Art of Drawing Boundaries. 1ed, cap. 1, p. 01-12. London and New York: Routledge, 2020.  

FUREDI, Frank. Borderline Identity Crisis. In: Why Borders Matter?  Why Humanity Must Relearn the Art of Drawing Boundaries. 1ed, cap. 1, p.111 -128. London and New York: Routledge, 2020. 

FUREDI, Frank. How to defend free speech on campus. Spiked online. July, 2020. Disponível em: https://www.spiked-online.com/2020/07/21/how-to-defend-free-speech-on-campus/

FUREDI, Frank. An ideology without a name Spiked online. July, 2020. Disponível em: https://www.spiked-online.com/2020/07/16/an-ideology-without-a-name/

FUREDI, Frank. Why did the protests over George Floyd turn into mass hysteria? Spiked online. June, 2020. Disponível em: https://www.spiked-online.com/2020/06/09/why-did-the-protests-over-george-floyd-turn-into-mass-hysteria/

LILLA, Mark (2017) Politics. In: The Once and Future Liberal, After Identity Politics. Cap. 08, p. 98-140. Digital edition: Harper, 2017.

WINNICOTT, D. W. (1950) O Relacionamento inicial entre uma mãe e seu bebê. In: A Família e o Desenvolvimento Individual. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. 4 ed., cap. 2, p. 21-28. São Paulo: Martins Fontes, 2018.

WINNICOTT, D. W. (1950) Algumas considerações obre o significado da palavra democracia. In: A Família e o Desenvolvimento Individual. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. 4 ed., cap. 18, p. 227-247. São Paulo: Martins Fontes, 2018.

WINNICOTT, D. W. (1969) A Mãe Dedicada Comum. In: O Bebê e Suas Mães. Tradução de Breno Longhi. Cap. 1, p. 11-19. Digital edition: Ubu editora, 2020.

WINNICOTT, D. W. (1969) Saber e Aprender. In: O Bebê e Suas Mães. Tradução de Breno Longhi. Cap. 2, p. 20-24. Digital edition: Ubu editora, 2020.

Imagem: Heraldo Galan/Heritage Library

Sobre o autor

Paula Lobo

Psicóloga pela PUC-RJ. Mestre em administração pelo IBMEC-RJ. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo /PUC-SP – LABÔ.