O vazio existencial na contemporaneidade

O sentido do amor no contemporâneo

É possível amar e ser feliz? Amor, do que se trata? Ao amar o outro e ser amado, encontro garantias para a felicidade? Mas afinal por que está tão difícil encontrar alguém para amar e ser amado? Em tempos em que estamos cada vez mais conectados, com aplicativos que nos ajudam a encontrar o par ideal – com matches perfeitos no Tinder , por que estamos cada vez mais solitários, sem vínculos significativos e carentes de afeto? Por que nos dedicamos a uma busca frenética que parece nunca se concluir, tendo em vista que buscamos um ideal que não cabe a nenhum ser mortal concretizar?

Assim, acumulamos desencontros e experimentamos o vazio do amor. A expectativa, a busca, o encontro: tudo se transforma em acúmulos de vazio e falta de sentido, em uma existência solitária, eventualmente, vivida às custas de muita Netflix, Prozac ou qualquer artifício que sirva de anteparo para a angústia. Uma procura desenfreada, anestesiante e excessiva, em seus prazeres para aumentar artificialmente a “qualidade de vida”.    

Mas o que é esse amor que tantos poetas se empenharam em desvendar? “Que não seja imortal: posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”(1), como diria Vinícius, ou ainda a recorrente “Antes de amar o outro e poder ser amado em troca, é preciso me amar primeiro”, como gritam os narcisistas, na contemporaneidade?

Para pensarmos no amor como possibilidades de encontro, para além do amor romântico, é importante falar da primeira relação amorosa vital para todo desenvolvimento humano: a relação da mãe com seu bebê. Ao nascer, o bebê mal sabe de si. Por qualquer desconforto, como a fome, ele chora. A mãe o acolhe, lhe oferece o seio e junto, com o leite, o bebê ingere amor. Inaugura-se, assim, a primeira vivência de satisfação – o ato de amamentar sendo inaugural da constituição de uma experiência que parte do desconforto para a satisfação plena(2). O encontro que legitima a vida diante do desamparo do bebê, o encontro sem o qual sua existência não seria possível. Qualquer pessoa que já tenha tido a oportunidade de ver um bebê após ser amamentado resgata, facilmente, de qual experiência se trata esta imagem: do encontro perfeito em que todas as satisfações são atendidas e apontam para a permanência e manutenção da vida.

Porém, a fome volta e novas fomes vão surgir no contato cada vez mais amplo com o mundo. Em determinado momento, a mãe se ausentará, e esta ausência é necessária, pois a vida a convoca a assumir outros lugares. Assim, também o bebê pode aventurar-se pelo mundo e explorar outras fontes de prazer e afeto para longe do núcleo familiar.

Somos, de fato, seres sociais em constante transformação, convocados a assumir diferentes posições nas relações que estabelecemos com os outros, ao longo da vida. O bebê torna-se o aluno na escola do bairro, o casal torna-se pai e mãe. São muitos os casais, inclusive, que não conseguem sustentar o desejo nesta fase tão conturbada que é a chegada do bebê – não sabem ser um casal e pais simultaneamente, pois há um abismo entre a expectativa idealizada da família perfeitamente feliz e a rotina insuportável, na qual o amor se esvanece ante as demandas do cotidiano. Na vida real, muitas vezes, a mãe está com seu bebê, em mais uma madrugada, tentando amamentá-lo apesar da dor e da exaustão – com todos os seus medos, frustrações e inseguranças –, mas o bebê não para de chorar e ela, então, abre o Instagram. O pai, no quarto ao lado, nem acordou, nem viu. Ele não sabe, ou não quer, ou não pode ainda se situar entre a mãe e o filho, mas em algum momento do dia também abre o Instagram. Ato de desespero? De fuga? Ou a mera distração nas imagens que os tiram de uma rotina maçante?

Ao abrir o Instagram, ao mesmo tempo em que nos distanciamos da realidade concreta e do outro – com todas as nuances de afeto que experimentamos desse encontro –, entra em cena a acumulação de imagens estrategicamente escolhidas, montadas e postadas no feed como representações, flashes de existência, que não revelam nem os bastidores nem os silêncios genuínos do encontro com o outro e com si próprio, tampouco as noites mal dormidas.

As relações contemporâneas ficaram mais complexas: diante da emergência das redes virtuais, parece que ficou mais complicado, tem que querer muito que dê certo! O sociólogo Bauman, na apresentação de seu livro “Amor Líquido”, aponta para esta particularidade da fragilidade das relações do mundo contemporâneo: “Um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível – é fatal para nossa capacidade de amar, seja esse amor direcionado ao próximo, a nosso parceiro ou a nós mesmos”(3)

Entendimento semelhante é compartilhado pelo teórico francês Debord, que descreve a sociedade do espetáculo(4), em que toda a vida contemporânea parece se anunciar em uma imensa acumulação de espetáculos, nos quais o consumo de imagens ignora a temporalidade que é exigida na construção de um narrativa. As imagens não anunciam todos os percalços e tempo desperdiçado, mas sim uma bela representação, como se fosse o real da existência.

Com isso, o mundo virtual se abre como um arcabouço de possibilidades que parecem tão viáveis, perfeitas e possíveis para todos. É preciso querer muito que dê certo para poder sustentar a fragilidade do cotidiano diante do arsenal incomparável de felicidade compacta, “acessível” e que parece garantir o acesso ao paraíso perdido: satisfação plena, imediata, permanente e que não lhe pede em troca nenhum esforço. Como diria o filósofo Pondé: “A ideia de um paraíso de amor em que o cotidiano, e suas demandas, não existe.”(5). A perpetuação de uma primeira vivência de satisfação elevada ao gerúndio, transformando-nos também em bebês que buscam a plenitude, para sempre felizes, como se estivessem ainda colados ao seio materno.

Talvez, apesar do coro dos contentes(6), esse casal persista e continue a apostar na relação, com todos os tropeços ou dificuldades e, para além dos desejos particulares de cada um, comece a construir um patrimônio afetivo, com a cumplicidade em ser testemunha da transformação do outro, com a conquista sempre contemplada e compartilhada pelos sofrimentos enfrentados juntos. A valorização das pequenas vitórias vividas no anonimato do lar e a capacidade de transcender aos apelos de consumo da felicidade mais imediata, descartável e banal permitem a criação de um outro enredo. Assim, à medida que cada um dos representantes do casal cumpre realizações de valor, transcendendo a si próprio em um ato de amor pelo outro, tornam a realidade plena de sentido.

A grande maioria das pessoas parece querer viver uma linda história de amor. Cada indivíduo parece querer muito amar, ser amado, ser aceito e desejado – mas não quer passar pelos abismos, silêncios e vazios que a construção dessa história exige. Não se esforçam para construir um amor maduro na relação com o outro, aceitando sua cota inevitável de sofrimento inerente à vida.    

O sofrimento, sempre que possível, deve ser evitado, mas parece impossível viver uma vida sem sermos acometidos pela experiência do sofrimento. O fundador da logoterapia, Viktor Frankl, reflete sobre essa condição humana e nos revela que: “O sofrimento é apenas um aspecto do que eu chamei de tríade trágica da existência humana. Seus três elementos são: dor, culpa e morte. Não há um único ser humano que possa dizer que jamais sofreu, que jamais falhou e que não morrerá.”(7) Ainda assim, segundo ele “(…) a vida tem um sentido potencial sob quaisquer circunstância”(8).   

Porque, sim, o sofrimento pode apresentar-se em muitos momentos de nossa existência, e cabe a cada um decidir de que modo responder a ele. Muitas vezes, nos convoca ao enfrentamento, haja vista a persistência da mãe, que mesmo exausta na relação com seu bebê, persiste: amamenta-o como ato genuíno de amor. Ela é uma presença real para seu filho, sem a qual ele não sobreviveria e, com certeza, ao lembrar-se dessa vivência, nessas longas madrugadas frias, ela lembrará também de momentos sublimes, perfeitos com seu bebê, e tudo terá valido à pena.

Apesar de todas as nuances deste encontro com o outro, cabe a liberdade individual de responder prontamente quando a circunstância nos convoca. Seja para calar a boca de um filho com fome, seja para colocar-se por inteiro diante de um outro que espera algo que somente você possa realizar. Logo, o amor, como diria Frankl, “constitui a capacidade de apreender outro ser humano em sua genuína singularidade em que cada pessoa é insubstituível, se não é para os outros, o é por quem a ama”(9).

Seja numa relação específica do encontro amoroso, seja em qualquer relação da qual tivermos o privilégio de participar, não devemos ignorar (ou esquecer) que nos cabe o compromisso de renovar o vínculo consciente da liberdade de vontade, da responsabilidade diante do ato e da realização de sentido, de modo que a vida possa ser genuína, única e, em última instância, insubstituível.

Cabe, ainda, frisar que, conquanto a jornada de encontro do amor ofereça riscos e tropeços, vale a pena viver cada passo dela. Como diria Nelson Rodrigues, “não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo”(10), simplesmente porque o amor é este desassossego em que vivemos momentos intensos e deslumbrantes, mas não somente e não em uma constância mortífera – infinita e muda – tal como sonham os ingênuos ou aqueles que nunca amaram.  

Bauman, ao pensar sobre a modernidade líquida e a fragilidade das relações humanas no mundo contemporâneo – em encontros e desencontros do amor – firma o termo amor líquido, para poder dizer dessas relações pouco estáveis, fluidas, efêmeras, voláteis e que estimulam desejos conflitantes, nas quais se buscam estreitar laços e, ao mesmo tempo, deixá-los frouxos. Para o sociólogo, “Sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa nessa terra inexplorada e não mapeada”(11).

Vale ressaltar que temos um tempo finito para ser presença no mundo. Não desperdicemos esse tempo. Tenhamos certa humildade e coragem para o amor, coragem para pensar que não é amando a si próprio que se garante a possibilidade de amar o outro. Mas sim que o ato de amar o outro é que nos ensina sobre o amor e que nos abre para a possibilidade, nem sempre imediata – nem certa – de sermos também amados, tal como fizeram nossas mães, quando éramos aquele bebê em seus braços, famintos de fome e vida.

Bibliografia

  1. MORAES, V. Antologia Poética. Rio de Janeiro: editora do autor, 1960
  2. FREUD, S. (1900) A interpretação dos sonhos. ESB, vol.V, 1996
  3. BAUMAN, Z. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar ed., 2004
  4. DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro. Contraponto editora, 1997
  5. PONDÉ, L. F. Amor para corajosos. São Paulo: ed. Planeta do Brasil, 2017
  6. KEHL, M. R. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2015
  7. FRANKL, V. E. A vontade de sentido. São Paulo: Ed. Paulus, 2011
  8. FRANKL, V.E. Em busca de sentido. Petrópolis: ed. Vozes, 2018
  9. FRANKL, V.E. A vontade de sentido
  10. RODRIGUES, Nelson Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo. São Paulo: Companhia das letras, 2002
  11. BAUMAN, Z. op. cit.
Imagem: Cupido e Psyche (1817) – François-Édouard Picot

Sobre o autor

Juliana A. Labes Moro

Psicóloga clínica, psicanalista, logoterapeuta. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Pesquisadora do grupo de pesquisa “O Vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido", do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.