A crise do amadurecimento na contemporaneidade

O reflexo da vida idealizada é o desamparo

A sociedade contemporânea, dentro da visão das classificações de Freud, se encaixa em muitas características de neuroses, psicoses e perversões, como se todos quisessem, a todo momento, sofrer e fazer sofrer. Segundo o autor, essas características são básicas de crianças que tiveram traumas no desenvolvimento de seu período infantil. Qual o resultado disso?

Adultos e jovens que crescem ferindo tudo e todos ao seu redor, em busca de uma realização que na verdade não é desejada por eles e sim por aqueles que estão ao seu redor. A necessidade da posse do outro, da ostentação e da objetificação de tudo, inclusive das pessoas, pode ser classificada realmente como algum tipo de mau desenvolvimento da fase anal, da necessidade do controle pela falta dele. A ânsia é pela posse e por introjetar algo a sua alma, como se tudo fosse parte daquilo que a boca pede para provar, assim como acontece na fase oral do desenvolvimento psicossexual das crianças que no ato de mamar, degustar, chupar, encontra prazer.

Quanto mais estudo sobre o desenvolvimento do ser humano, mais acalento encontro nas palavras de Donald Winnicott, que analisa e dá atenção ao indivíduo que, apesar de praticamente não existir, já experimenta o mundo.

A dor e a angústia na sociedade contemporânea geram como reflexo direto relações idealizadas, fracas e muitas delas sem futuro – justamente porque a vida se dá, basicamente, por características idealizadas pelo outro, pelo meio, nem sempre por si.

O orgulho é uma característica desses novos jovens, que vivem o amadurecimento de forma distorcida, buscam sua autossuficiência a todo momento, tendo como resultado direto a sensação de estarem vivendo o desamparo, a ausência e o não cuidado exatamente quando mais precisavam.

Observando o movimento da sociedade, podemos apresentar várias interpretações dos fenômenos a que estamos submetidos no mundo contemporâneo, seja pela visão de psicanalistas como Winnicott e Freud ou pela do sociólogo Frank Furedi.

Atualmente, as crianças se tornaram apenas mais uma parte da idealização de vida de casais potencialmente frustrados e que, muitas vezes, também tiveram seu amadurecimento mal desenvolvido. É como se hoje não houvesse mais culpados, porque todos são culpados, pela ausência ou pelo excesso – até mesmo de amor, que, como um remédio mal dosado, também pode adoecer e não apenas curar.

A psicóloga Jean Twenge relata, em seu livro IGen, que a nova geração não quer desenvolver relacionamentos amorosos e revelam o medo de perder oportunidades que tornem suas carreiras promissoras. Esses indivíduos dizem que relacionamentos distraem e colaboram para a perda do foco. Esse sentimento diz propriamente da ansiedade e da possibilidade de perda das oportunidades extraordinárias. Foram ensinados que a frustração gera dor e, com medo de senti-la (tanto eles quanto os pais), não são capazes de viver. Os dias dessa juventude, que teoricamente se aproxima por meio da tecnologia, são vazios e solitários, apesar das agendas cheias e sempre preenchidas por tarefas e metas. O medo do desamparo parece ser transferido de geração para geração e parece ser a ponta do iceberg desse mar de seres depressivos e borderlines.

Eles buscam, onde quer que estejam, pelo que chamam de lugar seguro, seja na escola, na lanchonete ou até na universidade. Isso nos leva ao questionamento do quão seguro foi esse acolhimento familiar, quão segura e presente foi essa mãe, no desenvolvimento da criança, e qual a importância da presença dos pais nesse desenvolvimento infantil que notadamente se dá, segundo Winnicott, entre 0 e 6 anos de idade.

A necessidade do jovem se resume à construção de grandes fortunas, e é a essa posse que eu me refiro. Como se fosse possível, com esse acúmulo, preencher seu vazio existencial. Pais amedrontados, inseguros e muitas vezes controlados pelo meio em que vivem e ao qual se submetem, não permitiram que seus filhos se desenvolvessem na vida real e de forma saudável.

Com medo de bactérias, não deixaram seus filhos se sujarem; com medo de sujeira, limparam demais essas crianças; com medo da censura da sociedade, não permitiram que essas crianças conhecessem o seu próprio corpo; com medo de que essas crianças conhecessem os próprios corpos e fossem apontadas dentro de uma sociedade completamente alienada pelas regras prontas e do julgamento raso, impediu-se o desenvolvimento.

Não existe confiança na Juventude, mas medo e angústia. A confiança que nasce, a partir da experimentação do indivíduo, foi tolhida justamente por aqueles que tiveram a oportunidade de prová-la. Julgaram ser excesso ou erro dos hoje avós, e trouxeram seus ensinamentos como exemplos negativos, mas, na verdade, esses foram os responsáveis pelo desenvolvimento considerado mais saudável da geração anterior.

Hoje, em meio a tantos protestos, ideais e limites, esses jovens são incapazes de cruzar as fronteiras e de experimentar. Onde está a libido desse jovem? Possivelmente, nas cifras dos itens que ele deseja. O que move essa Juventude que não quer casar e não quer ter filhos, pelo medo da responsabilidade, mas deseja sempre um bom carro, bolsas e viagens? O que realmente está sendo substituído por esses objetos? A libido está sempre no ter, na posse, na conquista e não no ser, cuja continuidade vai até a integração do sexual.

Uma geração que enxerga poesia no movimento das árvores, porém ignora por completo o movimento real do ser humano. Será que a sociedade realmente se comporta de uma forma saudável? Será que os males que assolam a população estão dentro de um subconsciente coletivo ou, de alguma maneira, todos passaram pelo mesmo sofrimento do excesso de zelo que impossibilita o indivíduo de enxergar o mundo como ele realmente é e não na forma projetiva e idealizada que a nova sociedade desenha?

Na busca pelo prazer idealizado, a sociedade contemporânea se submete a dores praticamente insuportáveis. Segundo um dos pensamentos da linha Freudiana, é como se o ID e o Superego estivessem no comando de forma alternada, e o Ego em si, equalizador, não existisse. Segundo a psicanalista Danit Pondé, enquanto sociedade infantilizada, acreditamos nas ordens de todos os outros que não somos nós.

Eu realmente não consigo compreender se, na sociedade contemporânea, a luta se dá pelo medo ou pela ausência de saber quem se é, pois todos parecem frágeis e desconfortáveis dentro de seus corpos e de suas vidas.

A Fuga moderna não é para praia ou montanha, muito menos para a tal da demoníaca tecnologia. A fuga da angústia moderna se dá para o mar de trabalho, no qual quanto mais se produz menos resultados se obtêm – apenas pela ilusão de ocupar o tempo da vida vazia que pede satisfação e assim é preenchida por sacolas.

Numa sociedade sádica e masoquista, não se sabe mais onde começa o prazer e onde termina a dor. Hoje, não se sabe muito bem os motivos do caos. Às vezes, sinto que nos tornamos uma grande máquina de moer, na qual tudo é jogado, triturado, misturado e depois empurrado goela abaixo do próximo indivíduo, na tentativa de preencher o vazio.

Imagem: fragmento de anúncio de laxante (1939)


Sobre o autor

Maycow Montemor

Jornalista, graduando em Psicologia e pesquisador dos grupos "Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade" e "Cultura do Consumo, Sociedade e Tendências" do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo /PUC-SP – LABÔ.