Cultura do consumo, sociedade e tendências

A música de Emicida: uma ponte entre realidades distintas

O presente texto parte da discussão dos conceitos de Pierre Bourdieu para articulá-los com o percurso, a música e o lugar atingido por Emicida em sua carreira. Minha proposta é mostrar como a música do rapper paulistano, que cresceu no Jardim Fontalis, na zona norte de São Paulo, ganhou outros espaços. Ao alcançar públicos de outras classes sociais, Emicida possibilitou um diálogo por meio de uma ponte entre realidades que, raramente, se comunicam na agitação do cotidiano paulistano.

Em A Economia das Trocas Simbólicas de Pierre Bourdieu, no capítulo 4 Campo do poder, Campo Intelectual e Habitus de classe, o sociólogo francês discute a distinção entre arte social, arte burguesa e arte pela arte. A arte social seria aquela realizada com a proposta de crítica social e engajada na denúncia das condições da população periférica das cidades. A arte burguesa tem sua produção e consumo restrita à própria classe burguesa e intelectual. Sua legitimação ocorre devido ao fato de seus membros pertencerem às mesmas classes e campos de poder. Já a arte pela arte, Bourdieu ironiza como sendo uma arte vazia, que divaga na busca de encontrar algum tema, mas que somente faz rodeios sobre si mesma.

Diante disso, em reunião do grupo de estudos Cultura do Consumo, discutimos sobre como essas categorias se mostram em nossos dias. Partimos da apresentação do texto e caminhamos para o papel da internet na capilarização da legitimação dos diferentes tipos de arte, possibilitado pelo seu advento e o das redes sociais.

Um dos casos discutidos foi do percurso pessoal, musical e empresarial de Leandro Roque dos Santos, conhecido como Emicida. O cantor e rapper da zona norte de São Paulo é o criador da empresa Laboratório Fantasma, uma marca de roupas e que também produz os discos, shows e eventos de seu fundador e de outros cantores e cantoras. A produtora e a marca geraram uma alta visibilidade para o Emicida, que construiu seu percurso a partir da descrição da realidade em que vivia e, aos poucos, passou a tratar de outros temas em suas músicas.

Com seu primeiro mixtape (disco de rap sem pausa entre uma faixa e outra) lançado em 2009, Pra quem já mordeu um cachorro por comida até que eu cheguei longe, Emicida, que já era conhecido nas batalhas de improvisação, lançou um compilado de composições com capa feita em papel kraft e carimbado à mão tendo o nome do disco e a imagem de um boneco, o qual, posteriormente, veio a se tornar o logo de sua marca Lab Fantasma.

Com letras agressivas e de caráter denunciativo, Emicida, neste momento, pode ser colocado como um artista que realiza uma arte engajada. Ao revelar as condições da população periférica de São Paulo, o rapper buscava utilizar-se de sua arte como uma forma de provocar indignação e mudanças na realidade em que nasceu.

No ano seguinte, em 2010, o lançamento do segundo mixtape, denominado Emicídio, marcou o início da Laboratório Fantasma. Ainda em 2010, Emicida produz um EP (um álbum com poucas músicas) com uma garota loira na capa, à beira de um palco, o título era Sua mina ouve meu rep tamém. Naquele momento, percebemos que o artista anuncia uma certa provocação ao que, a partir de Bourdieu, podemos interpretar como a classe burguesa. Ao estampar a garota loira na capa, Emicida demonstra que tem buscado dialogar com outras pessoas, além dos moradores da periferia.

Em 2013, ocorre o lançamento de seu primeiro álbum, denominado O Glorioso retorno de quem nunca esteve aqui. Na capa, Emicida aparece com um terno social segurando um microfone. A obra foi ganhadora de prêmios como o da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e da Folha de São Paulo. Na minha perspectiva, o “aqui” ao que o título se refere é, justamente, este campo intelectual da arte burguesa ao qual, até então, Emicida não tinha acesso. Por meio dos prêmios adquiridos, é possível compreender certa aceitação do artista nesse círculo.

2015 foi o ano do lançamento de Sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa, realizado com patrocínio do projeto Natura Musical, a partir de uma viagem que Emicida realizou à países da África, como Moçambique e Cabo Verde. Esse trabalho me gerou um impacto muito grande e é precisamente a partir da minha experiência com o seu conteúdo que este texto busca defender a música de Emicida como uma “ponte”.

Conheci o álbum por acaso, ao entrar na lista de lançamentos de um aplicativo de streaming de músicas. Ao terminá-lo, ouvi-o novamente na íntegra. Fiquei espantado com as letras. Não me recordo de outro momento em que alguém houvesse me contado, daquela maneira, sobre o racismo e a experiência de ser preto no Brasil. Andar pelas ruas de São Paulo, ouvindo-o, foi como uma aula de antropologia, sociologia e psicologia social, de forma simultânea.

A partir de Sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa, compreendo que Emicida opta, claramente, por dialogar também com classes sociais que não conheciam a realidade em que nasceu. A sonoridade deixa as batidas pesadas de lado, em algumas músicas, e convoca melodias calmas, para narrar suas experiências na África por meio da beleza e da alegria das crianças.

Entendo que essa proposta foi concretizada de forma ainda mais intensa em seu trabalho mais recente, AmarElo, que teve seu show de lançamento realizado no Teatro Municipal de São Paulo. Novamente, ele ocupa os lugares da elite, entretanto, não para se tornar “somente” mais um burguês. Ao contrário, ao trazer seus fãs (que mesclam pessoas de diferentes classes) para esse espaço, entendo que sua arte ocupa um intervalo, um lugar “entre” a arte engajada e a arte burguesa. Lembro-me de que, após a apresentação, várias pessoas publicaram nas redes sociais que nunca haviam ido ao Teatro Municipal e foram pela primeira vez naquele dia.

Entendo que a proposta de Emicida pode ser interpretada como um percurso que nasce da denúncia e busca colocá-la em diálogo. Arriscando-se a ser renegado por aqueles de quem esteve próximo em sua origem, ele possibilitou que a sua arte criasse pontes e diálogos com pessoas que antes nunca haviam conhecido sua realidade. As críticas que sofreu, por abraçar, de forma parcial, o público de classes altas, deixam claro que sua decisão não foi aceita por todos que o acompanhavam. Entretanto, a singularidade de seu trabalho permite a aproximação e o conhecimento de realidades que pouco se comunicam, mostrando que a alegria e a beleza podem brotar mesmo em solos inundados pelo sofrimento.

Bibliografia

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2007.

Imagem: tratamento sobre foto de divulgação

Sobre o autor

Renan Carletti

Psicólogo e professor universitário. Mestre em Ciência da Religião e doutorando em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP. Membro dos grupos de pesquisa “Crise do amadurecimento na contemporaneidade” e “Cultura de consumo, sociedade e tendências” do Laboratório Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.