Estudos sobre morte e pós morte

Morte e pós-morte: respeito, apoio e entendimento

Acredito que, por meio de nossos percursos pessoais – cursos que fazemos, coincidências que talvez não sejam coincidências, conversas com amigos, interesses descobertos por acaso e, atualmente, lives, aulas via zoom e eventos online –, somos atraídos por determinado grupo de pesquisa. Esta é a experiência que temos no LABÔ.

Há cerca de 10 anos o tema da morte e do pós-morte se aproxima de mim, por diversas razões, sejam estas dentro do judaísmo ou dentro do espiritismo (temas do meu doutorado), sejam por outras questões acadêmicas ou pessoais. A cada viés que observo, e cada livro que leio, percebo o quanto todos podem se beneficiar com esta discussão: todos. Não faço distinção aqui entre as diversas profissões que lidam com o assunto de forma mais concreta (psicólogos, médicos, psicanalistas, historiadores, jornalistas, religiosos, etc), mas penso no ser humano que precisa ter em mente que (spoiler alert): todos iremos morrer. Todos enfrentaremos uma morte em nossa vida – só se nosso leitor morrer jovem, aí talvez não enfrente nada, ou apenas a própria morte. Mas não pretendo ir para este lado da discussão.

Pensando de forma concreta, quais são os nossos objetivos ao estudarmos tais assuntos? Por que será que eu, pessoalmente, levo este tema como sendo de suma importância no debate contemporâneo? Não, não vou ao lugar-comum de “todos vamos morrer” ou “temos que estar preparados” (porque, de certa forma, nunca estaremos) ou “Deus não dá mais do que você pode carregar” (então, só vai morrer quem não é muito importante na sua vida). Penso que a necessidade de estudos sobre o assunto vai além. Acho que o ponto no qual quero chegar é o da importância do respeito aos rituais em todas as crenças/religiões – a não ridicularização do que você não acredita ser fundamental. Isto é essencial a um grupo de estudos de qualquer natureza, que trata de temas delicados de forma cientificamente séria e relevante, independente no que eu “acredito ou deixo de acreditar”.

O “Deus” de cada um pode ser: o do amor, o da coragem, o de Abrahão, Isaac e Jacob, ou uma energia. A seriedade do estudo está na ciência humana sem viés e sem juízo de valor. O sociológico americano Samuel C. Heilman, uma das grandes autoridades atuais no estudo do judaísmo ortodoxo, em seu último livro escreve:

“Os ideais acadêmicos que eu almejo ao escrever sobre o passado e o presente das pessoas são: tentar manter a neutralidade ética, colocar meus próprios preconceitos na estante e apresentar os fatos como eu os entendo, sem censurar o que descubro”. [1]

Respeitando todos os tipos de fé – os pesquisadores sendo fiéis, crentes, religiosos ou não. Podendo ser ela individual, coletiva, inata, interior, exterior, ou como diz Abraham Joshua Heschel: “a fé sendo um esforço acumulado ao longo de séculos”.

Quando criamos o grupo de estudos sobre morte e pós-morte, Maria Cristina Guarnieri e eu deixamos claro na nossa ementa que “este não é um grupo de apoio ao enlutado”. Mas, de certa forma, todos os grupos são. Não só de apoio – mas de entendimento e respeito. 

[1] O trecho citado está em língua inglesa e foi traduzido pela autora.

Referências bibliográficas

HEILMAN, Samuel C. Who will lead us? The story of five Hasidic dynasties in America. California: University of California Press, 2019.

HESCHEL, Abraham Joshua. Deus em Busca do Homem. São Paulo: Paulinas, 1975.

_______________. Man is not alone. A Philosophy of Religion. New York: Farrar, Straus and Giraux, 1976.

Imagem: Ladislav Kubeš/iStockphoto


Sobre o autor

Andréa Kogan

Formada em Letras, doutora em Ciências da Religião pela PUC-SP, pós-doutoranda em Ciências da Religião pela PUC-Minas, autora do livro “Espiritismo Judaico”, assistente acadêmica do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ, onde também coordena os grupos de pesquisa sobre Morte e Pós-Morte e Judaísmo Contemporâneo.