Cultura do consumo, sociedade e tendências

Emily in Bourdieu, 2020

Minha intenção é dar uma contribuição à sociologia das produções intelectuais, isto é, uma sociologia dos intelectuais e ao mesmo tempo à análise do fetichismo e da magia. Ainda aqui me dirão: “Mas por que não estudar a magia nas sociedades ‘primitivas’ e sim Dior ou Cardin?” Acho que uma das funções do discurso etnológico é dizer coisas que são suportáveis quando se aplicam a populações distantes, com o devido respeito que lhes temos, mas que são muito menos suportáveis quando as relacionamos às nossas sociedades. (Pierre Bourdieu)

Spoiler

Emily in Paris é uma produção original da Netflix, lançada em 2020, em plena pandemia. Antes mesmo de pensar em assistir, eu já sabia de tudo sobre a série – graças aos meus alunos amantes de spoiler. Resumindo, a série é sobre Emily, uma jovem norte-americana que é transferida para Paris com o intuito de fazer parte da equipe da empresa Savoir, comprada por um grupo norte-americano. Ela se convence e se dedica a levar uma perspectiva americana, e, portanto, mais popular, à empresa de perfumes de alto luxo que tem ojeriza à popularização dos seus perfumes. Nada fácil.

O que não conta o spoiler é que a série apresenta elementos pertinentes para a análise do conceito de campo em Bourdieu, e especificamente para a discussão proposta pelo autor em seu texto Alta Cultura, Alta Costura (1983).

Para Bourdieu, campo é um espaço de relações entre pessoas ou instituições que competem por um mesmo objeto. No caso da série, a discussão se dá no episódio que marca o desfile da marca de moda de luxo Pierre Cadault, que é uma clara e óbvia referência à marca Pierre Cardin.

O cancelamento do cancelamento de Pierre Cardault

 Já estão todos cancelando o cancelamento e esse não é esse o tópico aqui, mas, sim, o fato de que em um dos últimos episódios da primeira temporada, até o fashionista mais tradicional quase cancela o desfile na Fashion Week parisiense, por sentir-se incomodado pela provocação que os designers da marca Grey Space (que vende moletons por 900 euros) fazem à alta costura de Pierre Cadault.

Os designers são os caras do streetwear. No conceito de campo de Bourdieu, uma oposição à alta costura e à alta cultura:

A dialética da pretensão e da distinção que está na origem das transformações do campo e da produção é reencontrada no espaço dos consumos: ela caracteriza aquilo que chamo de luta da concorrência, luta de classes continua e interminável. (Bourdieu, 1983, pp. 154-161)

É a moda High-Low de Patricia Field que vence a disputa de campos e que oferece a possibilidade de repensarmos esse jogo interminável. High-low representa esse vazamento entre a alta cultura e a baixa cultura. Meus professores, na década de 90, achavam alienante ver alguém usando uma camiseta com a estampa de Che Guevara nas escolas. Acho que nada é mais delicioso do que ver uma camiseta estampada com a cara de Freud sendo vendida por R$39,90 na banquinha da marca de t-shirts Bendita Augusta.

Mas vamos ao spoiler final: Pierre Cadault se rende ao moletom, ao Ringarde. Recusa a manutenção da distinção. Enquanto os designers italianos lamentam. E a gente já pode comprar essa brincadeira na Internet [1]:

Se o Zeitgeist é ditado pela pandemia, a tendência é mesmo o Ringarde: a bolsa no formato de coração de Emily, a marca popular Vaga-Jeune, e o spray barato Champère. Tornar o extravagante acessível: esse é o lema de Emily. Esse é o vazamento possível entre campos.

Outras questões poderiam aprofundar o debate proposto aqui: o kitsch, a exploração da fast fashion, a cópia da cópia da cópia, Duchamp. Só que não.

Emily é um alento em tempos de pandemia. Embora produzida pelo já conhecido Darren Star, não é tão boa quanto Sex and the City. Também não chega aos pés de Girls. Mas oferece essa despretensiosa discussão sobre o lugar das marcas de luxo em tempos de redes sociais, pantufas e moletons.

Bourdieu questionava o meio acadêmico sobre a indignidade de estudar Dior e Cardin e afirmava haver lucros científicos ao se estudar cientificamente objetos indignos. Se tem algo que Emily nos ensinou, no seu embate com a cultura francesa e a alta costura, é que segue o questionamento. Por que não estudar Emily e Cadault?

[1] Inclusive, a camiseta referência à referência já está disponível e eu vou logo comprar.

Referências

EMILY IN PARIS. Criação: Darren Star. Netflix, 2020.

BOURDIEU, Pierre. Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983.

Imagem: intervenção sobre fotos de divulgação


Sobre o autor

Tatiana Amendola Sanches

Doutora em Ciências Sociais (UNICAMP), professora da ESPM e consultora em tendências. Pesquisadora do grupo de pesquisa Cultura do Consumo, Sociedade e Tendências, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.