Estudos sobre morte e pós-morte

Conhecendo o outro e a si mesmo no longo caminho do luto

Quando se fala em morte e, muito mais, se propõe a estudá-la, o primeiro pensamento que vem à cabeça das pessoas é que se trata de assunto mórbido, depressivo, alguém infeliz alimentando a dor causada por alguma grande perda. O que não se tem ideia é que, uma vez iniciados os referidos estudos, temos a grata surpresa que, na verdade, falar de morte é falar de amor, de vínculos afetivos, culminando com o desprendimento e entendimento de que “recordar um falecido é, pois, a obra de amor mais desinteressado, mais livre e mais fiel” (1) que existe, porque não existe coação e nem exigência, você simplesmente ama porque ama, como descobrimos com Kierkegaard.

Mas como compreender que a morte é, na verdade, a tradução simples e pura do amor libertador e desinteressado, se a morte de um ser amado nos atinge de forma cruel, impiedosa e devastadora, deixando um vazio para todo o sempre, nos acompanhando e espreitando, quase se tornando um velho amigo? Justamente o hiato entre a dor lancinante e a compreensão do amor desprendido é o tema deste estudo, o período indispensável para digerir a dor, aceitá-la, aprender a conviver com a ausência, pôr em ordem a revolução de sentimentos contraditórios que brotam em razão da perda do ser amado. O que não significa que não haverá dor…

Normalmente, a forma de lidar com o luto é através da fé, da espiritualidade, da religião; mas, sem qualquer juízo de valor sobre tais escolhas, surge a pergunta se é possível enfrentar o luto sem religião, sem crenças, sem magia, sem véus, sem sentidos ocultos, acompanhados – e porque não dizer amparados – tão somente por nossa fragilidade, nossa vulnerabilidade e inexorável solidão.

A resposta veio com Joan Didion, jornalista, ensaísta e escritora, de 86 anos, com prosa elegante, olhar afiado, pensamento límpido e de clareza ferina. Ela relatou, desde o momento revolucionário da década de 60, a contracultura e o movimento hippie, até a família Manson, os Panteras Negras, a guerra civil em El Salvador, o papel que Miami, cidade predominantemente latina, desempenhou na Guerra Fria e, “nos intervalos” desses trabalhos, escreveu romances e roteiros de cinema, estes em coautoria com seu marido, John Gregory Dunne, também escritor.

Didion falará sobre a dor da perda do ser amado apenas em 2005 e 2011, através de seus livros O ano do pensamento mágico (2) e Blue nights (3), ambos escritos em razão da morte de seu marido e sua filha, no curto intervalo de dois anos, e nos quais descreve como processou seu luto escrevendo, pois como ela mesma afirma, era a única coisa que sabia fazer.

Em O ano do pensamento mágico, Didion fala sobre a morte de seu marido no dia 30/12/2003, ao sofrer um ataque cardíaco fulminante à mesa onde tinham acabado de se sentar para o jantar, na sala do apartamento do casal em Nova York, após voltarem do hospital em que a filha – Quintana – estava internada em coma induzido, em razão de uma gripe grave que, na manhã do Natal, havia evoluído para uma pneumonia e choque séptico.

Como aprendeu desde criança que, em tempos difíceis, ela deveria ler, aprender, investigar e recorrer à literatura especializada, porque informação é controle, é dessa forma que irá processar seu luto, mesclando a análise médica/científica com literatura e poesia. A pesquisa possui tal abrangência que inclui um livro de etiqueta de Emily Post, Funerals, publicado em 1922 (4), que ensina como lidar com o comportamento do enlutado e seus sintomas físicos, como insuficiência do sistema endócrino, respiratório, cardíaco, os quais só foram posteriormente catalogados pela medicina.

Até então, a questão da morte está sendo tratada de forma analítica, com base em dados palpáveis, científicos e, mesmo, estatísticos, mas que são deixados para trás quando não é mais possível ignorar toda a dor da perda irrecuperável da pessoa amada. Joan Didion reconhece que a morte do marido levou qualquer conceito preestabelecido que tinha sobre a morte, doença, probabilidades, sorte ou má sorte, casamento, filhos, memórias, dor, a maneira que as pessoas lidam com o fato de que a vida acaba e como a sanidade é frágil; revendo e reavaliando tudo o que ocorreu.

A raiva começa a transparecer, lembrando o momento em que recebeu a notícia da morte do marido e foi classificada pela assistente social como uma mulher tranquila, o que tanto a feriu e incomodou: “o que uma mulher intranquila poderia fazer? Se descontrolar? Precisar de sedação? Gritar? Eu deveria não ter ficado calma?” (5)

Ou quando foi solicitada, pelo hospital, autorização para autópsia e doação de órgãos; ou quando lê a explicação de um professor de psiquiatria sobre as diferenças entre o luto normal e o luto patológico, no qual há a necessidade de manter vivo o ser amado que perdeu, e que seria o seu caso. Então, seu desejo é gritar, é ter mais que uma noite de lembranças e suspiros, é ter John de volta! E, ao relembrar como precisou passar sozinha a primeira noite após a morte de John, percebe que naquele momento teve início o ano do seu pensamento mágico…

“Pensamento mágico” é um termo antropológico em que, perante um desfecho terrivelmente doloroso, a mente começa a desenhar saídas, a fantasiar hipóteses alternativas, convencendo-se de que, se for mantido um pensamento por muito tempo e com muita força, o desastre ainda poderá ser revertido. Embora não acreditando em ressureição ou reencarnação, Didion acredita – consciente ou inconscientemente – que John poderia voltar, e como voltaria se seus órgãos, sapatos e roupas tivessem sido doados? Se sua morte se tornasse pública e o encanto quebrado?

Mas a realidade é inevitável, a morte tornada pública, velório realizado, ritos cumpridos e nada trouxe John de volta. Vencida a etapa em que apenas sofreu por sua perda (sofrimento é passividade) Joan Didion começa a lidar com o luto (que é ação), mas sempre preocupada em não cair na autopiedade, caminho fácil ao enlutado e que considera repulsiva, para, imediatamente em seguida, reconsiderar e entender que, “na verdade, quem sofre essa perda tem razões urgentes, até mesmo uma necessidade urgente, para sentir pena de si mesmo”(6).

Finalmente, Didion se dá conta de que não há culpados pela morte de John, que aconteceria de qualquer jeito, em razão da doença cardíaca diagnosticada desde 1987, quando os médicos o haviam alertado de sua condição de “candidato a uma catástrofe cardiovascular”. Mas esse foi um entre tantos assuntos que resolveram deixar adormecido, não dar a importância devida. E assim, usando seu poder de concisão aliado à emoção latente, define o objeto do seu livro, afirmando:

A vida muda rapidamente, a vida muda em um instante.
Você se senta para jantar e a vida que você conhecia termina” (7).

No livro Blue nights, que é praticamente a continuação do livro anterior, Didion relata a dor de perder a própria filha, Quintana, de 39 anos, que, após se recuperar da pneumonia e ir ao velório do pai, sofre uma queda no aeroporto e não resiste às consequências do traumatismo craniano. Ela só conseguirá falar sobre o assunto cinco anos após a morte da filha, citando Eurípedes: “Que maior sofrimento pode haver para os mortais do que ver seus filhos mortos” (8).

Entre lembranças tocantes e dilacerantes, fotos, bilhetes deixados por Quintana quando era criança ou seu diário escrito na adolescência, Didion tenta descobrir/entender as angústias, o medo do abandono, o medo da vida que a filha tinha. Paralelamente, já percebendo os sinais e limitações da velhice, percorre suas próprias angústias, incertezas e, principalmente, como não conseguimos enxergar o outro claramente, constatando a incapacidade do ser humano em conceber a morte, a doença ou, até mesmo, o envelhecimento, evento mais do que previsível da vida.

E, ao receber a notícia de que estavam fazendo ressuscitação cardiovascular e ter certeza de que a filha Quintana está morrendo, percebe que, lá fora, no mesmo instante, o verão está chegando ao fim, as luzes estão começando a escurecer e as noites azuis estão indo embora.

O fenômeno das noites azuis, que ocorrem em Nova York a partir do final de abril, são os crepúsculos mais longos, em que se percebe a proximidade do verão como uma promessa, dando a impressão de que o final do dia jamais chegará; e quando essa luz começa a diminuir, as noites azuis começam a se dissipar, percebe-se que o verão se foi. Esse é o sentimento de Joan Didion nesse momento, o final da promessa e a chegada da realidade, da enfermidade, da velhice e, com ela, a fragilidade e dependência, e se pergunta: “terei acreditado que as noites azuis pudessem durar para sempre?

A questão que as obras de Didion nos apresenta é a de quanto nos custa e nos assusta ouvir a verdade que teremos que enfrentar, a impotência diante do que está para ocorrer, a humilhação de nos reconhecermos limitados e incapazes. Jean-Yves Leoup, no livro A arte de morrer, escrito em parceria com Marie de Hennezel (9), explica que o mundo em que vivemos não nos ensina a morrer, tudo é feito para esconder a morte, para incitar-nos a viver sem pensar nela, em termos de um projeto, como se estivéssemos voltados para objetivos maiores a serem alcançados e apoiados em valores de efetividade. E, como temos medo do desconhecido e não sabemos lidar com essa situação, fingimos ânimo e esperança, acreditando que tudo será resolvido com “alegria”, com a força do pensamento, “energia” e outras pérolas, evitando o assunto principal, a proximidade da morte. O doente, por sua vez, com o mesmo medo do desconhecido, preocupado com as pessoas que deixará, dos assuntos inacabados, acaba agindo da mesma forma, finge acreditar no que dizem, e o sofrimento de cada um aumenta na mesma proporção da solidão que sentem.

A dor do luto nos machuca, nos humilha, nos lembra que não somos onipotentes, que tudo passa, que tudo muda, que nem sempre teremos ao nosso lado aquele que amamos. Por isso, o momento da morte é um aprendizado, um exercício para perder o medo de ouvir o doente, ir ao encontro do outro tão profundamente quanto possível, de penetrar no âmago de seus valores e preocupações, a fim de permitir que encontre sua própria resposta íntima, acolhendo sua dimensão espiritual e se calar. Controlar a própria ansiedade e desejo de ver refletido, no outro, nós mesmos, nossos valores e crenças, para apenas acolher, ouvir, transmitir a segurança de que não será abandonado, o que se resume em presença, escuta e confiança.

E é o que Joan Didion aprende, instintivamente, diante da pergunta da filha em um dos momentos em que recobrou os sentidos após uma de tantas cirurgias sofridas, sobre quando iria embora, ao responder “só irei embora quando puder sair daqui com você.” Quintana se acalma e volta a adormecer. E, assim, sempre repete à filha,“eu estou aqui, está tudo bem”, ou “você está a salvo, mesmo tendo plena consciência da sua total impotência, de que pai algum possui tal capacidade de proteger o filho, e apenas fica com ela. A filha permanece calma até o desfecho fatal.

No final desse caminho tortuoso, compreende-se que não sabemos nem uma ínfima fração do que havia para saber do outro, que se erros houve, estes foram decorrentes dos nossos medos, ansiedades e fragilidades, que nos cegam, porque estamos perdidos em nossas angústias, e a própria Didion conclui:

Somos seres mortais imperfeitos, conscientes dessa mortalidade, mesmo quando a negamos, traídos por nossa própria complexidade, tão incorporada que quando choramos a perda de seres amados também estamos chorando, para o bem ou para o mal, por nós mesmos. Pela perda daquilo que éramos. Do que não somos mais. Do que um dia não seremos de todo” (10).

Ao descrever em seus livros todo o vazio, a saudade, a dor e a angústia diante da perda de seus entes amados, tentando colocar em ordem essa explosão de sentimentos, ora se revoltando, ora explicando, permite que o amor desprendido e livre que tem por seu marido e filha desabroche, sabedora de que a dor é inevitável, mas o amor prevalece. E é desse amor que Kierkegaard fala no seu discurso A obra de amor que consiste em recordar uma pessoa falecida (11), um ato de amor sincero, desprendido, pleno, porque não pode receber nada em troca, não há recompensa, não há compensação, daí ser um ato generoso, porque também não há coações, ama-se simplesmente. E a conclusão alcançada por Didion reflete exatamente esse amor, ao dizer:

Sei porque tentamos manter vivos os mortos: tentamos mantê-los vivos para que permaneçam conosco.
Também sei que, se quisermos viver, chega um momento em que temos que nos libertar dos mortos, deixá-los ir, deixá-los mortos.
Deixar que se tornem uma fotografia sobre a mesa.
Deixar que se tornem um nome nas contas fiduciárias.
Deixar que sejam levados pela água.
Saber disso não faz com que seja nem um pouco mais fácil deixar que sejam levados pela água” (12).

(1) KIERKEGAARD, Soren A. A obra de amor que consiste em recordar uma pessoa amada já falecida. In: As Obras do Amor. 4ª edição. Petrópolis. Ed. Vozes. 2005. p. 399

(2) DIDION, Joan. O ano do pensamento mágico. Rio de Janeiro. Ed. Harper Collins. 2018

(3) DIDION, Joan. Blue nights. Rio de Janeiro. Ed. Harper Collins. 2018

(4) POST, Emily. Funerals, 1922. Cap. XXIV. Citação em DIDION, Joan. O ano do pensamento mágico. Rio de Janeiro. Ed. Harper Collins. 2018. p. 64.

(5) DIDION, Joan. O ano do pensamento mágico. Rio de Janeiro. Ed. Harper Collins. 2018. p. 22.

(6) DIDION, Joan. O ano do pensamento mágico. Rio de Janeiro. Ed. Harper Collins. 2018. p. 202.

(7) DIDION, Joan. O ano do pensamento mágico. Rio de Janeiro. Ed. Harper Collins. 2018. p. 1.

(8) DIDION, Joan. Blue nights. Rio de Janeiro. Ed. Harper Collins. 2018. p. 19

(9) HENNEZEL, Marie de; LELOUP Jean-Yves. A arte de morrer: tradições religiosas e espiritualidade humanista diante da morte na atualidade. 11ª. edição. Petrópolis: Vozes. 2018.

(10) DIDION, Joan. Blue nights. Rio de Janeiro. Ed. Harper Collins. 2018. p. 207

(11) KIERKEGAARD, Soren A. A obra de amor que consiste em recordar uma pessoa amada já falecida. In: As Obras do Amor. 4ª edição. Petrópolis. Ed. Vozes. 2005.

(12) DIDION, Joan. Blue nights. Rio de Janeiro. Ed. Harper Collins. 2018. pp. 235/236

Imagem: AntonioGuillem/iStock

Sobre o autor

Maria Cristina Navarra

Advogada pela PUC-SP, graduada em História pela USP e pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Morte e Pós-Morte do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.