Arte Sacra Contemporânea: Religião e História

A educação do olhar por meio da beleza

O tempo presente é marcado, socialmente e virtualmente, pelos efeitos da pandemia global da COVID 19, em que tivemos a vida, trabalho, ações e pensamentos afetados de forma intensa, nunca sentida por nossa geração. De cada lar, assiste-se aos desdobramentos dramáticos de uma crise sanitária e humanitária globais, as quais escancaram traços bem visíveis de injustiça, ódio, falta de compaixão e empatia. Por outro lado, observamos o nascimento de iniciativas de solidariedade, criativas e surpreendentes, desafiando positivamente a gravidade e os perigos da pandemia.

Sentimos na pele o encurtamento das distâncias proporcionado pela internet, e sua ampla capacidade de conectar, que abriu oportunidades de trabalho, estudos e de valorização da cultura e da arte. De alguma forma, percebemos, em maior ou menor grau, a valorização ainda maior da dimensão visual da comunicação e a aceleração na produção de conhecimento por meio de conteúdos múltiplos e em diversos níveis. Essa realidade não escapa ao âmbito político, o qual se vale e instrumentaliza o uso das imagens, e da mídia em geral, como instrumento de exercício de poder, por vezes, não de maneira positiva.

Neste cenário diverso, cabe retomar o conceito de “sociedade do espetáculo” cunhado pelo escritor marxista francês Guy Debord (1931-1994). Para o escritor, o espetáculo se caracteriza como o conjunto das relações sociais mediadas pela imagem, não podendo descartar dentro dessas a intrínseca ligação com a produção e o consumo, além da interdependência entre o processo de acúmulo de capital e o acúmulo de imagens.

Muito além das relações sociais e de mercado, a era das imagens, marca a intersubjetividade e disso nascem questões como: qual o alcance e o domínio da imagem? Desse questionamento nasce o conceito de “iconofagia”, do brasileiro, escritor e teórico da comunicação Norval Baitello Junior (1949 -). Segundo o autor, a imagem, para além da relação prazerosa e aparentemente tranquila, pode nos roubar a visão, dominar o corpo, manipular a mente e o imaginário. A iconofagia se constitui como um processo em que ora as imagens devoram os homens, ora eles as devoram, por vezes, simultaneamente.

A sociedade contemporânea é caracterizada, segundo Guy Debord, como sociedade do espetáculo e, conforme Norval Baitello, ela é marcada pela iconofagia. Entretanto, para além do contemporâneo, a história da arte testemunha a intrínseca relação do ser humano com a imagem e a história da arte sacra, da relação do mesmo com o transcendente por meio da arte a serviço do culto. Nesse ínterim, todas as culturas, desde os primórdios da humanidade, são marcadas positivamente por expressões artísticas e manifestações estéticas.

A contemporaneidade, centrada e personificada no ser humano subjetivo, traço peculiar de um antropocentrismo exacerbado, produz novas formas de idolatria. A adoração idolátrica do ser humano por si mesmo, sobretudo por seu corpo, mortifica a capacidade de transcendência, bem como aquela do cuidado mútuo e com a casa comum, muito embora a transcendência e o cuidado também passem pelos sentidos. O contemporâneo, marcado pelo antropocentrismo levado às últimas consequências, também pode ser caracterizado como “sociedade do cansaço”, segundo o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han (1959 -), na qual o cansaço das relações afeta inclusive o “olhar”, além de marcar profundamente as relações interpessoais. Com isso, se faz ímpar uma nova alfabetização do olhar, ou mesmo uma reeducação do ato de olhar para além de “si mesmo”.

O belo, ou a beleza, não pode ser reduzido a um simples prazer dos sentidos, isso seria recusar a plena consciência da sua universalidade e de seu valor supremo, altamente transcendente. Nesse sentido, a percepção do belo pede uma educação, pois a beleza não é autêntica senão na sua relação com a verdade. Desse modo, “a beleza é a expressão visível do bem, do mesmo modo que o bem é a condição metafísica da beleza.”[1] Essa realidade marca “o mundo em que vivemos [o qual] tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, (…) traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração.”[2] Essa perspectiva constitui-se como Via Pulchritudinis, caminho da beleza, o qual:

permite transmitir a fé mediante sua capacidade de atingir o coração das pessoas, de exprimir o Mistério de Deus e do homem, de apresentar-se como autêntica “ponte”, espaço livre para caminhar com os homens e mulheres de nosso tempo, que sabem ou aprendem a apreciar o belo, e ajudá-los a encontrar a beleza do Evangelho de Cristo que a Igreja deve, por sua missão, anunciar a todos os homens de boa vontade.[3]

O caminho da beleza possibilita a fecunda evangelização das culturas, em vias de diálogo com a cultura pós-moderna, uma vez que o belo conduz à verdade e ao bem. Entretanto, o belo fala mais do que a verdade ou o bem e uma educação fundamentada no caminho da beleza “ajuda a desenvolver um espírito crítico em face da oferta da cultura da mídia e a plasmar sua sensibilidade e seu caráter para elevar e conduzir à maturidade.”[4] Essa intuição é fundamentada no Concílio Vaticano II, na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, e no desenvolvimento magisterial posterior, os quais sublinham a grande importância da literatura e das artes na vida do homem:

A literatura e as artes procuram dar expressão à natureza do homem, aos seus problemas e à experiência das suas tentativas para conhecer-se e aperfeiçoar-se a si mesmo e ao mundo; e tentam identificar a sua situação na história e no universo, dar a conhecer as suas misérias e alegrias, necessidades e energias, e desvendar um futuro melhor.[5]

Em nossa cultura marcada por um dilúvio de imagens frequentemente banais e brutais, quotidianamente despejadas pela televisão, filmes e videocassetes [hoje majoritariamente pela internet], uma aliança fecunda entre o Evangelho e a arte suscitará novas epifanias da beleza, nascidas da contemplação de Cristo, Deus feito homem, da meditação dos seus mistérios, da sua irradiação na vida da Virgem Maria e dos santos.[6]

Trilhar o caminho da educação do olhar por meio da beleza leva a buscar a beleza da criação, a beleza das artes e a beleza de Cristo, o qual se torna modelo e protótipo da santidade cristã. Francisco de Assis (1182-1226), o irmão universal, rezou em um dos versos de seus Louvores a Deus Altíssimo: “Tu és beleza!”[7], pois, conforme afirma São Boaventura (1221-1274) na Legenda Maior, o poverello “enxergava nas coisas bonitas Aquele que é toda Beleza e buscava por toda parte o Amado pelos vestígios impressos nas coisas, fazendo de todas as coisas uma escada para subir à apreensão daquele que é todo desejável.”[8]

Para concluir, corroborando com o mesmo caminho “estético” de Francisco de Assis, o Papa Francisco (1936 -) em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium – A alegria do Evangelho – reafirma e atualiza a importância da vida da beleza a serviço do Evangelho. Para o Pontífice,

anunciar Cristo significa mostrar que crer n’Ele e segui-Lo não é algo apenas verdadeiro e justo, mas também belo, capaz de cumular a vida dum novo esplendor e duma alegria profunda, mesmo no meio das provações. Nesta perspectiva, todas as expressões de verdadeira beleza podem ser reconhecidas como uma senda que ajuda a encontrar-se com o Senhor Jesus. Não se trata de fomentar um relativismo estético, que pode obscurecer o vínculo indivisível entre verdade, bondade e beleza, mas de recuperar a estima da beleza para poder chegar ao coração do homem e fazer resplandecer nele a verdade e a bondade do Ressuscitado. Se nós, como diz Santo Agostinho, não amamos senão o que é belo, o Filho feito homem, revelação da beleza infinita, é sumamente amável e atrai-nos para Si com laços de amor. Por isso, torna-se necessário que a formação na via pulchritudinis esteja inserida na transmissão da fé. É desejável que cada Igreja particular incentive o uso das artes na sua obra evangelizadora, em continuidade com a riqueza do passado, mas também na vastidão das suas múltiplas expressões atuais, a fim de transmitir a fé numa nova «linguagem parabólica». É preciso ter a coragem de encontrar os novos sinais, os novos símbolos, uma nova carne para a transmissão da Palavra, as diversas formas de beleza que se manifestam em diferentes âmbitos culturais, incluindo aquelas modalidades não convencionais de beleza que podem ser pouco significativas para os evangelizadores, mas tornaram-se particularmente atraentes para os outros.[9]

[1] JOÃO PAULO ll. Carta aos Artistas, 1999, 3.

[2] PAULO VI. Mensagem de Paulo VI aos artistas ao final do Concílio Vaticano II, 1965.

[3] ASSEMBLEIA PLENÁRIA DOS BISPOS. Via Pulchritudinis: o caminho da beleza, caminho privilegiado de evangelização e de diálogo. Tradução de Claudio Pastro. São Paulo: Edições Loyola, 2006, p. 14.

[4] ASSEMBLEIA PLENÁRIA DOS BISPOS, 2006, p. 18.

[5] CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Pastoral Gaudium et Spes, 1965, 62.

[6] CONSELHO PONTIFÍCIO DA CULTURA. Para uma Pastoral da Cultura, 1999, 36.

[7] Francisco de Assis, Louvores ao Deus Altíssimo, 5.

[8] São Boaventura, Legenda Maior 9, 7.

[9] PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. 2013, n. 167.

Imagem: Marko Ivan Rupnik (detalhe de mural na Catedral de Castanhal, Pará)/foto de Wilma Tommaso

Sobre o autor

Adriano Cézar Oliveira

icenciado em Filosofia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino. Especialista em História da Arte Sacra pela Faculdade Dom Luciano Mendes. Especialista em Ciências da Religião pela Faculdade Única. Bacharel e Especialista em Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino. Pesquisador do grupo A imagem de Deus: Religião, História e Arte do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.