Nelson Rodrigues: literatura, filosofia e religião

Da delicadeza à barbárie

Era uma vez um famoso conde! Conde Hermann de Keyserling (1880-1946) foi um filósofo alemão, fundador da Escola de Sabedoria (1919), a qual tinha como objetivo a vinculação entre alma e espírito, acentuando que queria dizer em primeiro lugar uma humanização ao mais alto nível, e não um aumento de saberes. Keyserling é conhecido mundialmente graças ao sucesso dos seus vários livros de viagens e análises do que observava e compreendia. Em 1929, foi convidado a expor suas ideias no Brasil. Quase quarenta anos depois, ele foi mencionado por Nelson Rodrigues num conto de 23/07/1968, “O ceguinho da rua do Ouvidor”. Nelson se encontrava numa festa, conversando com Aloysio Salles, e este contou que o conde de Keyserling era um príncipe do espírito, de uma lucidez desesperadora, mas que, quando de sua visita ao Brasil, já se encontrava no tédio da própria inteligência e também não queria pensar. Entretanto, mesmo assim, com três ou quatro dias aqui, pediram a tão fino espírito uma palavra tão sábia que definisse nosso país. Diz Nelson:

Vejam vocês: — uma palavra que, num golpe fulminante, explicasse os usos, costumes, valores, sentimentos de um país desconhecido. Mas o conde de Keyserling era um dos tais que não dizem um “bom-dia” sem lhe pingar gênio. Pensativo, aproximou-se da sacada do hotel. E, por um momento, deixou-se ficar silencioso, meio alado, só́ olhando. Embaixo, passava a multidão com algo de fluvial no seu lerdo escoamento. Eis o que via o conde: — todo mundo cumprimentava todo mundo (ainda usávamos o instrumento da reverência que é o chapéu). E o ilustre visitante percebeu que ninguém, assim na terra como no céu, cumprimenta tanto quanto o brasileiro. Virou-se para a imprensa: — “Já́ tenho a palavra”. Os jornalistas, aflitos, apuraram as orelhas. E Keyserling deixou cair a palavra como uma flor: — “Delicadeza”.[1]

E Nelson continua, “delicado o Brasil, delicado o brasileiro. E, assim, numa palavra fugaz, o conde pretendia ter feito a insuperável síntese do Brasil”.

Quase quarenta anos depois de o conde proferir sua definição, ali estava o Aloysio Salles, conversando com Nelson e “temendo pela sorte da delicadeza nacional. Certos gestos e certos fatos o aterravam. E ele começava a ver, aqui e ali, numa notícia de jornal ou numa conversa de esquina, sintomas do anti-Brasil. Está-se deteriorando a bondade brasileira; de quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza”.

A ditadura fincou suas garras e fez sangrar um povo que não podia mais falar, nem cantar, nem atuar, nem escrever, nem ensinar, nem debater, nem sonhar… Lembra Nelson o que veio ainda depois: o episódio miserável em São Paulo, em que o teatro foi invadido no fim de um espetáculo de Roda Viva e todos os presentes, famílias e elenco, foram espancados.

Os bárbaros estraçalhavam os vestidos. Fraturaram, a cacetadas, a bacia do contrarregra. Uma das atrizes, despida e pisada, gritou: — “Estou grávida! Estou grávida!”. Sua gravidez foi massacrada. Desde a Primeira Missa, nunca se viu, aqui, indignidade tamanha. Um amigo meu veio dizer-me: — “Isso não é o Brasil! Isso nunca foi o Brasil!”. E, de repente, começamos a sentir que o Brasil deixou de ser o Brasil. Estamos sendo esmagados pelo anti-Brasil.

E o anti-Brasil se adentrou de norte a sul, de leste a oeste. Os horrores vividos nos longos anos de ditadura expulsaram a delicadeza de um povo; mas algumas utopias sustentaram a não morte. Alguns vislumbres de Brasil puseram fim aos desmandos; a esperança renasceu, a liberdade recomeçou a ganhar voz. Povo ainda calejado, mal tateando novas construções quando, repentinamente, se depara com a barbárie instalada com a eleição de um desgoverno, sustentado por fake news. A sociedade se dividiu em polaridades, famílias se destruíram, amizades se desfizeram, o caos mostrou seus horrores.

Em 1932, numa carta à Freud, Por que a Guerra?, Einstein indaga “É possível controlar a evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova das psicoses do ódio e da destrutividade?”[2] Entre suas muitas argumentações, Freud enfatiza sua hipótese das duas pulsões humanas: vida e morte.

Aqueles que tendem a preservar e a unir — que denominamos ‘eróticos’, exatamente no mesmo sentido em que Platão usa a palavra ‘Eros’ em seu Symposium, ou ‘sexuais’, com uma deliberada ampliação da concepção popular de ‘sexualidade’ —; e aqueles que tendem a destruir e matar, os quais agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo. […] isto não é senão uma formulação teórica da universalmente conhecida oposição entre amor e ódio. […] Entretanto, não devemos ser demasiado apressados em introduzir juízos éticos de bem e de mal.[3]

Para o criador da psicanálise, nem a pulsão de vida, nem a pulsão de morte é menos essencial do que a outra, pois os fenômenos da vida surgem da ação confluente ou mutuamente contrária de ambas. Esse amarramento amalgamático nos diz de uma operação que dificilmente se dá por uma pulsão isolada, mas, pelo contrário, está sempre acompanhada. “Assim, por exemplo, o instinto de autopreservação certamente é de natureza erótica; não obstante, deve ter à sua disposição a agressividade, para atingir seu propósito. Dessa forma, também o instinto de amor, quando dirigido a um objeto, necessita de alguma contribuição do instinto de domínio, para que obtenha a posse desse objeto. A dificuldade de isolar as duas espécies de instinto em suas manifestações reais, é, na verdade, o que até agora nos impedia de reconhecê-los.”[4]

Nas incitações à guerra, diz Freud, pode haver toda uma gama de motivos (nobres, vis, alguns francamente declarados, outros jamais mencionados), e entre eles está certamente

o desejo da agressão e destruição: as incontáveis crueldades que encontramos na história e em nossa vida de todos os dias atestam a sua existência e a sua força. A satisfação desses impulsos destrutivos naturalmente é facilitada por sua mistura com outros motivos de natureza erótica e idealista. Quando lemos sobre as atrocidades do passado, amiúde é como se os motivos idealistas servissem apenas de escusa para os desejos destrutivos; e, às vezes — por exemplo, no caso das crueldades da Inquisição — é como se os motivos idealistas tivessem assomado a um primeiro plano na consciência, enquanto os destrutivos lhes emprestassem um reforço inconsciente. Ambos podem ser verdadeiros.[5]

Sendo impossível eliminar totalmente os impulsos agressivos do ser humano, Freud propõe “tentar desviá-los num grau tal que não necessitem encontrar expressão na guerra”, mas contrapor à pulsão de morte seu antagonista, Eros – que pode se desdobrar por dois vínculos emocionais: o amor, ‘Ama a teu próximo como a ti mesmo’, e a identificação. “Tudo o que leva os homens a compartilhar de interesses importantes produz essa comunhão de sentimento, essas identificações. E a estrutura da sociedade humana se baseia nelas, em grande escala”.[6]

Segundo Freud, a situação ideal para a comunidade humana seria a subordinação da sua vida instintual ao domínio da razão. “Nada mais poderia unir os homens de forma tão completa e firme, ainda que entre eles não houvesse vínculos emocionais. No entanto, com toda a probabilidade isto é uma expectativa utópica. Não há duvida de que os outros métodos indiretos de evitar a guerra são mais exequíveis, embora não prometam êxito imediato. Vale lembrar aquela imagem inquietante do moinho que mói tão devagar, que as pessoas podem morrer de fome antes de ele poder fornecer sua farinha.”[7]

Nelson Rodrigues, em sua sagacidade sobre a alma humana, assinala que pouco amor não é amor. Ele também nos leva a inferir que a viagem mais difícil e incomensuravelmente mais distante é aquela que leva o sujeito ao encontro de um outro – aparentemente alhures, mas que, sendo espelho de si mesmo, pode levar às “fronteiras da alucinação” (cf. conto, “A viagem” – O Globo,29/03/1968).

Era uma vez o ser humano…

Referências

FARIA, Daniel, “As meditações americanas de Keyserling – um cosmopolitismo nas incertezas do tempo”, em:
http://www.scielo.br/pdf/vh/v29n51/v29n51a13.pdf (acesso: 25/10/2020).

FREUD, Por que a Guerra? Indagações entre Einstein e Freud (cartas)
https://moodle.ufsc.br/pluginfile.php/1033690/mod_resource/content/1/Aula%2B026%2B-%2BFreud%2B%2BEinstein.pdf, p. 2 (acesso: 26/11/2020).

RODRIGUES, Nelson. O óbvio ululante. Contos: “O ceguinho da rua do Ouvidor” (de 23/07/1968) e “A viagem” (de 29/03/1968).

Notas

[1] RODRIGUES, Nelson. O óbvio ululante. O ceguinho da rua do Ouvidor.

[2] https://moodle.ufsc.br/pluginfile.php/1033690/mod_resource/content/1/Aula%2B026%2B-%2BFreud%2B%2BEinstein.pdf, p. 2 (acesso: 26/11/2020).

[3] Idem, p. 7.

[4] Idem, p. 7.

[5] Idem, p. 7s.

[6] Idem, p. 9.

[7] Idem.

Imagem: The Fall of the Rebel Angels (Pieter Bruegel, 1882) / Royal Museums of Fine Arts (Bélgica)

Sobre o autor

Maruzania Soares Dias

Mestre em Ciências da Religião (PUC-SP); psicóloga (PUC-SP); psicanalista, membro da IF-EPFCL (Internacional dos Fóruns - Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano); membro fundador do instituto Acolher - ITA; pesquisadora do Grupo de Pesquisa Nelson Rodrigues: Literatura, filosofia e Religião e coordenadora do Grupo de Pesquisa A Experiência Mística e o Conhecimento: amor, desejo, sofrimento e êxtase, ambos do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.