Sala Michael Oakeshott

A Conduta Racional, segundo Michael Oakeshott

A conduta racional

O ensaio Rational Conduct (RC)* foi divulgado depois do clássico Rationalism in Politics, o que nos permite inferir que o destacado intelectual inglês aprofunda conceitos expressos em produção anterior. Professor de história e filosofia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, propõe-se a dissecar o uso das palavras razão e razoável: “O filósofo pode desemaranhar e o historiador pode contar a história das ambiguidades e categorias de verdade e erro”. Michael Oakeshott (MO) procura um modo satisfatório de usar a palavra racional em relação a uma conduta, além de explorar o território que se desvenda ao longo desse processo, tanto na perspectiva histórica como filosófica.

A reflexão sobre o tema é distribuída em nove seções. Neste registro apresentamos um resumo do ensaio elaborado a partir da identificação das noções dominantes em cada seção e concluímos com a identificação do verbo “to spring” como um conceito chave na construção do raciocínio deste autor. Nos comentários finais, consideramos o impacto das ideias apresentadas pelo autor sob a perspectiva dos conhecimentos veiculados no campo da administração.

Resumo

Na primeira seção, Oakeshott explora o uso do termo racional como atributo de uma conduta que não envergonha o seu autor, uma qualidade louvável, um modo de comportamento por meio do qual seu autor alcança o que pretendia. Consequentemente, agir de forma racional é agir de forma inteligente. Em contraposição ao lunático, cujo comportamento é categorizado como irracional.  

A segunda seção apresenta a primeira referência a algum trabalho anterior sobre o tema: Reason and Unreason in Society, escrito pelo sociólogo premiado pela academia britânica Morris Ginsberg. Nesta perspectiva, a racionalidade da conduta provém de um objetivo que a antecede para obtenção de um resultado a ser alcançado no final. O resultado pode ser externo ou mesmo o prazer da própria conduta, como praticar um esporte, ou jogar. Racional é algo deliberado, premeditado, direcionado pelo objetivo. Daí a necessidade de formular o objetivo com precisão:

A atividade racional é uma atividade em busca de uma resposta certeira e conclusiva para uma questão, e consequentemente, a questão precisa ser formulada de tal forma que só admita esse tipo de resposta. (RC, p.103)

Ressalta-se a importância da disponibilidade dos meios necessários para alcançar o objetivo dado, assim como a necessária existência de poder para detectar e apropriar-se destes bens. Consequentemente, a conduta racional não compreende apenas a predeterminação de um objetivo, mas também uma projeção de meios a serem empregados para atingir tal objetivo. Como modo de comportamento, para MO, a conduta racional não é prática da maioria das pessoas, mas pode se apresentar como algo bem menos disciplinado. Segundo essa perspectiva, as pessoas são capazes de raciocinar, contemplar proposições e ordená-las, e mais, exercitam o poder ao definir objetivos e meios. Supõe-se que a mente, um instrumento independente e neutro, possa ser separada de seus conteúdos e atividades. A conduta racional emerge do exercício de poder da mente.

A constatação de que o modo de comportamento descrito, embora comum entre os filósofos, apresenta uma falsa teoria do comportamento humano é conteúdo dominante da terceira seção. Esse modo de comportamento “não é apenas indesejável, na verdade, ele é impossível. Os homens não se comportam dessa forma porque não conseguem.” (RC, p. 108).

Se fosse necessário escolher a palavra dominante da quarta seção, a palavra mente seria forte candidata. Nessa parte do texto, MO disseca a ficção de que a mente ou inteligência conduzem a atividade humana. Ele julga errada a ideia da mente como um equipamento para pensar:

A mente, como sabemos, é um fruto do conhecimento e da atividade; é integralmente composta por pensamentos. Você não tem primeiro uma mente que é preenchida com ideias e depois faz distinção entre o verdadeiro e o falso, o certo e o errado, o razoável e o irracional e depois, num terceiro passo, origina a atividade (RC, p. 109)

MO busca as origens dessa fantasiosa noção de racionalidade, comumente associada à convicção de que a honestidade mental, o desinteresse, a ausência de preconceitos são virtudes intelectuais altamente valorizadas.

Na quinta parte do ensaio emergem a tradição e os costumes sociais como elementos essenciais na solução de problemas que envolvem opiniões, que não têm resposta única. Há problemas excessivamente complexos, vinculados a um tempo e local, para os quais não existem respostas certas. Para ilustrar, MO nos conta uma história ocorrida no final do século XIX, na Inglaterra, sobre um grupo de designers que enfrentou o desafio de propor uma vestimenta racional para mulheres andarem de bicicleta.

Considerada necessária a adequação aos costumes sociais e à tradição para a resolução de problemas complexos, a sexta seção do ensaio destaca a importância da atividade em si,sempre inserida em uma sequência, projeto e campo profissional no qual a conduta a ser tomada como racional está imersa. MO argumenta que qualquer pessoa pode observar que a origem e o governo de suas ações são calcados nas suas habilidades, seu conhecimento e no seu modo de desenvolver seus negócios. Se esta observação está correta, quaisquer aparências contrárias nem envolvimento presente algum pode emergir ou ser governado por um objetivo predeterminado, uma vez que os problemas a serem equacionados, ou os projetos selecionados e o curso de ação já estão escondidos na atividade e são expressos (ou abafados?) por um processo de abstração. Em resumo, MO afirma que é necessário ter determinados conhecimentos para formular questões adequadas em diferentes campos, e nega a possibilidade de que as atividades comecem pelos seus objetivos.

A palavra dominante da sétima seção é idioma.Por idioma da atividade MO compreende um conhecimento sobre como se comportar apropriadamente em determinadas circunstâncias. A atividade científica é a exploração do conhecimento de cientistas sobre como formular e responder questões específicas. Uma atividade moral é a exploração do conhecimento que temos sobre como nos comportar bem. As questões e os problemas, em cada caso, emergem do conhecimento que nós temos sobre como solucioná-los, que emerge da própria atividade. Penetramos o idioma de uma atividade por meio da prática. Começamos com o que sabemos sobre a ciência ou a moral – se não soubéssemos de nada, não teríamos por onde começar. Consequentemente, a conduta racional pode ser definida como agir de forma coerente ao idioma da atividade à qual a conduta pertence, de tal modo que esse idioma seja mantido ou mesmo melhorado.

Dessa noção decorrem implicações: 1) nenhuma conduta ou série de atos pode ser classificada como racional ou irracional sem uma relação com o idioma da atividade; 2) a racionalidade é algo que vem sempre depois, além e não antes ou atrás; 3) uma atividade, como um todo, não pode ser considerada racional ou irracional sem considerar todos os idiomas de atividades que abarcam o universo da atividade considerada.

A atividade científica é o foco da oitava seção. MO destaca que a coerência dessa atividade está no modo em que o cientista conduz a investigação, nas tradições da pesquisa científica. Desta forma, a conduta de um cientista pode ser designada racional em respeito à lealdade às tradições da pesquisa científica. Importante destacar que essas tradições não são fixas ou acabadas.

Considerações sobre a atividade moral dominam a última parte do texto. MO relaciona a conduta humana à energia, algo que aparece como apetite ou desejo. Não se trata de um querer indiferenciado, mas de certo modo de querer. Porém, o desejo não é a causa da atividade. De certa maneira, desejo é atividade (RC, p. 124). Ele nega a ocorrência de uma sequência linear entre desejo e atividade e ilustra com ações quase automáticas (pedir uma informação, ver um painel de horários):

Nós não temos primeiro um desejo e depois nos organizamos para satisfazê-lo: os objetos de nossos desejos são conhecidos durante a atividade de procurá-los. (RC, p. 125)

Além disso, o filósofo nega a possibilidade de que um desejo possa surgir de algo extrínseco, como a apresentação do objeto. MO considera que atividades em torno do desejo também estão imersas em um idioma, e nosso conhecimento desse idioma se revela pela nossa habilidade de gerenciar a atividade de desejar.

Na vida social, alguns desejos são aprovados e outros desaprovados, uns percebidos como certos e outros como errados. Essa aprovação ou desaprovação não provém de princípios estabelecidos ou regras claras. A aprovação também não provém de algum fim estabelecido da atividade. Resumindo: “o julgamento moral não é algo que proferimos antes ou depois, mas no decorrer da nossa atividade moral”. (RC, p. 126)

A atividade humana tem um padrão inerente. Os elementos desse padrão podem ser designados por costumes, tradições, instituições, leis, etc. Esses padrões não são a expressão da coerência, mas a própria coerência. Eles são a essência do nosso conhecimento sobre como nos comportar. A atividade moral começa (se for possível dizer que começa em algum lugar) na coerência. Nós começamos com o conhecimento de como nos comportar.

Nos parágrafos seguintes, ele diferencia as atividades morais em situações habituais daquelas em situações extremas, como guerras e epidemias. Em síntese, para Michael Oakeshott, nenhuma ação é em si racional, nem em relação ao que vem antes ou depois: é sua posição no fluxo da simpatia, na corrente da atividade moral que lhe atribui racionalidade. Em outras palavras: nenhum comportamento ou atitude pode ser considerado racional ou irracional por si. A conduta humana pode ser considerada racional quando ela demonstra um tipo de inteligência apropriada ao idioma ao qual a atividade está relacionada.

Se existe uma palavra dominante no ensaio que expressa um conceito-chave no raciocínio de MO, é possível que seja o verbo “to spring”,expressando a noção de que a racionalidade é algo que emerge, aparece, nasce durante o fluxo da atividade humana.

Sob a perspectiva da administração

Muitas das ideias defendidas por MO contradizem conceitos consagrados no universo da administração, no qual o planejamento é caracterizado como etapa primeira e essencial do trabalho gerencial. Na administração, planejar implica definir os objetivos da atividade, às vezes até com muito preciosismo, antes de sua execução. Parte-se do pressuposto de que é possível replicar o sucesso de experiências anteriores, projetar e controlar variáveis, seguir roteiros e replicar métodos previamente testados e validados.

É certo que, dependendo da natureza da atividade, os objetivos a serem alcançados podem ser desde muito específicos até muito genéricos ou abrangentes, como ocorre na gestão de atividades na área social. Em todos os casos, o trabalho gerencial requer a explicitação de metas e acompanhamento de resultados. Vale lembrar que, nesse universo, o uso do termo racional, como atributo de uma conduta ou desempenho, está frequentemente associado à busca de produtividade, obtenção de ganhos em escala e/ou redução de custos.

O confronto das ideias apresentadas neste ensaio, elaborado na perspectiva da conduta do indivíduo com as noções de racionalidade difundidas pelas escolas de administração, pode fornecer elementos valiosos para os estudos organizacionais.

*Obra citada: OAKESHOTT, Michael Joseph. Rational conduct. In: Rationalism in politics and other essays. New and Expanded Edition, Liberty Fund, Carmel, Indiana, United States, 1991. pp 99-131

Sobre o autor

Ruth Steuer

Mestre e Doutora em Serviços de Saúde na Faculdade de Saúde-Pública da USP. Pós-Doutorado em Estudos Organizacionais na EAESP – FGV. Integrante do Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

Sobre o autor

Alex Strum

Engenheiro formado pela Politécnica da USP, com especialização em Administração de Empresas pela FGV. Pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.