Nelson Rodrigues: literatura, filosofia e religião

Nelson Rodrigues e a Cultura do Cancelamento

Desde os primórdios, o homem tende a criar expressões e nomenclaturas para classificar os comportamentos cotidianos. Temos rótulos para praticamente tudo: se uma criança é agitada, ela é “hiperativa”; se tenho uma prática religiosa e me julgo portador de uma conduta moral íntegra, sou um “cidadão de bem”; se sou distraído, deve ser por causa do “tdh”. Porém, no ano de 2020, podemos dizer que o ser humano se superou com a ascensão da “cultura do cancelamento”. Mas o que viria a ser isso?

Iniciada há alguns anos, esta mobilização teve por objetivo chamar atenção para causas sociais, busca por justiça e prevenção ambiental. Seria uma forma de potencializar a voz de grupos oprimidos e, consequentemente, forçar ações políticas de marcas e figuras públicas.

Através das redes sociais, um usuário posta um registro (foto ou vídeo) de algo que considera errado, marca a empresa/pessoa física envolvida na questão, juntamente com autoridades públicas e outros influenciadores digitais, para que assim sua publicação atinja um amplo alcance. Em poucas horas, este post pode alcançar milhares de pessoas. Desde uma apropriação cultural a condutas criminosas e passíveis de punição, o cancelamento existe para qualquer desaprovação de conduta com o intuito de difamar a reputação de algo ou alguém.

Os cancelamentos têm os mais variados motivos, mas o principal deles é o conflito de opiniões ou a denúncia de uma conduta reprovável, muitos envolvem até crimes. Eles podem ser passageiros, temporários, definitivos ou não. Em outras palavras, tudo dependerá do grau de exposição e erro cometido. (Siarom, 2020).

O mais grave, porém, é que os juízes ferozes da internet evoluíram para outro patamar: figuras históricas estão sendo revividas para discussões e cancelamentos a posteriori. Um exemplo é o filme “E O Vento Levou”, de 1939, que teve seu legado comprometido sob alegação de racismo. A régua-canceladora não perdoou nem a figuras ou personagens de outras épocas, muitas das vezes desconsiderando os contextos históricos nos quais eles estão inseridos.

Nesse debate, alguns apontam para o lado positivo da cultura do cancelamento, alegando que o processo pode ajudar a levantar a voz de alguém e dar forças para a resolução de um conflito que não conseguiria ser sanado caso a suposta vítima estivesse só. Mas esse massacre virtual não tem regras. Em outras palavras, não tem ideologia, lado, classe ou gênero. Assim, ele é feito por todos e atacado por todos, e todo mundo pode ser atingido – porém o problema nem sempre é resolvido. A disputa política em torno da “cultura do cancelamento” deve ser longa e aguerrida. E a crítica a alguns de seus efeitos tem criado uma rara sintonia entre partes da esquerda e da direita.

Creio que o grande perigo desta “cultura” é o de manter as pessoas presas em bolhas de iguais, ou seja, em grupos onde não há espaço para reflexões, considerações e debates que a diversidade humana nos apresenta. Assim, nos deparamos com um número crescente de adultos infantilizados, mais confortáveis, com menos sensação de falta e pouquíssimo espaço para diálogo e reflexão.

Em um vídeo publicado no seu canal do YouTube, “A cultura do cancelamento na internet”, Pondé cita esta cultura na obra de Nelson – presente no linchamento das adúlteras – mostrando que o ser humano sempre teve este tipo de comportamento. Mas não farei uma análise sobre isto dentro da obra de Nelson, que certamente dariam belas resenhas sobre a natureza humana e seus desdobramentos.

Uma das questões sempre levantadas em nosso grupo é a de como seria a reação das pessoas caso Nelson tivesse publicado sua obra na atualidade. Cito algumas passagens do livro trabalhado, “O óbvio ululante”, para refletirmos:

  • “Eis a verdade – tenho medo do morto ilustre. A visitação, que não pára, é tão sem amor! Olho a curiosidade frívola dos que vão espiar o morto” (p. 31)
  • “… saí de lá certo de que o grande homem é o menos amado dos seres. O homem não nasceu para ser grande” (p. 34)
  • “E, de fato, é num bate-boca que nasce, na mulher, a vontade de trair. Na seguinte discussão, o adultério toma a forma de uma utopia reparadora. As famílias dizem: – “Isso passa! Isso passa!” Não. Os bate-bocas não passam e repito: os bate-bocas ficam enterrados, na carne e na alma, como sapos de macumba” (p. 44)
  • “E aqui começa o mistério que desafia todo o meu raciocínio e toda minha intuição. Do dia para a noite o semianalfabeto aprendeu não sei quantos idiomas” (p. 46)
  • “Eis o que aprendi no Brasil: – aqui o branco não gosta do preto; e o preto também não gosta do preto” (p. 58)
  • “O amor não deixa sobreviventes” (p. 73)
  • “Sofra. Não tenha medo de sofrer. E não esqueça, nunca, nunca” (p. 73)
  • “Estamos tão esquecidos de sofrer que sua dor nos parecia, e cada vez mais, uma doença psicológica, quase a loucura. E ninguém entendia que a grande dor deve ser preservada” (p. 74)
  • “Todavia, noto na mocidade alguns espíritos já descontentes, já desiludidos. São rapazes e moças fartos de tanta compreensão. Afinal, o compreensivo frustra-os nas suas rebeldias. Qualquer dia, alguém fará um grave ensaio sobre as “compreensões ignóbeis” de nosso tempo” (p. 77)
  • “E conversamos de tudo. Houve um momento em que o Celso abriu o coração. Fala: – “A morte do meu pai”. E acrescenta, como quem pede desculpas: – “Ainda não me recuperei”. Por um momento, tive vontade de pedir-lhe: “Nem se recupere, nunca, nunca”. Eis a nossa degradação: – sofrer menos, cada vez menos, até esquecer. Desde menino sou um fascinado pela grande dor (acho que a grande dor não passa jamais). E não disse nada ao Celso, não lhe fiz o apelo: – “Sofra, sofra” (p. 95).

O que tais passagens nos causam? Que sentimentos despertam?

Escritos no meio do século passado, os textos de Nelson são atuais e sempre os encaro como denúncias da natureza humana. Isto porque ele revela nossa alma para nós mesmos, em sua totalidade, composta por amor e ódio, beleza e feiúra, anjos e demônios, e outros infinitos pares.

Em uma sociedade cada vez mais intolerante com o outro, que nada mais são do que o receptáculo das projeções de nossas próprias mazelas, parece que a única saída é o auto-cancelamento.

Bibliografia

CASTRO, R. O Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

JUNG, C.G. A Natureza da Psique. In: Obras Completas, vol. 8/2. Petrópolis: Vozes, 1971.

JUNG, C.G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. In: Obras Completas, v. 9/1. Petrópolis: Vozes, 2013.

RODRIGUES, N. O Óbvio Ululante – As Primeiras Confissões. 5 ed.Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.

TWENGE, J. M. IGen: por que as crianças de hoje estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes e completamente despreparadas para a idade adulta. Trad. Thaís Costa. 1ª ed. São Paulo: Versos, 2018.

O que é a ‘cultura do cancelamento’. Uol Notícias, São Paulo, 25/07/2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2020/07/25/o-que-e-a-cultura-de-cancelamento.htm. Acesso em: 03/11/2020.

Cancelamento, o que é? Causas, consequências e exemplos de famosos cancelados. Área de Mulher,  Bianca Stephania Siarom, 12/09/2020. Disponível em: https://areademulher.r7.com/curiosidades/cancelamento/. Acesso em: 10/11/2020.

Imagem: Vivien Leigh e Hattie McDaniel em “E o Vento Levou” (1939)

Sobre o autor

Ludmilla López Lessa

Psicóloga clínica, com abordagem Junguiana. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Pesquisadora do grupo de estudos sobre Nelson Rodrigues do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.