Arte sacra contemporânea: religião e história

Anunciação: a Virgem Tecelã

Figura 1 – Nossa Senhora da Saúde. Mosaico lateral direito da capela do Hospital Beata Maria Ana em Madri. Foto: arquivo pessoal.


Introdução

Figura 2 – Visão geral do presbitério da capela. Foto Centro Aletti.


O artigo tem como objetivo apresentar o mosaico da Virgem Maria no momento da Anunciação, que está na Capela Beata Maria Ana das Irmãs Hospitaleiras de Madri, em particular para entender por que Maria tem na mão um novelo de linha.

Essa obra foi realizada em 2007 pelo Centro de Arte Espiritual Aletti de Roma, cujo diretor é o esloveno Marko Ivan Rupnik, jesuíta, artista, teólogo, professor da Universidade Gregoriana de Roma, consultor da Congregação para o Clero, consultor do Pontifício Conselho para Promoção da Nova Evangelização e da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Em 1999, a convite de São João Paulo II, fez os mosaicos da Capela Redemptoris Mater no Vaticano.[1]

Há mais de trinta anos, Padre Rupnik mora em Roma, junto aos artistas e teólogos no Centro Aletti, e já realizou muitas obras em igrejas, capelas, santuários e catedrais na Europa, Américas, Oriente Médio e Austrália. No Brasil, seu trabalho pode ser visto na Catedral de Castanhal no Pará[2] e nos mosaicos das quatro fachadas que estão em andamento no Santuário de Aparecida, em Aparecida, São Paulo.

Rupnik tem como inspiração a Palavra de Deus, os Santos Padres, a arte paleocristã, o Bizantino, o Românico, o Gótico, pensadores russos dos séculos XIX e XX e o Concílio Ecumênico Vaticano II. O Cardeal Tomáš Špidlík (1919-2010), um dos maiores especialistas na espiritualidade do cristianismo do Oriente, foi orientador do Pe Rupnik no doutorado, além de seu pai espiritual e grande amigo.

Sobre a capela

É tradição da Igreja Católica que não falte na capela de um hospital a imagem da Virgem, em particular da Virgem da Saúde.

Antigamente, havia três formas de representação da Virgem da Saúde: na hora da Anunciação; a Apresentação do Senhor no Templo; e Maria ao meio de uma piscina na qual os enfermos eram lavados e curados.

Figura 3 – Cena da vida de uma defunta. Catacumba Priscila, Roma. Foto: Guide des catacombes de Rome. p. 52


Desde a época paleocristã, a Anunciação à Maria é objeto frequente de meditações, homilias e de pinturas cristãs, pois foi um momento decisivo da história da humanidade, a realização da Criação.[3] Para recuperar, redimir o homem que o pecado afastou do Senhor e que fez o homem se perder na morte, Deus decidiu se tornar criatura no ventre de uma mulher.[4]

Na Anunciação, Maria era apresentada com as mãos levantadas, imagem muito antiga que remonta das catacumbas, conhecida como “a orante”, parece que a Virgem se rende a Deus renunciando ser a protagonista, sua postura sugere que ela está dizendo: “É contigo, Senhor, és o Primeiro.”

Figura 4 – Ícone Orante de Yaroslavi. Seculo XIII. Galeria Tretiakov, Moscou. Domínio público.


A Virgem da Saúde

Na pequena capela, ao centro do presbitério, contemplamos o Cristo como bom samaritano e ao lado Santa Verônica com a Santa Face, nas laterais, o Arcanjo Gabriel e Maria.

Figura 5 – Arcanjo Gabriel. Foto; arquivo pessoal.


Maria é a Virgem da Saúde porque nela Deus se uniu à nossa realidade humana, e por ela recebeu um corpo com o qual depois sentiu todas as nossas dores. Por isso, aquele que crê pode sentir a sua proximidade amorosa e o fluir de uma vida que não morre.

O mosaico nos apresenta a Virgem na posição “orante”, porém com um diferencial: Maria traz na mão esquerda um novelo de linha vermelha cujo fio se estende à mão direita. O que significa isso? Maria é uma tecelã. Tecelã é um antigo título mariano cuja origem vem da Igreja siríaca, ela traz na mão um novelo com o qual tece o corpo do Verbo, Cristo recebe da Virgem a vestimenta do corpo, isto é, a humanidade.[5]

A Virgem representada com o novelo de linha vermelho à mão é um tema recorrente na arte do Centro Aletti, pois nessa imagem há uma teologia muito profunda, Maria está tecendo em imagem o que ela sentiu, está tecendo o corpo, a Palavra de Deus.

Figura 6 – Nossa Senhora da Saúde, detalhe superior. Foto: arquivo pessoal.


Segundo Tomáš Špidlík, a espiritualidade mariana é um dicionário que traduz a Palavra em Imagem: por Maria, o Verbo se fez carne. É por esse motivo que “se tornar mãe de Deus” permanece o ideal de cada cristão, segundo as palavras de Jesus: “Quem é minha mãe, quem são meus irmãos? E apontando para os discípulos com a mão disse: ‘Aqui estão a minha mãe e meus irmãos, porque aquele que fizer a vontade do meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe,’” (Mt 12, 48-50) – isto é, todos aqueles que se conformam ao Cristo e o tornam visível ao mundo.

Maria agiu assim, tornou o Cristo visível. O fio com o qual Maria tece é vermelho porque esta é a cor da divindade, a túnica de Maria é azul, cor da humanidade, mas o manto é vermelho para indicar que Deus a fez divina porque ela o acolheu, lhe deu um espaço. Este fio não é apenas o fio que tece o corpo do Cristo, mas também agora é parte do corpo de Maria que foi salva por dar espaço à Palavra.[6]

Referências bibliográficas

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Ed. Revista e ampliada São Paulo: Paulus, 2002.

RUPNIK, Marko Ivan. Mosaici della Madre di Dio dell’Atelier del Centro Aletti. Roma: Lipa Edizione, 2009.

ŠPIDLÍK, Tomáš. La Madre di Dio. Roma: Lipa Edizione, Terza edizione, 2019.

ŠPIDLÍK, Tomáš; RUPNIK, Marko Ivan. La fede secondo le icone. Roma: Lipa Edizione, Terza edizione, 2017.

Site: https://www.centroaletti.com/opere/cappella-dellospedale-beata-ana-delle-hermanas-hospitalarias-madrid-2007/ CAPPELLA DELL’OSPEDALE BEATA Mª ANA DELLE HERMANAS HOSPITALARIAS DI MADRID [2007] – Centro Aletti.

[1] Mais informações sobre Marko Ivan Rupnnik em https://offlattes.com/sala-marko-ivan-rupnik

[2] No alto do mosaico central da Catedral, Maria tem o novelo nas mãos, mas não está como orante.

[3] Tomáš Špidlík. La Madre di Dio. p. 9.

[4] Marko Ivan RUPNIK. Mosaici della Madre di Dio dell’Atelier del Centro Aletti. p. 16.

[5]Cf. Marko Ivan RUPNIK. Mosaici della Madre di Dio dell’Atelier del Centro Aletti. p. 22.

[6] Cf. ŠPIDLÍK, Tomáš; RUPNIK, Marko Ivan. La fede secondo le icone. p. 92.

Sobre o autor

Wilma Steagall De Tommaso

Doutora em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora no Museu de Arte Sacra de São Paulo (MAS SP). Membro Pesquisadora da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião (SOTER). Coordenadora do grupo de pesquisa Imagem de Deus: Religião, História e Arte do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.