A palavra é Imagem: Arte Sacra Contemporânea

Paul Nikolayevich Evdokimov

Cardeal Tomáš Spidlík,[1] grande conhecedor da Teologia Ortodoxa e dos pensadores russos modernos, dizia que as obras de Paul Evdokimov e Olivier Clément [2] foram facilitadores para a compreensão dos pensadores russos que a partir do século XIX se voltaram ao estudo da Patrística Grega e da mentalidade prática da Ortodoxia.

Nosso grupo de pesquisa “A Palavra é Imagem: arte contemporânea, história e religião” do Labô/Fundasp refletiu durante dois anos (2024-2025) sobre a obra de Paul Evdokimov, “A Teologia da Beleza: a arte do ícone”, o último livro de Evdokimov, concluído em 1967 e publicado em Paris em 1970. Mas, por que esse autor nos importa?

O maior artista sacro brasileiro da contemporaneidade, Cláudio Pastro (1948-2016) considerava “A Teologia da Beleza” de Evdokimov a bíblia da arte sacra, dizia sempre que é uma obra importante para quem quer compreender o significado e a importância da arte para a liturgia, portanto, leitura essencial para artistas sacros, clérigos, liturgistas e pesquisadores.

Embora Evdokimov tenha deixado grandes obras, “A Teologia da Beleza” foi a primeira a se tornar famosa. Antes de nos referirmos a ela, apresento uma breve biografia desse grande e singular teólogo da diáspora russa pouco conhecido no Brasil.

Paul Nikolayevich Evdokimov, de família aristocrática, nasceu em 2 de agosto de 1901 em São Petersburgo. Prematuramente viu a grande catástrofe que estava abalando a Rússia: seu pai, um oficial sênior, foi assassinado por um soldado em 1907. De acordo com o costume, o jovem Paul, apaixonado pela obra de Dostoievski, foi educado na Escola de Cadetes, mas nos longos períodos de férias, participava de retiros, Na Revolução, a família foi para Kiev, onde estudava teologia, o que era raro em seu ambiente. Depois da guerra civil na Ucrânia, ele se junta às fileiras do exército branco, noites na neve, aquecido pelo seu cavalo. Acontece, porém, a derrota e em seguida o exílio em Constantinopla.

Em 1923, Paul Evdokimov chega a Paris. Miséria e trabalho duro eram a realidade. Ele trabalhava na Citroën à noite e nos serviços de limpeza das estações de metrô, porque completava, durante o dia, seus estudos teológicos no Instituto São Sérgio, que acabara de abrir. Todos estes afazeres, no entanto, não apagaram o gosto pela reflexão e o jovem emigrante encontrou tempo e forças para obter uma licenciatura em filosofia na Sorbonne e, com a ajuda de uma bolsa de estudos, uma licenciatura em teologia no novíssimo Instituto São Sérgio, onde aconteceram encontros decisivos com Nicolas Berdiaev[3], um filósofo livre e Sergei Bulgakov[4], sacerdote e professor de teologia dogmática, cada um à sua maneira falava da liberdade ortodoxa, da missão profética da Ortodoxia em termos diferentes; cada um aprofundava a “instituição” pelo “evento”, cada um colocava a maior ênfase no Espírito Santo.

Com o passar dos anos, lentamente, foram surgindo certezas e, uma delas, a certeza do significado providencial da emigração russa, cujo profundo significado espiritual tinha de ser “visto, decifrado.”[5]

No Instituto de São Sergio foi necessário cultivar o “instinto da Ortodoxia” que deu o passo à Tradição. Evdokimov foi à fonte, redescobriu a Bíblia, mas era preciso também mergulhar no pensamento dos Padres, viver a liturgia, “consumar o fogo eucarístico”, descobrir o ícone, a escatologia, a meta-história.

Quanto mais estava no impulso ecumênico, mais consciente se tornava de sua própria fonte. O ecumenismo, paradoxalmente, o levou ao coração radiante da ortodoxia. A necessidade que sentia no início, de aprofundar os elementos da fé para se encontrar no diálogo ecumênico foi rapidamente ultrapassada pela evidência intuitiva: quanto mais se é ortodoxo, mais ecumênico se é, porque é ortodoxo.

A Tradição revelou-se como um caminho essencialmente criativo e o pensamento dos Padres Gregos formava uma “imagem condutora”, possibilitando a superação de qualquer espírito provinciano. Na encruzilhada ecumênica o Espírito soprava, o coração do cristianismo batia, a catolicidade ortodoxa se erguia.

Tempo em que se esclarecia uma vocação: “Pela presença ativa de uma brilhante elite de pensadores religiosos russos, a Ortodoxia emergira subitamente de seu isolamento secular (…) O confronto entre o Oriente e o Ocidente cristãos foi um fato irreversível da história, ouviu-se um apelo e uma forte vocação foi surgindo, que logo se impôs claramente”[6]. A certeza de que a Ortodoxia tinha que buscar naquele momento uma oportunidade essencial para sair do seu isolamento e encontrar o Ocidente cristão; certeza de finalmente ter que realizar sua parte como teólogo leigo em um grande testemunho, sem se furtar a uma forma de ação cuja experiência se lhe apresenta com a responsabilidade do primeiro secretariado da Associação de Estudantes Cristãos Russos.

Em 1928, Paul Evdokimov, afastando-se das querelas da emigração, estabeleceu-se no sul da França. Preparou uma tese de filosofia – Dostoiévski e o problema do mal – que defendeu em 1942 na Universidade de Aix-en-Provence. Tornou-se amigo dos círculos mais “espirituais” do protestantismo francês, e participou com eles da Resistência, para salvar vidas, especialmente vidas judaicas. Em 1945, ano em que sua primeira esposa morreu, foi contratado pelo CIMADE (Comité Intermouvement d’Aide aux Déplacés et Evacués), do qual havia sido um dos fundadores, para administrar um centro de acolhimento para refugiados nos subúrbios de Paris. Um verdadeiro “tribunal de milagres” sobre o qual ele observa pacificamente: “Havia chegado a hora de reconhecer em cada rosto humano o ícone vivo de Cristo”[7].

De 1947 a 1968, foi responsável pelo CIMADE Student Hostel, onde afluíam refugiados políticos do Oriente e do Ocidente, estudantes do Terceiro Mundo. Sua presença pacífica se aprofunda e é, para muitos, uma verdadeira e libertadora paternidade espiritual. Ele contou como entendia seus deveres: “Como eu defino a minha tarefa na pastoral? Senti que constituía um ministério e se dirigia exatamente ao meu sacerdócio universal. Fui profundamente questionado; as almas e seus sofrimentos me interrogavam, me faziam testemunha, confidente, intercessor[8]“.   A reflexão contínua, naturalmente, sustenta sua ação caritativa.

A partir de 1957 surgiu a maior parte de sua obra teológica, ao mesmo tempo em que suas tarefas como professor se intensificam, há ampla participação nos trabalhos e reuniões do Conselho Mundial de Igrejas. Sua influência aumenta não apenas no mundo ortodoxo, mas entre os cristãos ocidentais. Assim, participou, como observador ortodoxo, da terceira sessão do Concílio Vaticano II.

E sucedem-se os livros e seus textos em geral são dedicados a descrever o caminho do amor de Deus aberto a todos, através da ação, da cultura, do grande tédio que corrói o mundo atual ou do medo da morte. Alimentadas pela herança Patrística; pelos pensadores russos modernos; enriquecidas pela substância simbólica da liturgia ortodoxa, suas obras desenham de maneira discreta, o retrato de um homem menos disposto a “falar de Deus” e mais aberto a “deixar-se tornar aquele em quem Deus diz a si mesmo”, um ícone de Cristo. Retoma e aprofunda temas como a mediação da mulher, o “monaquismo interiorizado” aberto a todos os leigos, dá ênfase ao lugar central do Espírito e o significado do ícone cuja beleza misteriosa é o reflexo da glória divina, obra que aqui apresentamos.  

Em “A arte do ícone”, Evdokimov apresenta uma das principais formas de se entender no Ocidente: o que é um ícone na visão cristã e na espiritualidade oriental. Era preciso um teólogo ímpar para não cair na superficialidade.

O ícone, como simples matéria que transcende pela beleza do que representa, é precedido a partir da teologia da criação, Deus faz-se presente no mundo porque o cria, o mantém no ser e atua na História de forma extraordinária e espetacular. Por outro lado, além de  criador, Deus se faz presente através da graça, na elevação da alma humana, e pela presença santa e ao mesmo tempo velada de Deus que é a Beleza eminentemente em Cristo. Não se trata, porém de beleza “física”, estética. O grande infortúnio da criação é a queda, o mundo caído pelo pecado do ser humano, porque Deus quis enfrentar com todas as suas consequências a liberdade humana, que foi capaz de pecar e de se afastar do seu Criador. Esta queda moral produziu uma impressionante queda ontológica cósmica, que afeta tudo e necessita da salvação divina, a qual, no entanto, respeitará sempre a liberdade humana. Salvará pela atração e poder de redenção do amor e não pela coerção e violência.

Jesus Cristo, feito homem, é “imagem da substância divina” na carne, no seu corpo. Submetido neste mundo à condição de natureza caída, mas anunciando na sua Transfiguração e antecipando na sua Ressurreição, a transmutação e salvação de todas as coisas para glória eterna, onde haverá um “novo céu e uma nova terra”: o universo transformado através da Ressurreição de Cristo. Assim, a própria matéria, que foi feita por Deus e que integrou o Corpo de Cristo, partilhará da sua glória e beleza. 

No livro “A Teologia da Beleza,” Evdokimov nos apresenta quatro partes:

– a primeira descreve a “Beleza”, no seu sentido teológico, inspirando-se na Escritura Sagrada, na Patrística grega, na visão dos pensadores russos, expressões artísticas e culturais com questões psicológicas e filosóficas até sobre arte moderna; 

– a segunda contempla “O Sagrado” como esfera transcendente de Deus e sua presença no mundo, o Incriado no criado;

– a terceira é “A teologia do ícone”, sua história, o iconoclasmo, e o VII Concílio Ecumênico de Nicéa (787) que fundamenta o ícone como a Imagem da Palavra: O que o Evangelho nos diz através da Palavra, o ícone anuncia através das cores e torna-o presente para nós;

a quarta parte, “Uma teologia da visão” nos apresenta a descrição profundamente espiritual de alguns dos principais ícones.

 Evdokimov põe em evidência o ícone não como arte ou estética, mas como revelação do Bem e da Verdade que culminam na Beleza que salva, porque Cristo é a Beleza. Mais do que ler, pode-se saborear as palavras desse grande teólogo, cuja vida nos revela um testemunho de amor em ação ao próximo em momentos trágicos da história. Ouve-se um eco velado, a piedade da alma russa diante da miséria dos homens: “Que todos sejam salvos, que todos sejam UM…[9]” Com uma espécie de humildade poética e despojada, Paul Evdokimov carregava sem hesitar esse fervor e esperança.

Em 16 de setembro de 1970 em Meudon, fez sua passagem repentinamente deixando muitos artigos espalhados em revistas de difícil acesso[10].

Recentemente, um novo esforço de divulgação da obra de Paul Evdokimov ganhou impulso no Brasil. Foi publicado, pela Editora Recriar/Pluralidades, o livro “A Treva Luminosa: teologia e mística em Paul Evdokimov”, fruto da tese de doutorado, orientada por Luiz Felipe Pondé, do nosso colega de LABÔ, Roberto de Almeida Gallego.

Referida obra traça um panorama acessível sobre a vida e o pensamento de Paul Evdokimov, destacando as principais referências teológicas, filosóficas e literárias deste último, bem como a fortuna crítica atual sobre sua obra. Discorre, também, sobre a visão da ortodoxia acerca do conhecimento de Deus, detendo-se, dentre outros temas, sobre a famosa controvérsia hesicasta, o apofatismo, a theosis e o mal.

Gallego sustenta que, em Paul Evdokimov, teologia e mística são indistinguíveis, estando, tal indistinção, presente em várias ideias-força do autor estudado, como o monaquismo interiorizado (uma forma de viver no mundo contemporâneo, preservando, no coração, o silêncio orante do monge), a mulher, enquanto salvadora do mundo, e o ecumenismo interior.

E, ao final, uma grata surpresa para quem se deixa enlevar pelo mistério profundo encerrado e desvelado pelos ícones: segundo Paul Evdokimov, uma das “provas” mais incontestáveis da existência de Deus é a “prova iconosófica”, já que os santos, assim como os ícones, irradiam, silenciosamente, a presença de Deus, e a verdadeira beleza não tem necessidade de provas porquanto seja uma evidência erigida em argumento iconográfico da Verdade divina.

Enfim, o santo é um ícone, uma teologia viva, uma janela aberta entre dois mundos, pronto a comunicar, a quem dele se aproxime, o mistério em forma de luz – a Luz incriada que nos faz participar da Beleza de Deus.


Site pesquisado

Page Paul Evdokimov: Pages orthodoxes la Transfiguration
https://www.pagesorthodoxes.net/page-paul-evdokimov#biblio em 15 de março de 2025.


[1] Em 1995, Špidlík proferiu as meditações anuais do retiro quaresmal para o Papa São João Paulo II e aos funcionários da Cúria Romana. Em junho defendeu sua tese de doutorado no Pontifício Instituto  Oriental de Roma. Esse ano marcou o início de sua carreira universitária como professor de Teologia Patrística e Espiritual Oriental em diversas universidades de Roma. Špidlík tornou-se conhecido como um especialista na espiritualidade do Cristianismo Oriental.

[2] Olivier Clément

[3] Nicolas Berdiaev

[4] Sergei Bulgakov

[5] « Quelques jalons sur un chemin de vie ».

[6] Quelques jalons sur un chemin de vie.

[7] Quelques jalons sur un chemin de vie,

[8] « Quelques jalons sur un chemin de vie ».

[9] “Vós vos despistes do homem velho com os seus vícios, e vos revestistes do novo, que se vai restaurando constantemente à imagem daquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento. Aí não haverá mais grego nem judeu, nem bárbaro nem cita, nem escravo nem livre, mas somente Cristo, que será tudo em todos.” Col 3 (9-11)

[10] On peut consulter une analyse détaillée de la vie et de l’couvre de Paul Evdokimov, due à Olivier Clément, ainsi qu’une large bibliographie dans Contacts, t. XXIII,1971, n°73-74 (numéro spécial intitulé Paul Evdokimov, témoin de la beauté de Dieu).

Imagem de autor desconhecido, refeita com IA

Sobre o autor

Wilma Steagall De Tommaso

Doutora em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora no Museu de Arte Sacra de São Paulo (MAS SP). Membro Pesquisadora da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião (SOTER). Coordenadora do grupo de pesquisa Arte Sacra Contemporânea: Religião e História, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.