Estudos sobre morte e pós-morte

Há fim no luto?

Há um ano publiquei um texto neste off-lattes chamado “Pesquisa empírica na quarentena: um tabefe divino”, e nele descrevi um processo de cerimônia de luto via aplicativo Zoom. O choque, a tristeza, a percepção da solidão e o início das mudanças nos rituais foram observados de forma geral, pois estávamos no começo de um processo de luto coletivo o qual enfrentamos até hoje. E não sabemos até quando irá.

Não sou psicóloga com formação na área, mas nosso grupo de pesquisa aqui do LABÔ “Morte e Pós-Morte” (coordenado por mim e pela Maria Cristina Mariante Guarnieri) vem se dedicando a este entendimento desde o começo do ano passado – e eu pesquiso o tema dentro do judaísmo há anos. Não quero chegar a conclusões em relação aos tabefes divinos, ao enfrentamento do luto, ou ao fato de diuturnamente recebermos mensagens e alertas de números de mortos. Nem de como “esperar para ver o número de mortos no Brasil” todos os dias reflete no nosso processo do entendimento da morte ou do luto.

Ao estudarmos os processos de morte, pós-morte e luto, entendemos que não há uma linha única de raciocínio ou entendimento, há possibilidades de lidar com diversas situações, dependendo de como elas nos são apresentadas. Há, no entanto, um fato comum: todos vamos encarar estes processos, mais cedo ou mais tarde, com nossas pessoas queridas, em algum determinado momento da vida. Só que esta pandemia nos revela algo diferente e que acreditávamos muito longe da realidade: sentir o luto todos os dias, há meses, não só por pessoas conhecidas, mas pelos desconhecidos que partem, deixando-nos marcas diversas. Espero que você, leitor, ao ler este texto, não esteja sofrendo o luto de um ente querido próximo morto por Covid. Mas talvez esteja. Saiba que sofremos juntos, as mortes estando próximas e os lutos compartilhados. Sendo ou não de familiares ou amigos íntimos.

Voltando ao meu texto de abril de 2020, fiz a seguinte reflexão: “Como ‘voltar ao normal’ depois de sete dias de luto em isolamento? Não há resposta. Há tentativas somente. Não há certo ou errado”. Hoje, um ano depois, pensamos: Quanto tempo mais? Quanto mais sofrimento? Será que o luto vai se encerrar e voltaremos ao normal?

Sinto dizer que para muitos não haverá mais normal, pois o luto permanecerá indeterminadamente, dado que não deve ser compreendido como linear e finito. O luto talvez prossiga com muitos outros sentimentos juntos, pois ele permite e é permeado por tantas, tantas sensações. E vemos que discutir a morte, pós-morte, luto não está sendo necessário só agora. Será sempre. Pois por mais que não soframos mais nenhuma pandemia pela frente (e aqui uso a minha fé para dizer SE D´US QUISER), os sentimentos que estamos experimentando agora só desaparecerão se fingirmos que não estamos vivendo. E, assim como os sentimentos, os estudos podem e devem ser saudáveis para continuarmos nossas trajetórias de vida.

Não estou propondo, nestas breves linhas, uma discussão sobre o que devemos sentir, qual o tempo determinado para o luto ou por quanto tempo teremos sensações tristes. Proponho sempre, como fazemos no grupo, uma reflexão interna necessária e até, se assim podemos dizer, saudável.

A literatura pode sempre nos ajudar a entender os sentimentos. Aqui, por exemplo, as palavras da escritora canadense Toko-Pa Turner (opto por traduzir GRIEF por LUTO, embora seja mais do que isto): “O luto é a honra que damos àquilo que é caro a nós. E é somente através desta conexão com aquilo que amamos, que sabemos como seguir em frente. Pensando desta forma, luto é movimento”.

De Cecília Meirelles, uma nota de esperança: “A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la”.

A primavera chegará e nós seguiremos em frente. Apesar e por tudo.

PS. Quando estava finalizando a leitura deste artigo para submetê-lo ao processo de revisão, peguei o jornal (Folha de São Paulo, de 8 de abril de 2021) e li o depoimento de Maria Homem sobre o falecimento do marido, Contardo Calligaris. Quando ela perguntou a ele, pouco tempo antes de morrer: “o que vai ser de mim sem você?”, ele respondeu “vai ser o que você quiser”. E como ela mesmo diz – cada um vive a morte à sua maneira.

Finalizo, assim, dizendo: é isso. Que façamos com o luto e com a tristeza o que é possível, à nossa maneira.

Ilustração: Patty Tagnin

Sobre o autor

Andréa Kogan

Formada em Letras, doutora em Ciências da Religião pela PUC-SP, pós-doutoranda em Ciências da Religião pela PUC-Minas, autora do livro “Espiritismo Judaico”, assistente acadêmica do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ, onde também coordena os grupos de pesquisa sobre Morte e Pós-Morte e Judaísmo Contemporâneo.