A crise do amadurecimento na contemporaneidade

Se Deus existe, tudo é permitido – As Humanidades como obra de arte

Byung-Chul Han[1] diz que, em nossos dias, aderimos às coisas menos pela alteridade que pela igualdade. Não é a Eros que endereçamos nossas preces, e sim a Narciso. Essa ideia pareceu-me interessante para realizar uma aproximação entre D. W. Winnicott e Thomas Sowell. Nenhum dos dois autores, porém, se expressa nos mesmos termos do pensador coreano. Não obstante, parece-me possível, partindo da categorização feita pelo segundo, encontrar no primeiro as referências para investigar os determinantes da adesão a uma ou a outra das categorias.

Sowell[2] nos diz que, se procurarmos direitinho, afastando o pó e as teias de aranha, bem lá no fundo das teorias sociais, encontraremos duas visões sobre a Natureza Humana, determinando a produção do conhecimento sobre o social, qualquer que seja a disciplina específica das Humanidades: economia, filosofia, sociologia, psicologia social, direito, etc. No entanto, o professor nada nos diz sobre por que raios alguém se identificaria com uma ou outra das visões da Natureza Humana. O que explicaria a adesão e o engajamento necessários para criar, estudar, pesquisar, produzir, consumir e militar nesta ou naquela direção? E quanto à identificação a um ou outro dos lados responsável por opor os tagarelas no front das discussões filosóficas feitas nos botequins das redes sociais? Por que somos atraídos por este ou por aquele autor? Se assumimos uma ou outra visão como sendo a realidade (estando, portanto, o oponente irremediavelmente enganado), convém perguntarmos – e perguntaremos a Winnicott[3] – se os determinantes da adesão não deveriam ser buscados naquele início em que alcançamos ou conquistamos o sentido da realidade.

Antes da realidade

Supondo não ter havido acaso na Criação, o Demiurgo, diante da visão de um mundo possível a ser feito com os objetos disponíveis, os alocou de um determinado modo, numa arquitetura única, feita ao seu gosto. Um cético diria que o primeiro Demiurgo pensaria estar dispondo os objetos daquela maneira porque pensava que o comportamento daqueles primeiros objetos seria assim necessariamente. Diria que o Demiurgo viu ontologia naquilo que é estética.

Pequenos Demiurgos, pensamos estar lidando com a realidade quando estamos desabrochando visões. Visão parece ser uma boa palavra para descrever o que se passa neste nível: não é uma evidência apodítica nem uma demonstração lógica; é, sim, uma visão. Ao ver, algo em mim clama pela pertinência e pela igualdade. É uma paixão. Não pelo Outro, não pela alteridade; paixão pelo igual. Visão inspira certeza.

Thomas Sowell diz haver, basicamente, duas visões do que seja a Natureza Humana – a irrestrita e a restrita –, determinando modos de produção do conhecimento e da atuação política nas Humanidades. Determinam as demandas, as queixas e os pedidos. Contudo, quando acreditamos estar lidando com realidade, criando teorias para sua compreensão ou desenvolvendo racionalidades interpretativas sobre o que ocorre, estamos, antes de tudo, realizando as visões que nos tomam: “É o que intuímos ou sentimos antes de elaborarmos um sistema racional que mereça o nome de teoria, e mesmo antes de termos deduzido as consequências específicas que, na forma de hipóteses, possam contrastar com a realidade[4]” (SOWELL, 2009, p. 15). As visões estariam por trás daquilo que se apresenta como compreensão racional ou científica da realidade social e outorga coerência interna aos enunciados de uma determinada concepção teórica, com o risco de preferirmos as visões à realidade mesma. As visões são perigosas justamente porque “tendemos a confundi-las com a realidade[5]” (SOWELL, 2009, p. 15). Ademais, ainda mais perigoso que confundir a realidade com a visão que temos dela, é haver aqueles que prefiram “vê-las como realidade[6]” (SOWELL, 2009, p. 15). Em síntese, uma visão é a nossa percepção de como o mundo, diga-se humano, funciona (SOWELL, 2009, p. 16). Mais especificamente, sobre como funciona o mundo social. Numa disputa científica a respeito de como deveriam ser dispensados os serviços judiciários, certamente, se olharmos com atenção, o fundo das discussões entre os contendores, seria relativa ao que é a Natureza Humana. Sabendo ou não, os debatedores estão disputando qual visão sobre a Natureza Humana deve ser aceita. Para Sowell, de modo sucinto, as capacidades e as limitações humanas são concebidas de modos diferentes na visão restrita e na visão irrestrita. As teorias políticas, filosóficas ou sociais se distinguiriam menos por suas diferenças sistemáticas que por suas raízes visionárias. Assisti a uma cena, no século passado, que envolvia uma tia prestativa, um sobrinho divertido e um meio de pagamento rudimentar, ainda não totalmente catalogado por arqueólogos profissionais, o cheque: na aurora da humanidade, para a compra de um objeto, utilizava-se de um papelzinho no qual se escrevia, em caracteres reconhecíveis, uma determinada quantia representando um valor em dinheiro ausente no momento da compra, para que o comerciante ou prestador de serviço, com a ajuda de um banco, numa alquimia monetária, pudesse transformá-lo em dinheiro. Os olhos cobiçosos do menino fizeram com que o seu indicador se levantasse, apontando na direção de um objeto, acompanhado da frase “quero aquele carrinho!”. A tia, rindo, diz “estou sem dinheiro, Gabriel”. O menino, inspirado por uma visão irrestrita da condição humana, responde “dá cheque!”. Creio ser um bom exemplo de uma situação econômica e educacional em que a visão irrestrita se apresenta. É uma cena que sempre me vem à lembrança quando me defronto com pedidos que não partem dos limites dos recursos, como em movimentos por gratuidades quaisquer. Na visão irrestrita, o que pode ser, é. Como numa inversão do dito dostoiévskiano, se Deus existe, tudo é permitido. Em outras palavras: “Na visão irrestrita está implícita a ideia de que o potencial é muito diferente do real[7]” (SOWELL, 2009, p. 26). Por contraste, pode-se inferir o que seria uma visão restrita.

Assumindo que antes de qualquer cientificidade ou racionalidade estaria uma visão da Natureza Humana, antes, portanto, da realidade, convém investigar por qual processo chegamos à realidade; ou, nas palavras de Winnicott, a conquistamos. Quem sabe a exploração dessa questão possa, em pesquisas futuras, nos fazer entender a psicologia da adesão, seja a visão irrestrita da Natureza Humana, seja a visão restrita da Natureza Humana. Quem sabe até mesmo discutir as relações entre o amadurecimento e a adesão a uma ou a outra visão.

A conquista da realidade

Não se começa da realidade externa. Chega-se a ela. Para realizar o estudo do desenvolvimento emocional primitivo, Winnicott propõe sua descrição sob três linguagens, dentre as quais o “fator externo” (WINNICOTT, 1990, p. 79) é pensado em termos de estabelecimento; não sendo, portanto, um dado imediato.

A conquista da realidade é uma aventura. Seu início supõe a criação de algo que precisa estar lá para ser criado. A mágica ocorre no encontro entre a tendência à criação e a oferta do objeto, cuja palavra para expressá-lo é carregada de lirismo: ilusão. A alquimia da ilusão requer o impulso para criação e a colocação do objeto no justo tempo e espaço para que o encontro aconteça. Por conseguinte, é preciso que haja alguém para intuir o momento em que a necessidade criativa acontece (impulso e alucinação) e realizar a oferta do objeto adequado. No modelo winnicottiano, este alguém é a mãe – ou, de forma mais condizente com as sensibilidades atuais, a função materna. E seu papel é adaptar-se (o que supõe algumas condições) às necessidades do bebê. No início mais precoce, “existe uma quase perfeita adaptação à necessidade, permitindo ao bebê a ilusão de ter criado os objetos externos” (WINNICOTT, 1990, p. 81). A constituição da capacidade de se sentir criador da realidade é uma conquista necessária e anterior à possibilidade de localizar objetos na realidade objetiva, que é, em grande parte, tributária da capacidade de se desiludir: “A ilusão deve surgir em primeiro lugar, após o que o bebê passa a ter inúmeras possibilidades de aceitar e até mesmo utilizar a desilusão” (Ibid.). Não se pode dizer que seja uma experiência trivial. Como diz a canção: “desilusão/desilusão/danço eu dança você/a dança da solidão”[8]. Esquematicamente, e introduzindo elementos não citados anteriormente, a conquista da realidade tem seu início com as primeiras ofertas ambientais[9] a serem utilizadas pelo filhote humano como matéria-prima para suas criações insufladas[10]. Do estabelecimento do senso de criação e de realidade self, se torna possível a desilusão, ou a admissão de uma realidade não-self, porém, preservada em sua essência criativa (livre de excessos traumáticos incapacitantes) que é a inauguração do campo dos objetos e dos fenômenos transicionais em que se mesclam a objetividade do mundo com a onipotência criativa.

No decorrer do tempo, surge um estado no qual o bebê sente confiança em que o objeto do desejo pode ser encontrado, e isto significa que o bebê gradualmente passa a tolerar a ausência do objeto. Desta forma, inicia-se no bebê a concepção da realidade externa. (WINNICOTT, 1990, p. 84).

Ficam estabelecidos os campos dos objetos subjetivamente concebidos, objetivamente percebidos e transicionalmente habitados.

Vicissitudes – ou, nem tudo são flores

Dois caminhos são possíveis no início da caminhada rumo ao amadurecimento: (i) o sucesso do estabelecimento do contato inicial em que a “arte de dar ao bebê a ilusão de que aquilo que é criado a partir da necessidade e por meio do impulso tem existência real” (WINNICOTT, 1990, p. 82) foi sustentada; ou (ii) o fracasso do contato inicial, que é quando ou a mãe é incapaz de sustentar o processo ou o bebê não está em condições de se entregar aos próprios impulsos. Aqui, as relações com os objetos e com a realidade se estabelecem a partir de cisões (gradativas) no interior da experiência de modo a, por um lado, correr uma vida privada, em que os relacionamentos têm por base a capacidade de criar, e, por outro, o chamado falso self, que funciona e se desenvolve de modo submisso, relacionando-se com as exigências da realidade externa de forma passiva, ou seja, não criativa; pode-se dizer que a realidade externa não é habitada. O ponto principal a se destacar quando a vida segue a direção do fracasso no estabelecimento do contato inicial com a realidade, na aquisição ou conquista do sentido da realidade, é a cisão ou desconexão (variável em graus e gravidade) manifesta numa vida privada (subjetiva) e numa adesão à realidade externa – vazio e submissão coabitando a mesma morada, como ocorre em boas histórias de terror sci-fi [11]:

Quando há certo grau de fracasso na adaptação, ou uma adaptação caótica, o bebê desenvolve dois tipos de relacionamento. Um tipo consiste num relacionamento secreto e silencioso com um mundo interno essencialmente pessoal e íntimo de fenômenos subjetivos, e é exclusivamente este relacionamento que parece real. O outro é exercido a partir de um self falso e se estabelece para com um ambiente obscuramente percebido como exterior ou implantado. O primeiro tipo de relacionamento contém a espontaneidade e a riqueza, e o segundo é um relacionamento submisso, mantido com a intenção de ganhar tempo até o momento em que o primeiro talvez consiga, um dia, tomar posse. (WINNICOTT, 1990, p. 86).

O lugar das visões

Bailando detrás das teorias sociais, as visões – restrita e irrestrita – sobre a Natureza Humana condicionam as cientificidades possíveis e determinam as adesões pessoais a esta ou àquela teoria, tanto quanto condicionam os atos e as militâncias políticas ideológicas e respondem pelos, nas palavras de Monteiro Lobato, galos cívicos[12]: “Vez por outra, os mesmos olhares agressivos encaram-se nas rinhas políticas[13]” (SOWELL, 2009, p. 15). Podemos dar por certo que as visões sobre a Natureza Humana, a restrita e a irrestrita, têm, para muitos, o estatuto de realidade, e que tal crença seja, por sua vez e paradoxalmente, “a visão mais utópica de todas[14]” (SOWELL, 2009, p. 15).

A conclusão deste texto fundamenta-se na aceitação de um plus, de algo a mais, um adendo à pesquisa de Thomas Sowell advindo dos estudos de D. W. Winnicott sobre a Natureza Humana, em cujo início, ao lado da integração do self como unidade e do assentamento da psique no corpo (WINNICOTT, 1990, p. 79), teoriza-se o estabelecimento da relação com a realidade externa. Conquanto tal realidade externa, por definição, não seja um dado imediato. Considerando, como o faz Sowell, que as visões são inícios não reconhecidos de uma primeira abordagem pré-analítica junto à realidade, a condicionar determinada concepção da Natureza Humana com efeitos sobre as racionalizações e teorizações nos campos das ciências sobre o social, podemos, pelos destinos (vicissitudes) virtuosos ou pelos descaminhos do acesso precoce à realidade indagar os motivos de aderirmos a essa ou àquela visão.

A questão que pode ser colocada é: em que medida a adesão a uma ou outra das visões sugeridas por Sowell expressaria uma acomodação, melhor dizendo, uma obturação, um remendo ou ortopedia à solidão essencial, que é a revelação de que “eu sei que não há nenhum contato direto entre a realidade externa e eu mesmo, há apenas uma ilusão de contato, um fenômeno intermediário”? (WINNICOTT, 1990, p. 90).

Não é uma conclusão positiva, aquela que afirma algo; tampouco uma conclusão negativa. O que de melhor o texto pôde propor foi a formulação de uma questão. Ainda mais profícua que uma questão formulada, seriam as linhas possíveis de investigações futuras sobre os movimentos políticos e sociais dos tempos atuais, à luz da ideia winnicottiana de amadurecimento correlacionada ao problema da adesão a qualquer das visões sobre a Natureza Humana sugeridas por Thomas Sowell, a restrita e a irrestrita. Pode-se pesquisar, por exemplo, o ambiente, a mãe ambiente e a mãe objeto numa ou noutra adesão ou, ainda, se a busca pela reparação da condição de encontrar o objeto deprivado na tendência antissocial não encontraria uma expressão socialmente aceita na adesão a uma visão irrestrita da Natureza Humana positivada na aceitação, quiçá submissão, à determinada causa, predileção por linhas teóricas e metodológicas de pesquisa ou filiação político-partidária. Quem sabe, a desilusão, por abrir suas asas negras demasiadamente, não encontraria lugar na alma dos restritos?

Por fim, nada mais que apontamentos futuros para articular amadurecimento e visões. Ao fundo, a justificativa de se empreender tal estudo está na minha percepção de que a realidade social, tendo por base quaisquer das visões, parece querer moldar a matéria social como o artista quando se pensa de vanguarda.

Referências

BRADBURY, R. As Crônicas Marcianas. Tradução de Ana Ban. São Paulo: Biblioteca Azul/Globo, 1995.

HAN, B.-C. Agonia do Eros. Tradução de Enio Paulo Giachini. Rio de Janeiro: Vozes, 2017.

LOBATO, M. Urupês. 2ª. ed. São Paulo: Globo, 2009.

OS Invasores de Corpos. Direção: Phillip Kaufman. Produção: Robert H. Solo. Intérpretes: Donald Sutherland; Brooke Adamns e Jeff Goldblum. [S.l.]: United Artists. 1979.

SLOTERDIJK, P. Esferas I Borbujas. Microsferología. Tradução de Isidoro Reguera. 6ª. ed. Madrid: Siruela/Turolero, 2017. 584 p.

SOWELL, T. Conflicto de Visiones. Tradução de Carlos Gardini. Barcelona: Gedisa, 2009.

VIOLA, P. D. Dança da Solidão. Rio de Janeiro: Odeon, 1972.

WINNICOTT, D. W. Natureza Humana. Tradução de Davi Litman Bogomoletz. Rio de Janeiro: Imago, 1990.

[1] (HAN, 2017)

[2] (SOWELL, 2009)

[3] (WINNICOTT, 1990)

[4] Es lo que intuímos o sentimos antes de elaborar um razonamiento sistemático que se pueda denominar teoria, y aun antes de que hayamos deducido consecuencias especificas que, en la forma de hipótesis, deban contrastarse com la realidad.

[5] Tendemos a confundirlas com la realidad.

[6] Prescindir de las visiones y vérselas solo con la realidad.

[7] En la visíon no restingida está implícita la Idea de que lo potencial é muy diferente de lo real.

[8] Dança da Solidão é uma canção de Paulinho da Viola.

[9] “Após a primeira mamada teórica, o bebê começa a ter material com o qual criar” (WINNICOTT, 1990, p. 83)

[10] Insuflar é o verbo utilizado por Peter Sloterdijk para denominar a parceria inicial que dá vida a cada novo exemplar humano.

[11]Ver As Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury, e o filme Os Invasores de Corpos, direção Phillip Kaufman.

[12] A expressão descreve o resultado das divergências políticas quando chegam às vias de fato nos punhos do baixo clero da militância política sempre “de olho” num cargo público qualquer- isso em 1918, claro.

[13] Pero una y outra vez vemos las mismas caras fulminandose com la mirada desde bandos políticos enfrentados.

[14] La visión más utópica de todas.

Imagem: detalhe de Narcissus, de Caravaggio (1597–1599)

Sobre o autor

Ricardo Rodolfo de Rezende Prado

Psicanalista e consultor em escolas da rede particular de ensino. Graduado em Filosofia pela PUC-Minas, com formação e especialização em Psicanálise (Cinpp-Vale/Univap). Pesquisador do Grupo A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo /PUC-SP – LABÔ.