Estudos sobre morte e pós-morte

Podemos falar sobre luto com as crianças?

Por que o repertório da literatura infantil não poderia ser uma “ponte” para auxiliar no enfrentamento de um processo de luto? Dos contos de fadas tradicionais às produções contemporâneas, sejam impressas ou em forma de animação, acredito que essas obras podem e devem fazer parte do dia a dia, como um modo de compreender um ciclo de maneira completa. Temas como Vida, Morte, Pós-Morte… deveriam fazer parte de conversas casuais no cotidiano, sobre a vida e o viver desde sempre, aberta e espontaneamente. Não obstante, o que mais ouço é: “isso não é assunto para crianças”.

Vamos pensar juntos: o que é literatura infantil? Essas duas palavras juntas imediatamente nos levam à reflexão acerca do que seria esse adjetivo “infantil”.

Eu defino nos seguintes termos: a literatura infantil pertence a uma categoria mais ampla do fenômeno literário, com todas as características que tornam um texto literário, seja infantil ou não. Não podemos nos esquecer que literatura é arte e, como tal, as relações de aprendizagem e vivência que se estabelecem entre ela e o indivíduo são fundamentais para que este alcance sua formação integral (sua consciência do Eu mais o Outro mais o Mundo em harmonia).

Proponho a seguinte reflexão: quando nos referimos ao tema “luto”, na literatura infantil, precisamos enfatizar que falar para a criança do Ocidente é nos dirigir a uma minoria que supostamente deve ser conduzida pelos valores daqueles que têm autoridade para tal.

E quem são eles? Os adultos.

Este paradigma criança versus adulto permeia a história da literatura infantil. E trabalhar esse segmento no Brasil, hoje, ainda significa lidar com esse paradigma do adulto regendo o que seria bom ou ruim para a apreciação da criança – inclusive, muitas vezes, subestimando a capacidade de compreensão desta. E temas como “luto” e “morte” são inclusos no que chamamos de “temas-tabu”, por parte dos adultos que mediam os leitores infanto-juvenis.

Porém, para a surpresa desses tais adultos, posso afirmar com toda a segurança que as crianças tendem a lidar abertamente e de forma bem simples e natural com esses assuntos que se tornaram tabus para os adultos (e de forma surpreendente), pois a morte – a despeito da vontade dos adultos – está presente no cotidiano das crianças, nas histórias contadas, imaginadas, brincadas e vividas, nos desenhos, filmes, contos e livros. Elas são curiosas, espontâneas, imaginativas e questionadoras. Eu, de forma subjetiva e com base em algumas experiências vividas, me arrisco a sugerir que muitas vezes são espiritualizadas, no sentido mais amplo da palavra.

A morte provoca temor, angústia, curiosidade e ainda é um tabu em nossa sociedade, havendo uma evitação do tema, consciente ou inconscientemente. As crianças, em geral, são afastadas dessa realidade pela ideia de que assim estariam protegidas ou porque ainda não teriam cognição e idade suficientes para lidar com o assunto. Mas, não seria nessa dificuldade em dialogar que os adultos projetam grande parte de suas incapacidades e temores nas crianças, deixando-as desprotegidas no enfrentamento das perdas e lutos e, simultaneamente, descuidando-se? As questões da morte e a reflexão sobre a finitude são tarefas essenciais no processo de individuação e não deveriam ser tópicos interditados em nossa realidade. Precisamos refletir acerca da importância de uma educação para perdas e mortes desde a infância, possibilitando a construção de diálogos saudáveis e criativos com as crianças. De acordo com a literatura e com base na psicologia analítica, entende-se que é possível sim abordar o assunto: conversar, esclarecer e cuidar, respeitando a idade, capacidade de compreensão, adequando a linguagem e buscando uma comunicação clara, afetuosa e honesta. Além disso, o autocuidado do adulto também é um aspecto curador e relevante para que a criança possa elaborar seus medos e lutos, responsabilizando, assim, cada um por suas jornadas.

Na obra Sobre a morte e o morrer, Elisabeth Kubler-Ross afirma que o fato de permitir que as crianças fiquem em casa, onde ocorreu uma desgraça, e participem da conversa, das discussões e dos temores, faz com que não se sintam sozinhas na dor, proporcionando um certo conforto de um luto de alguma forma compartilhado. Segundo Elisabeth Kubler-Ross: “É uma preparação gradual, um incentivo para que encarem a morte como parte da vida, uma experiência que pode ajudá-las a crescer e amadurecer”.

E é nesse contexto que o tema “luto”, no âmbito da literatura infantil, é abordado. E, mais uma vez, ressalto que tanto o luto como o ciclo da vida (nascimento, vida e morte) deveriam ser abordados de forma mais sistemática no âmbito familiar e escola. Por que não?

Philippe Ariès, historiador francês, em seus estudos sobre a história da morte, discute as atitudes diante da morte no Ocidente, desde a antiguidade até a atualidade, dentro de uma visão histórica, social e cultural. Segundo o autor, as mudanças foram ocorrendo de forma lenta e silenciosa, a morte foi deixando de ter um caráter familiar, para, infelizmente, virar um tabu.

A partir do século XX, a morte tornou-se tema interdito, sendo afastada do espaço doméstico e banida das comunicações entre as pessoas. Com o desenvolvimento da ciência e tecnologia, as pessoas não morriam mais em casa, rodeadas de parentes e com autonomia nas escolhas de seu processo de morte e na organização de suas cerimônias; passaram a ter uma morte institucionalizada, nos leitos hospitalares, tornando-a um momento mais solitário e silencioso. 

Dessa maneira, a morte passa a não ser mais compreendida como algo natural, mas como algo que deve ser combatido, negado, ocultado e evitado, tornando-se objeto de interdição. Os rituais fúnebres e as expressões de luto passam a ser mais contidos e abreviados. O cenário da morte no século XX deixou duras influências para o século seguinte: a forma como lidamos com a morte, hoje, é a mais cruel da História, pois somos afastados dessa realidade, ocultando-a e ficando desprotegidos e solitários nessa jornada – por opção, sempre que possível –, salvo casos de mortes repentinas no lar.

Além de manter a memória de um ente querido ou alguém especial, seja em qual âmbito for, acredito ser primordial e reforço a importância do diálogo e a necessidade de falar com as crianças sobre o ciclo da vida, de acolhê-las no luto e segurá-las no colo, assim como fazemos em seu nascimento, e permitir que ela chore e berre e viva esse momento para superá-lo e refazer-se quando este tempo chegar. Que não se tire das crianças o direito de viver os rituais. É importante enfatizar que os rituais, presentes em toda a história da humanidade, são poderosos atos simbólicos, capazes de ofertar significado, ajudar na organização psíquica, concretizar a situação ao marcar a perda no tempo e espaço – além de ser um espaço onde o luto é autorizado, podendo ser expresso e acalentado.

O tabu do adulto, de certa forma, veta o acesso das crianças a um extenso repertório de obras literárias, ainda na obscuridade, que eventualmente têm potencial para trabalhar a compreensão da morte como parte do ciclo da vida e promover o acolhimento. Essas obras poderiam estar nas estantes de casa ou da escola, se não fosse esse preconceito ao redor do tema. Muitas vezes, são as histórias que validam o sofrimento, autorizam o luto. A ficção pode, e muito, promover a identificação do indivíduo por meio da história e pode ser um instrumento para potencializar a comunicação.

Vários estudos já demonstraram que o pensamento da criança é o mais próximo possível de um pensamento concreto, inclusivo e motivado, em que a nomeação é análoga à coisa nomeada.

Existem também as situações em que os adultos fazem um mau uso de metáforas para tentar amenizar a situação e fugirem de ter que usar o termo “morte”, ou usam explicações baseadas na religiosidade, crenças e cultura. Escuta-se frases como: “vovô dormiu para sempre”, “sua cachorrinha virou uma estrelinha”, “Papai do Céu precisava dele lá em cima”. Nem sempre a criança compreende uma metáfora, pois ela não promove a concretude. A compreensão racional de uma metáfora só ocorre através do pensamento abstrato, necessitando, portanto, de um desenvolvimento cognitivo. Quando isso não acontece, ela corre o risco de entender a situação ao pé da letra, podendo causar confusão, incompreensão, ansiedade e medo. As metáforas podem ser usadas, sim, de forma consciente e livre de amarras em relação à morte e ao morrer.

Para a criança entender de fato o conceito de morte é necessário que ela compreenda três aspectos fundamentais: irreversibilidade (quem morreu não volta mais; a morte não é temporária), universalidade (todos os seres vivos morrerão) e não funcionalidade (na morte as funções vitais cessam).

Devemos aproximar o tema “luto”, por meio dessa linguagem, sem nos esquecermos de que: a CRIANÇA É O QUE É NA ESPECIFIDADE DA SUA LINGUAGEM QUE PRIVILEGIA O ESPONTÂNEO, INTUITIVO, ANALÓGICO E CONCRETO DA NATUREZA HUMANA. Portanto apta e no direito de compreender o ciclo da vida do nascimento a morte. No ato de ouvir histórias recupera-se a herança empírica do homem, seus medos, descobertas, desejos… Recupera-se o sentimento de alívio em saber que o Outro vivencia conflitos semelhantes aos nossos.

Referências Bibliográficas

“Sobre a morte e o morrer” – Elisabeth-Kubler Ross, Editora Martins Fontes, 2017

“O Homem diante da morte” – Philippe Ariès, Editora Unesp, 2014

“Literatura Infantil – Voz de Criança” – Série Princípios, Editora Ática (2001)

Imagem: montagem com divulgação e Heritage Library

Sobre o autor

Luciana Carnial

Formada em jornalismo pela Fundação Cásper Líbero-SP, com Mestrado em Literatura e Crítica Literária. Autora do Livro “Socorro Manhê”. Integrante do grupo de pesquisa "Estudos sobre Morte e Pós-Morte", do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.